A IA NÃO É SUA INIMIGA: POR QUE OS CRÍTICOS ESTÃO ERRADOS SOBRE A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA ESCRITA

Estava acompanhando o debate de encerramento da 50ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires quando percebi algo curioso: um grupo de intelectuais reunidos num dos maiores eventos literários do mundo usou microfones, câmeras digitais, plataformas de streaming e slides em PowerPoint para nos alertar sobre os perigos da tecnologia. A ironia passou despercebida por todos na sala.

ESCRITA CRIATIVAINTELIGÊNCIA ARTIFICIALIA & ESCRITAESCRITA CRIATIVA COM IACRIATIVIDADE

Raniere Menezes

5/19/20265 min read

Debate de encerramento da feira: Quem somos nós depois da IA?: https://youtu.be/GBPVnk2hXnQ

Não vou fingir que a Inteligência Artificial é perfeita ou que não levanta questões legítimas. Mas o que ouvi naquele debate foi uma série de medos mal disfarçados de argumentos filosóficos.

A EXPROPRIAÇÃO QUE SEMPRE EXISTIU

Jonathan Taplin argumenta que a IA expropia a criatividade humana, transformando o trabalho de uma vida inteira em ativos de banco de dados. É uma frase bonita. Mas Taplin parece ter esquecido que a história da cultura é a história da expropriação criativa — e que isso nem sempre é uma tragédia.

Shakespeare reescreveu histórias que não eram suas. Os impressionistas só existiram porque alguém inventou a tinta em tubo. Bob Dylan pegou estruturas do blues do Mississippi e as reconfigurou para uma geração branca de classe média. A indústria fonográfica inteira foi construída transformando performances ao vivo — atos profundamente humanos, irrepetíveis — em produtos industriais vendidos em massa. Onde estava a indignação filosófica quando o vinil substituiu o músico itinerante?

A diferença entre a IA e todas essas transformações anteriores é apenas a velocidade e a escala. O princípio é o mesmo: novas ferramentas sempre reconfiguram o que fazemos com o que veio antes. Chamar isso de "expropriação" quando a ferramenta é digital e "evolução" quando é analógica é uma inconsistência que o debate de Buenos Aires não enfrentou.

O MITO DA CRIATIVIDADE PURA

Tomás Balmaceda teme que a IA substitua "o esforço e a fricção necessários para o aprendizado". Darío Sztajnszrajber, por sua vez, ao menos teve a honestidade de admitir que "já somos seres constituídos por técnica" — mas os demais painelistas parecem ter perdido esse memorando.

Existe uma fantasia persistente de que haveria uma criatividade humana pura, não mediada, anterior à tecnologia. Essa criatividade não existe. Nunca existiu. O escritor que usa processador de texto não é menos criativo do que o que usava máquina de escrever. O que usava máquina não era menos criativo do que o que usava pena de ganso. Em cada transição, os guardiões da autenticidade proclamaram o fim da arte genuína. Em cada transição, estavam errados.

A IA na escrita não elimina a voz do autor — ela elimina a parte chata mecânica (replicável). Quem já passou três horas reescrevendo o mesmo parágrafo porque a estrutura não fluía sabe que a "fricção" que Balmaceda romantiza pode ser simplesmente um obstáculo entre o escritor e sua ideia. Ferramentas que reduzem esse atrito não destroem a criatividade; elas a liberam para onde realmente importa.

VIGILÂNCIA? O PROBLEMA É ANTERIOR

Flavia Costa levanta a questão da vigilância e da concentração de poder nas Big Techs. Aqui, finalmente, chegamos a uma crítica legítima — mas que foi dirigida ao alvo errado.

O problema da vigilância de dados não foi criado pela IA generativa. Foi criado pelo Facebook em 2004, pelo Google em 1998, pelo modelo de publicidade comportamental que financiou toda a internet gratuita que usamos há décadas. Se Costa e seus colegas usaram o Google para pesquisar os dados dos seus painéis, se têm conta no Instagram, se aceitaram os termos de serviço de qualquer aplicativo nos últimos vinte anos — eles já estavam dentro do sistema que criticam.

