A Psicologia da Criatividade: Como Superar Bloqueios e Escrever Seu Romance

Você sabia que o bloqueio criativo, por si só, não existe? Assim como a insônia muitas vezes é a ansiedade/medo de não conseguir dormir, o bloqueio criativo é, frequentemente, o medo do próprio bloqueio.

ESCRITA CRIATIVA

Raniere Menezes

1/14/20263 min read

Escrever um romance é um dos maiores desafios criativos que podemos enfrentar. Não é apenas sobre ter uma boa ideia — é sobre sustentar o interesse, vencer resistências internas e construir uma obra que dialogue com os leitores. Neste artigo, vamos explorar os aspectos psicológicos da criatividade literária e descobrir como transformar bloqueios em combustível para a escrita.

O Paradoxo do Bloqueio Criativo

Você sabia que o bloqueio criativo, por si só, não existe? Assim como a insônia muitas vezes é a ansiedade/medo de não conseguir dormir, o bloqueio criativo é, frequentemente, o medo do próprio bloqueio.

A solução não está em forçar a produção de palavras, mas em criar um espaço para a criação. Reserve um tempo específico para escrever — mesmo que nesse tempo você não escreva nada. Fique com seu caderno, sua caneta, em modo avião. Se não surgirem ideias, tudo bem. Elimine a pressão de produzir. Pesquise sobre o assunto de sua ideia.

Quando paramos de brigar com a resistência, quando aceitamos o momento presente sem julgamento, algo curioso acontece: as ideias começam a fluir naturalmente.

Criador ou Reprodutor? Escolha Seu Caminho

Vivemos em uma era de produção excessiva de conteúdo. Textinhos de um minuto, manchetes, posts otimizados para engajamento — tudo isso é como comida ultraprocessada: rápido, conveniente, mas sem substância real.

O romance exige outra temporalidade. Exige que você transfira sua atenção do efêmero para a substância, dos textinhos para as narrativas profundas. A forma longa revela as incoerências do texto, os cacos que precisam ser ajustados — algo que o texto curto jamais faz.

O Trabalho Criativo vs. O Trabalho Alienado

Mesmo fazendo o que sonhamos, podemos nos enredar em estruturas de trabalho alienante. Sentar todo dia e escrever 1.000 palavras seguindo uma cartilha de produtividade corporativa pode resultar em um texto que não seja bom, que não seja proveitoso, que não seja realmente seu.

O tempo da criação é diferente do tempo do capital. O trabalho autoral exige presença. Se você se desconecta, o texto que surge não é seu — é apenas um arranjo de lugares-comuns do seu repertório.

Três princípios para testar:

  1. Tome a escrita como um fim em si mesmo — tenha uma certa independência do resultado final.

  2. Transforme a atividade em jogo, em desafio — extraia prazer do processo.

  3. Situe-se na zona de desenvolvimento— nem muito fácil, nem muito difícil, mas desafiador o suficiente para crescer.

A Teoria do Enquadramento

Pode parecer paradoxal, mas não existe liberdade sem enquadramento. Quando você solta uma criança em um espaço ilimitado, ela fica angustiada. Quando a coloca em um quadrado seguro, você estimula simultaneamente liberdade e segurança, criatividade e acolhimento.

O mesmo vale para a escrita. O enquadramento é:

  • O caderno e a caneta em isolamento (ou seu notebook)

  • O celular no modo avião

  • A estrutura do seu livro

  • O gênero que você escolheu

  • O idioma que te escolheu

  • O capítulo específico que você vai escrever hoje

A vertigem da falta de limites é justamente o que impede a criação. "Tudo é possível" rapidamente se transforma em "nada é possível". Ainda bem que nem tudo é possível! É o recorte, a escolha, o "não" que você diz para certas possibilidades que torna a criação viável.

O Que Faz um Leitor Virar a Página?

A literatura é uma formação substitutiva: em vez de brincar, o adulto fantasia e cria. E o escritor? É aquele que brinca pelos outros, que ajuda os outros a brincar.

Os fundamentos da narrativa envolvente:

  • Realização de desejos — todo conflito, toda trama tem como base desejos não satisfeitos.

  • Dois tipos principais de desejo — o ambicioso (a ideia de ser) e o erótico (a ideia de ter).

  • Duas histórias em uma — toda história conta uma história manifesta (o que vemos) e uma latente (o subtexto, o subterrâneo)

Aquilo que traumatiza na vida tem, na ficção, poder de curar. Por isso um leitor é tão grato a determinado livro — porque consegue ler ali aquilo que na realidade lhe provocou dor, mas agora transformado em arte, em sentido, em beleza.

Seu Próximo Passo

Escrever um romance não é sobre inspiração ou talento inato. É sobre criar as condições certas, entender os fundamentos psicológicos da narrativa e, principalmente, desenvolver uma prática consistente.

Lembre-se: você não escolhe quem quer ser no futuro. Você escolhe seus hábitos, e seus hábitos escolhem seu futuro.

A escrita é para quem ama o processo, não para quem ama apenas publicar.