A Ilusão da Régua Universal: Por que a Convivência Exige Mais Graça do que Julgamento
Ninguém foi colocado no mundo para corresponder exatamente às suas expectativas. Parece simples. Parece até óbvia. Mas quando você para pra pensar de verdade no que ela implica — não apenas como conselho, mas como realidade teológica —, ela ganha relevo e importância.
TEOLOGIA & CULTURA · REFLEXÃOPSICOLOGIA & ACONSELHAMENTO
Raniere Menezes
6/23/20269 min read


O problema da convivência, na maioria das vezes, não é o outro. É a régua que criamos para os outros.
A ilusão da régua universal
Existe uma tendência enganosa no coração humano de erguer padrões — de comportamento, de reação, de valor — e então projetar esses padrões sobre as pessoas ao redor como se fossem obrigações morais universais. Como se o jeito que eu penso fosse o jeito que todos deveriam pensar. Como se a minha forma de amar, de trabalhar, de processar conflitos, de pensar, de tomar decisões, fosse o metro-padrão da existência humana.
A teologia reformada tem nome para esse impulso: é o pecado operando no coração regenerado ou não. Calvino chamava isso de incurvatus in se — a curvatura do eu sobre si mesmo, herdada de Agostinho.
O homem caído não apenas peca; ele mede o mundo a partir de si. E o homem regenerado ainda carrega os resquícios disso, combatendo diariamente a tendência de transformar suas preferências em lei.
Muito do nosso sofrimento relacional não vem do comportamento do outro. Vem da decepção de que a outra pessoa não cumpriu uma lei que nós mesmos criamos e nunca formalizamos.
Esperamos que o cônjuge responda ao conflito da mesma forma que nós. Esperamos que os filhos processem a vida com a mesma lógica que usamos. Esperamos que os colegas priorizem o que priorizamos. E quando isso não acontece — e inevitavelmente não acontece —, o sofrimento chega disfarçado de traição.
O que a Escritura diz sobre o próximo
A pergunta que o intérprete da lei fez a Jesus em Lucas 10 é mais honesta do que parece: "E quem é o meu próximo?" Não era uma pergunta filosófica. Era uma tentativa de delimitar a régua — de encontrar o ponto onde a obrigação de amar termina e começa a zona de conforto.
Jesus não respondeu com uma definição. Respondeu com uma história. E na história, o próximo não é o semelhante, não é o compatível, não é o que pensa igual. O próximo é o samaritano — o estranho, o diferente, o que cruza o caminho de forma inesperada e exige uma resposta real de misericórdia.
A Escritura não nos chama a amar os que já são como nós. Isso qualquer pagão faz (Mateus 5.46–47). O chamado do Evangelho é precisamente amar o que não cabe na nossa régua. O que pensa diferente. O que age diferente. O que vai tomar decisões que nós jamais tomaríamos. Nisso, grande parte da cristandade quebra essa régua.
Paulo escreve aos romanos: "Recebei o que é fraco na fé, mas não para contendas de opiniões" (Romanos 14.1). E depois, com ainda mais clareza: "Cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus" (14.12). Há um dever perante o Criador que a convivência humana precisa aprender a respeitar.
Humildade como competência relacional
Muitas vezes, eu sou a pessoa difícil na história de alguém.
Não é confortável. Mas é verdadeiro. E é exatamente esse reconhecimento que Filipenses 2 está construindo quando Paulo escreve: "nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo" (v.3). Isso não é um convite à autoanulação ou ao relativismo moral ou falsa modéstia. É um convite a sair da posição de juiz e assumir a posição de discípulo — alguém que ainda está sendo formado, que ainda tem muito a aprender, inclusive com o diferente.
Conviver exige paciência. Exige respeito. Exige a disposição de estar errado. E exige — talvez acima de tudo — a clareza de que discordar não é o mesmo que atacar, que pensar diferente não é o mesmo que desrespeitar, que manter convicções não é o mesmo que transformar cada diferença em uma batalha.
A maturidade cristã não é a capacidade de conviver apenas com quem já chegou onde você está. É a capacidade de conviver com quem está num lugar diferente — e ainda assim tratá-lo com dignidade, porque ele também foi feito à imagem de Deus.
A riqueza do que não somos
O mundo seria muito mais simples se todos fossem iguais a nós. E seria também infinitamente mais pobre. As pessoas não são iguais.
Deus não criou um mundo de cópias. Criou um mundo de distinções — de temperamentos, de histórias, de perspectivas, de dons. E na tradição reformada entendemos que essa diversidade não é acidente, é providência. Deus governa o mundo através de pessoas diferentes, chamadas a funções diferentes, moldadas por experiências diferentes. A diferença não é o problema que precisa ser resolvido. É o material com o qual Deus trabalha.
