A Solitude Que Ninguém Quer Hoje
Quando o serviço na mesa rouba o lugar da adoração aos pés de Cristo, o ministério adoece. É hora de resgatar a prioridade de Betânia. - A deturpação da solidão na igreja moderna e a necessidade urgente de resgatar a solitude espiritual (o deserto disciplinado) em contraposição ao ativismo e ao isolamento.
REINO DE DEUSESTUDO BÍBLICO
Raniere Menezes
7/4/20264 min read


Existe uma palavra que a religião popular trocou por "networking espiritual". Essa palavra é solidão. E ela foi anulada duas vezes: primeiro pelo mundo, que a transformou em patologia; depois pelo evangelicalismo motivacional, que a transformou em pecado social. Ninguém mais quer ficar só. Ninguém mais sabe o que fazer com o silêncio.
No lugar da Bíblia uma tela que rola infinitamente na palma da mão.
Mas há uma diferença que a linguagem de alguns recusa-se a fazer: a diferença entre isolamento e solitude.
Descubra a diferença vital entre o isolamento que adoece e a retirada voluntária que fortalece a sua fé.
Isolamento é carência. Solitude é escolha.
O isolamento é imposto. É a solidão do exílio involuntário, do abandono, da carência afetiva que ninguém escolheu sentir. A solitude, ao contrário, é retirada deliberada. É o gesto de quem se afasta da praça — não porque foi expulso dela, mas porque decidiu que ali foi cumprida uma missão.
Isolamento é a separação ou afastamento de algo ou alguém do convívio, contato ou influência de terceiros.
É um direito de se recusar ao ruído. Mas os cristãos deveriam saber disso antes de qualquer filósofo, porque a Escritura já havia forjado esse conceito desde sempre.
Quando você foge do silêncio e da solitude, sua espiritualidade passa a depender apenas da validação dos outros.
O deserto de Paulo
Depois de sua conversão, Paulo não correu para Jerusalém em busca de validação apostólica. Foi para a Arábia. Ficou lá entre dois e três anos, longe dos doze. Gálatas 1 registra isso quase de passagem, e merece um segundo olhar.
Moisés teve quarenta anos de deserto antes do chamado e outros quarenta depois dele, pastoreando ovelhas em vez de multidões. Elias, depois do Carmelo — seu momento de maior exposição pública — foi empurrado por Deus para o deserto. João Batista construiu sua igreja no lugar onde ninguém aplaudia.
Nenhum desses homens buscou isolamento. Todos buscaram solitude. E a diferença entre as duas coisas é exatamente a diferença entre fugir do mundo e se preparar para voltar a ele com algo que valha a pena dizer. —Jesus não pede retiro do mundo, mas promete que livra do mal.
Igreja Hoje
A cultura da igreja hiperativa trata o silêncio como desperdício. Se você não está em três ministérios, seis grupos de WhatsApp e uma escala de voluntariado, algo está errado com sua espiritualidade — dizem. Mentira.
É exatamente na busca pelo “a sós com Deus” que a alma para de repetir clichês e começa, finalmente, a pensar. O ativismo tem destruído a fé de muitos.
É ali, fora da praça e da fama, que o crescimento espiritual verdadeiro tem espaço para ocorrer. E crescimento verdadeiro nunca foi sinônimo de conforto. Dói, porque exige olhar de frente para as próprias feridas — os pecados que o barulho cotidiano nos ajuda a esconder de nós mesmos.
Ninguém vai te dar esse tempo. Você tem que buscá-lo
E aqui está o ponto que a espiritualidade superficial e preguiçosa nunca vai admitir: essa solitude não aparece. Ela é forjada. Se você esperar por uma brecha natural na agenda, vai esperar para sempre — porque o mundo não tem interesse nenhum em te devolver silêncio.
A ansiedade de Marta domina ministérios de igreja, enquanto uma só coisa é necessária. — Lucas 10. A igreja se transformou numa casa de festa, quando deveria ser uma casa de Betânia. A casa de Lázaro, Marta e Maria. Hoje falta sentar-se aos pés do Senhor. Sentar-se aos pés para ouvir a Palavra.
O barulho, a agitação interna de Marta a fez ansiosa e também perder a melhor parte. Marta falhou na prioridade. Maria acertou na prioridade. O ativismo vazio é fazer para Deus sem estar com Deus.
Fazer para Jesus é diferente de estar com Jesus. Servir a mesa é diferente de comer da mesa. Olhar para a tarefa é diferente de olhar para a Pessoa de Cristo. Ministério que não nasce do secreto vira bornout.
A ordem do Reino é sentar aos pés do Senhor, ser cheio de sua Palavra, servir. Inverter essa ordem é o que Jesus chama de muitas coisas que roubam a uma só coisa.
O silêncio para ouvir melhor Jesus é necessário. É o deserto dos profetas.
A responsabilidade de criar esse deserto pessoal, diário, disciplinado, é inteiramente sua. Paulo não esperou uma vaga se abrir na Arábia. Ele foi.
A cultura da igreja hiperativa transformou o silêncio em desperdício. Resgate a solitude bíblica.
A solitude como ato de “rebeldia”
Recusar a validação constante das massas, o aplauso fácil, a aprovação instantânea das redes — isso hoje é um ato quase inexistente. Quem aprende a ficar só, aprende também a não ser manipulado por quem precisa de audiência para ter certeza do que acredita.
A fé que não passou pelo deserto é fé de segunda mão. E o deserto não é um lugar. É uma decisão que você toma todos os dias — ou nunca toma.
Você está em 6 grupos de WhatsApp da igreja, mas quando foi a última vez que ficou a sós com Deus?
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