Regulação é necessária, sim. Mas confundir "IA" com "capitalismo de vigilância" é um erro de diagnóstico que leva a tratamentos errados. Podemos ter IA com regulação robusta de dados. Podemos ter proteção de privacidade sem abrir mão das ferramentas. O debate de Buenos Aires tratou esses temas como se fossem inseparáveis.

SOBRE SIMULAR OS MORTOS

Este é o argumento mais emotivo, e por isso merece atenção cuidadosa. Taplin e Lucía Puenzo alertam para os riscos psicológicos de emular entes queridos falecidos e reconstruir artistas mortos como performers virtuais.

Realmente deve haver casos de uso problemáticos. Usar a imagem de um artista sem o consentimento de seus herdeiros é uma questão legal e ética real. Substituir o luto por um chatbot que imita seu avô pode ser psicologicamente prejudicial para pessoas vulneráveis.

Mas Puenzo generalizou demais ao tratar todo uso de IA para simular presença humana como inerentemente perverso. Ela ignorou completamente os usos terapêuticos documentados, os projetos de preservação de memória familiar, as iniciativas que permitem a pessoas com Alzheimer em estágio avançado deixar registros interativos para seus filhos. Ignorou que a fronteira entre homenagem e exploração é uma questão de consentimento e regulação — não de tecnologia em si.

A humanidade sempre tentou preservar os mortos. Retratos, diários, gravações de voz, filmes. A IA é apenas a versão mais sofisticada de um impulso profundamente humano. Demonizá-la sem distinguir usos é preguiça intelectual vestida de ética.

O QUE OS CRÍTICOS NÃO QUEREM ADMITIR

No fundo, o debate de Buenos Aires revelou algo que os intelectuais raramente admitem: o medo de ser democratizado.

A escrita assistida por IA permite que pessoas sem treinamento formal expressem ideias complexas com clareza. Permite que falantes não-nativos de uma língua publiquem com dignidade. Permite que trabalhadores com pouco tempo livre — que não tiveram o privilégio de uma educação literária — participem da conversação cultural. Isso aterroriza quem construiu sua autoridade sobre a escassez do acesso à palavra bem escrita. É a quebra de uma bolha elitizada.

Quando Balmaceda teme que a IA transforme estudantes em "receptores passivos", talvez o medo real seja que esses estudantes, agora munidos de ferramentas melhores, passem a questionar com mais vigor os professores que antes detinham o monopólio do saber elaborado.

CONCLUSÃO: O FUTURO NÃO PEDE PERMISSÃO

Nenhum dos debatedores de Buenos Aires propôs abrir mão de suas ferramentas tecnológicas atuais em nome da autenticidade humana. Nenhum sugeriu voltar às tipografias manuais, às pesquisas em fichários físicos, à comunicação por carta. Porque seriam posições absurdas.

A IA na escrita é a próxima ferramenta. Haverá abusos — como houve com todas as anteriores. Haverá regulação necessária — como houve com todas as anteriores. Haverá uma geração de guardiões proclamando o fim da cultura — como houve com todas as anteriores.

E haverá escritores, professores, jornalistas e contadores de histórias que vão pegar essa ferramenta, entender seus limites, explorar suas possibilidades e produzir trabalho que nenhum dos críticos de hoje conseguirá ignorar.

A pergunta do debate era "Quem somos após a IA?". A resposta mais honesta é: somos o que sempre fomos — seres que usam ferramentas para dizer coisas que importam. O que muda é a ferramenta. O que fica é a responsabilidade de usá-la bem.

Isso, ao contrário do que foi dito em Buenos Aires, é uma boa notícia.

---

Este artigo representa uma posição deliberadamente provocativa para estimular o debate. O autor reconhece a legitimidade de preocupações éticas sobre IA.