Paulo usa a metáfora do corpo em 1 Coríntios 12 precisamente para desconstruir a ilusão da uniformidade. O olho não pode dizer à mão que não precisa dela. E o que parece menos honroso muitas vezes recebe a maior honra. A diversidade não é tolerada a contragosto — ela é constituinte da beleza do corpo de Cristo.
As diferenças que nos desafiam são as que mais nos ensinam. As pessoas que menos cabem na nossa régua são frequentemente as que mais nos revelam os limites da nossa própria visão.
Conviver como vocação
Não existe santificação em isolamento. A formação do caráter cristão acontece no atrito — na vizinhança, na família, no casamento, na amizade, na igreja local, no ambiente de trabalho. É precisamente o contato com o diferente que revela o que ainda precisa ser transformado em nós.
Então quando a convivência ficar difícil — e ela vai ficar —, vale lembrar duas coisas.
Primeiro: nem todo mundo vai caber na sua régua. Você vai se relacionar com pessoas que tomam decisões que você jamais tomaria, que têm valores que se expressam de formas que você não reconhece, que processam a vida por caminhos que parecem estranhos aos seus. E está tudo relativamente bem. Elas não estão aqui para confirmar a sua visão de mundo.
Segundo: você também não vai caber na régua de todo mundo. E talvez isso seja a maior libertação que a teologia da graça oferece. Você não precisa ser perfeito para ser amado. Você não precisa ser compreendido por todos para ser aceito por Deus. E isso devia tornar você mais generoso — não menos — com os que também não cabem nas suas expectativas.
Conviver é um exercício diário. É difícil. É formador. E, quando feito à luz do Evangelho, é também um dos atos mais profundamente cristãos que existem.
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A frase "O inferno são os outros" (L'enfer, c'est les autres), de Jean-Paul Sartre, é provavelmente uma das frases filosóficas mais mal compreendidas da história.
Muita gente interpreta como: "As outras pessoas são insuportáveis." Ou "O ser humano deveria viver sozinho."
Mas Sartre não quis dizer isso. A frase aparece na peça Entre Quatro Paredes, em que três pessoas são trancadas juntas numa sala após a morte.
Elas esperam encontrar instrumentos de tortura, fogo ou demônios. Mas não há nada disso. A punição é simplesmente terem de conviver umas com as outras para sempre.
Aos poucos, cada uma começa a expor as fraquezas, mentiras e culpas das outras. Não há como fugir dos julgamentos mútuos. Então um dos personagens conclui:
"O inferno são os outros."
Um dos aspectos mais dolorosos da existência é que nós nunca somos apenas aquilo que pensamos de nós mesmos. Também somos aquilo que os outros enxergam. Quando alguém nos observa, julga ou rotula, perdemos parte da liberdade de definir quem somos.
Você pode se vê como uma pessoa generosa. Outra pessoa o vê como interesseiro. De repente, sua identidade deixa de estar apenas em suas mãos. Você passa a existir dentro da consciência do outro.
O olhar do outro
Imagine que você está sozinho em casa cantando e dançando. Você se sente livre. Mas alguém abre a porta e observa. Instantaneamente você muda de comportamento. Você se torna consciente de si mesmo.
O olhar do outro transforma você em objeto de observação. É essa experiência que Sartre está descrevendo.
O inferno não é a presença do outro
O problema não é o outro existir. O problema é quando ficamos presos à imagem que os outros fazem de nós. O inferno surge quando:
Dependemos totalmente da aprovação alheia. Somos reduzidos a rótulos. Ficamos aprisionados no julgamento dos outros. Não conseguimos escapar das interpretações que fazem de nós.
Uma interpretação para relacionamentos
Em amizades, famílias e casamentos, a frase continua relevante. Muitas brigas surgem porque:
Eu acho que sou uma coisa. Você acha que sou outra. Eu tento convencer você. Você tenta me definir.
O conflito nasce entre quem eu acredito ser e quem você acredita que eu sou.
O outro pode ser um inferno quando nos reduz a uma caricatura. Mas também pode ser uma bênção quando nos vê com graça e compreensão.
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Já que estamos falando em régua, vamos subir o sarrafo um pouco; aumentar o nível ou aprofundar a conversa.
Há um conceito que aponta para uma realidade psicológica que diz que nunca nos relacionamos apenas com a pessoa real que está diante de nós. Nós nos relacionamos também com imagens, interpretações e projeções.
É o que William James resumiu numa frase:
"Sempre que duas pessoas se encontram, há realmente seis pessoas presentes: cada uma como vê a si mesma, cada uma como a outra a vê e cada uma como realmente é."
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Vamos imaginar duas pessoas, Ana e Pedro.
Quando eles se encontram, existem:
Ana como Ana vê a si mesma
A história que Ana conta sobre si "Sou gentil." "Sou inteligente." "Sou uma pessoa justa."
