A MANOSFERA não é a causa do ódio ao FEMINISMO. É sintoma de uma cultura misândrica e algorítmica?

Há décadas vivemos numa cultura de polarização ideológica que insiste em colocar homem contra mulher, e essa hostilidade não dá sinais de arrefecer. Pelo contrário: continua em alta.

POLÍTICA E RELIGIÃOAPENAS UM ENSAIO

Raniere Menezes

9/26/20264 min read

A MANOSFERA não é a causa do ódio ao FEMINISMO. É sintoma de uma cultura misândrica e algorítmica?

Há décadas vivemos numa cultura de polarização ideológica que insiste em colocar homem contra mulher, e essa hostilidade não dá sinais de arrefecer. Pelo contrário: continua em alta.

Durante décadas, o feminismo se desenvolveu dentro de ambientes políticos, acadêmicos e midiáticos com um objetivo declarado: destruir o patriarcado e lutar pela igualdade de gênero. Ganhou os holofotes da cultura pop. A masculinidade tradicional, nesse processo, foi sendo tratada como algo ultrapassado, um resquício a ser superado.

Mas depois de décadas dessa ascensão, cabe perguntar: quais foram as consequências sociais?

Algumas pesquisas ajudam a responder.

Um levantamento de Melissa Deckman mostrou que 49% dos homens da Geração Z disseram, em 2022, que os Estados Unidos haviam se tornado "muito suaves e femininos". Em 2023, esse número subiu para 60%. Uma pesquisa da Hope Not Hate, feita em 2020 com 2.076 jovens no Reino Unido, revelou que metade dos jovens do sexo masculino concordava que o feminismo "foi longe demais e torna mais difícil para os homens".

A aversão dos homens da Geração Z ao feminismo não está diminuindo à medida que o movimento se torna mais popular. Pelo contrário: está se intensificando. A explicação mais comum para isso é a manosfera — figuras online que supostamente radicalizaram uma geração inteira de jovens contra a igualdade de gênero. É uma explicação simplista, e também incompleta, porque se a manosfera é a causa, precisamos responder a uma pergunta aparentemente simples: esses jovens já não estavam revoltados antes de a manosfera existir?

Gostamos do seu feminismo. Só não gostamos das suas feministas.

Gandhi dizia algo parecido sobre outro tema: "Gosto do seu Cristo. Não gosto dos seus cristãos. Os seus cristãos são tão diferentes do seu Cristo." O mesmo vale, hoje, para a maioria dos homens em relação ao feminismo. — Pode-se dizer que há feministas que não concordam com tudo do movimento feminista.

O feminismo não se trata de ódio. Você pode ser feminista e odiar homens, mas isso é uma falha individual de quem por acaso é feminista. O feminismo é um elemento importante na luta humanitária, assim como os direitos civis. Não somos inimigos de nossas mães, irmãs, tias, primas, esposas, filhas, cunhadas etc.

Vivi minha juventude nos anos 80 e 90. Ninguém, no meu convívio, era contra as mulheres votarem — nem se falava nisso. Ninguém se manifestava contra o acesso igualitário das mulheres à educação, à saúde, ao emprego, a qualquer setor da vida social. Éramos feministas, então, naquele sentido mínimo de reconhecer a igualdade de direitos? Talvez.

Lá se vão trinta anos, e muitas mulheres conquistaram os níveis de igualdade que têm hoje em parte graças à contribuição direta ou indireta desses homens.

O problema é outro. O feminismo que conhecíamos queria ajudar mulheres que estavam em dificuldade — necessitadas, desamparadas, marginalizadas, oprimidas. O feminismo que vemos hoje parece querer colocar os homens exatamente no lugar de onde antes se tentava resgatar as pessoas.

O problema é que, como acontece com todos os "movimentos", o pêndulo feminista oscilou demais na direção extrema — algumas mulheres desrespeitam os homens, demonstram animosidade em relação a eles. E o algoritmo gosta disso.

Comecemos por algo que parece bobagem. A página inicial do Google costuma celebrar o Dia Internacional da Mulher. E ignora o Dia Internacional do Homem. O Dia Internacional do Homem sequer é formalmente reconhecido pela ONU — enquanto o Dia Internacional da Mulher é. Uma bobagem, né?

No final de 2016 surgiu, no Twitter nigeriano, um movimento com a hashtag #MenAreScum ("homens são escória"), que se manteve como presença constante na rede até 2018.

Deixando de lado, por um momento, o quanto a hashtag em si já é explicitamente sexista, o movimento nasceu de mulheres compartilhando experiências terríveis que haviam sofrido nas mãos de homens — algo legítimo e necessário de ser dito. Mas uma usuária identificada como American Honey NG publicou um tweet que podia ser lido como se "escória" fosse uma característica inerente tanto a homens bons quanto maus, algo comparável a um cromossomo XY.

Essa é uma proposição muito diferente de "mulheres estão usando essa hashtag para contar histórias sobre homens que as abusaram ou maltrataram". É, na prática: "o mau comportamento individual é evidência de uma natureza masculina ruim".

Ter consciência de que a misoginia existe é uma coisa. Descobrir que muitas das pessoas que pregavam abertamente o ódio aos homens como grupo demográfico eram feministas assumidas, aos quatro ventos, é outra. Simples de entender isso.

Frases como "homens são inúteis", "homens são burros", "matem todos os homens" e variações semelhantes se repetem com frequência e veemência em determinados espaços, sem o mesmo tipo de repúdio social que qualquer discurso equivalente contra mulheres receberia com razão.

A pesquisa New Statesman/Merlin Strategy, de 2026, feita no Reino Unido, é hoje o dado mais citado sobre como os jovens enxergam o sexo oposto. Entrevistou britânicos de 18 a 30 anos, com forte sobreposição com a Geração Z, especialmente no subgrupo abaixo dos 25. O resultado: apenas cerca de 35% das mulheres com menos de 25 anos tinham uma visão positiva dos homens, e apenas 50% das mulheres com menos de 30 anos em geral — contra 72% dos homens jovens que tinham uma visão positiva das mulheres.

Você vê uma publicação das Nações Unidas dizendo que "comunidades online nocivas podem normalizar a misoginia" e se pergunta onde diabos estava essa preocupação quando a hashtag #HomensSãoEscória viralizava.

O ódio aos homens é permitido, aceito, normalizado? A manosfera é efeito colateral disso — ela não criou o público, ela encontrou um público já em formação.

E foi nesse vácuo que apareceram os caras que dizem: não, você não tá louco. Eu também percebo isso. E enquanto isso o algoritmo trabalha enquanto homens e mulheres dormem, para que de manhã ambos sejam polarizados.

Mulheres estão sendo enganadas. Homens também. A cultura algorítmica te mostrar tudo aquilo que aumenta sua dopamina, quanto mais extremo, melhor.

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