5 Pilares para Estruturar sua Narrativa de Ficção (Antes de Escrever a Primeira Palavra)

A escritora Joyce Chua compartilhou uma estratégia que pode transformar completamente seu processo criativo: definir cinco elementos estruturais fundamentais antes de começar o rascunho.

ESCRITA CRIATIVA

Raniere Menezes

1/2/20264 min read

Você já começou a escrever uma história todo animado com a ideia inicial, mas acabou perdido no meio do caminho sem saber para onde levar seus personagens? Ou pior: ficou travado olhando para a página em branco, sem conseguir avançar?

A escritora Joyce Chua compartilhou uma estratégia que pode transformar completamente seu processo criativo: definir cinco elementos estruturais fundamentais antes de começar o rascunho. Segundo ela, esse planejamento é essencial para economizar tempo, evitar bloqueios criativos e manter sua narrativa no rumo certo.

E não se preocupe: mapear esses pontos não significa engessar sua criatividade. Pelo contrário, é como traçar as coordenadas principais de uma viagem no GPS antes de sair de casa. Você ainda pode apreciar a paisagem e mudar a rota entre um ponto e outro, mas nunca ficará perdido sem saber em qual direção seguir.

Vamos explorar cada um desses pilares e entender como eles funcionam como a espinha dorsal da sua história.

1. A Frase ou Cena de Abertura

Antes de escrever a primeira palavra, você precisa saber exatamente como sua história começa. Parece óbvio, mas quantas vezes começamos a escrever sem ter clareza sobre esse momento inicial?

A abertura é sua primeira (e talvez única) chance de fisgar o leitor. É aqui que você estabelece a voz única da sua narrativa e apresenta o universo da história. Chua enfatiza a importância de evitar cenários genéricos: o leitor precisa conseguir "agarrar" a ambientação logo de cara, sentindo que está mergulhando em algo autêntico e particular.

Dica prática: Visualize ou escreva essa primeira cena antes de começar. Ela não precisa ser perfeita, mas deve capturar a atmosfera e o tom que você quer estabelecer.

2. O Incidente Incitante

Este é o evento que arranca seu protagonista da zona de conforto e dá início à trama propriamente dita. Sem o incidente incitante, você tem apenas um personagem vivendo sua rotina normal — não uma história.

Chua considera este um dos marcos fundamentais que devem ser planejados para que você não se perca durante a escrita. É o ponto onde a "semente da história" começa a criar raízes e a se ramificar em conflitos e desafios. Pode ser uma carta misteriosa, um encontro inesperado, uma tragédia súbita ou uma descoberta que muda tudo.

Dica prática: Pergunte-se: "O que acontece que faz meu personagem não poder mais continuar como antes?" Esse é seu incidente incitante.

3. O Ponto Médio (Momento Crucial)

O ponto médio é aquele momento pivotal que muda a direção da história ou aumenta drasticamente as apostas para o protagonista. Muitas narrativas perdem força justamente no meio, quando o autor não sabe para onde ir depois da empolgação inicial.

Ter esse marco definido ajuda a manter o ritmo e garante que seu rascunho tenha uma direção clara. É aqui que revelações importantes acontecem, alianças se rompem, verdades são descobertas ou o personagem percebe que o problema é muito maior do que imaginava.

Dica prática: Pense no ponto médio como uma segunda porta que seu personagem atravessa — depois dela, não há mais volta possível.

4. O Clímax

Não confunda clímax com ponto médio.

O clímax é o ponto de maior tensão da sua história, o confronto ou resolução final para o qual tudo vinha se construindo. Planejar esse momento antecipadamente permite que você construa toda a narrativa de forma que as ações levem inevitavelmente até ele.

Chua observa que, quando você conhece o clímax, o processo de geração de ideias torna-se mais divertido. Você pode surpreender a si mesmo ao descobrir como os personagens chegarão até lá, que escolhas farão pelo caminho e que preço pagarão por suas decisões.

Dica prática: Não confunda clímax com final. O clímax é a explosão de tensão; o final é o que vem depois, quando a poeira baixa.

5. A Cena Final

Saber exatamente onde sua história termina antes mesmo de começar o rascunho é o que Chua considera o verdadeiro segredo para uma escrita mais fluida. Ter o destino final traçado evita que você fique "preso dentro da própria cabeça", girando em círculos sem saber como concluir.

Durante a fase de revisão, você poderá focar em polir a linguagem e o ritmo para que a conclusão evoque exatamente a emoção desejada. Mas isso só é possível quando você já sabe, desde o início, qual é essa emoção e esse destino.

Dica prática: A cena final não precisa responder todas as perguntas, mas deve proporcionar uma sensação de fechamento emocional para o leitor.

O Mapa Não Limita a Jornada — Ele a Liberta

A beleza dessa estratégia é que ela não aprisiona sua criatividade. Ao contrário: ao saber para onde a história vai, você ganha liberdade para explorar os espaços entre esses marcos. Pode permitir que o trabalho "respire", deixar sua autenticidade cultural e pessoal preencher as lacunas, e até mesmo fazer desvios interessantes — desde que sempre saiba como retornar à estrada principal.

Pense nesses cinco pilares como as coordenadas de um mapa. Entre cada ponto, há espaço infinito para improvisação, descobertas e surpresas. Mas você nunca estará perdido, porque sempre saberá onde está e para onde precisa ir.

Experimente agora: Antes de começar (ou recomeçar) aquela história que está na sua cabeça, pegue uma folha e escreva esses cinco pontos. Não precisa ser detalhado — apenas o suficiente para você enxergar o caminho completo. Depois, deixe a magia acontecer entre os marcos.

Boa escrita!