Essa autoimagem pode ser parcialmente verdadeira, exagerada ou até distorcida.
Existe o Pedro como Pedro vê a si mesmo
A narrativa interna de Pedro: "Sou trabalhador." "Sou tímido." "Sou confiável."
Também é uma interpretação de si mesmo.
Pedro não vê Ana diretamente.
Ele vê uma versão filtrada por: suas experiências passadas; seus medos; suas expectativas; seus preconceitos.
Talvez Ana ache que está sendo objetiva, mas Pedro a vê como crítica.
O mesmo acontece do outro lado.
Talvez Pedro ache que está sendo reservado.
Ana pode interpretá-lo como arrogante ou indiferente.
Existe uma pessoa real por trás de todas as interpretações.
Mas essa realidade é difícil de enxergar completamente.
Nem a própria Ana conhece todas as suas motivações, contradições e pontos cegos.
Da mesma forma, existe um Pedro real que vai além daquilo que ele pensa sobre si e daquilo que Ana pensa dele.
Por isso os relacionamentos acontecem em meio a múltiplas camadas de percepção.
Muitos conflitos surgem porque estamos reagindo não à pessoa real, mas à nossa imagem dela.
Pedro faz silêncio.
Ana pensa: "Ele está me ignorando."
Mas Pedro está apenas cansado.
Ana não reage ao Pedro real.
Ela reage ao Pedro imaginado.
Isso acontece diariamente em casamentos, amizades, aproximações, famílias e ambientes de convivência.
O que podemos afirmar? As pessoas possuem uma autoimagem. Os outros formam impressões próprias. Nenhuma das duas visões é totalmente precisa. A realidade costuma ser mais complexa que ambas.
Em outras palavras:
Não vejo você como você realmente é.
A sabedoria nessa frase é que a convivência humana exige humildade. Quase sempre estamos lidando com versões incompletas uns dos outros. Conhecer verdadeiramente alguém é um trabalho de anos — e conhecer a si mesmo, talvez, seja o trabalho de uma vida inteira.
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"Ninguém é uma ilha, completo em si mesmo". Esta frase de um sacerdote anglicano, John Donne tinha uma visão cristã de comunidade. Nenhum ser humano foi feito para existir sozinho.
Por mais independente, forte ou autossuficiente que alguém pareça, todos dependemos de outras pessoas para viver, aprender, amar, trabalhar e encontrar significado.
A frase vem da obra Devotions upon Emergent Occasions (1624). O trecho completo:
"Nenhum homem é uma ilha, inteiro em si mesmo; cada homem é uma parte do continente, uma parte do todo."
A metáfora é geográfica.
Uma ilha está separada do continente.
Donne afirma que os seres humanos não são assim.
O que ele quis dizer?
Imagine alguém dizendo:
"Não preciso de ninguém."
Mesmo a pessoa mais independente depende de inúmeros outros. Nossa vida está entrelaçada com a dos outros.
Quando alguém sofre, perde-se algo que também nos pertence. Quando alguém cresce, todos são enriquecidos de alguma forma. Existe uma interdependência moral entre as pessoas.
Muitas das coisas mais importantes da vida surgem no encontro com outras pessoas: amizade; amor; perdão; cooperação; aprendizado; maturidade.
Você pode aprender matemática sozinho. Mas dificilmente aprenderá paciência, empatia ou compromisso sem conviver com outra pessoa.
"Ninguém é uma ilha" significa que a vida humana é essencialmente relacional: somos formados pelos outros, afetamos os outros e pertencemos uns aos outros, quer percebamos isso ou não.
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Conviver é transitar em um território onde estamos sempre à prova. Se, por um lado, John Donne nos lembra que não somos ilhas e que fomos desenhados para a interdependência, por outro, Sartre e William James nos alertam sobre o perigo de transformarmos os outros em infernos particulares através de nossas projeções, rótulos e distorções.
Quando nos trancamos na ilusão de que o nosso olhar é o metro-padrão da realidade, as seis pessoas envolvidas em um simples diálogo acabam se digladiando em um labirinto de mal-entendidos.
A resposta para esse impasse não está no isolamento, tampouco na tentativa de moldar o próximo à nossa imagem. Está na graça e na humildade. Reconhecer que não somos o centro do universo — e que também falhamos em caber na régua alheia — nos liberta.
A convivência, com todos os seus ruídos e atritos, é a oficina de Deus para a nossa santificação. É no encontro com o samaritano, com o cônjuge cansado, com o colega incompreendido e com aquele que pensa diferente de nós que o nosso orgulho é quebrado.
Conviver é abdicar da nossa própria régua para aprender a medir a vida com a graça do Evangelho. Um trabalho para a vida toda.
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