A TRADIÇÃO QUE MATA

Existe uma cena em 1 Reis 13 que raramente recebe a atenção que merece. Um jovem profeta está morto à beira de uma estrada. Um leão parado ao lado do corpo, imóvel, sem tocá-lo. Um jumento ao lado, igualmente parado. A estranheza da cena é proposital: aquela quietude antinatural grita que ali não houve acidente. Ali houve julgamento.

CESSACIONISMOAPOSTASIAREINO DE DEUSESTUDO BÍBLICO

Raniere Menezes

6/7/20265 min read

Existe uma cena em 1 Reis 13 que raramente recebe a atenção que merece. Um jovem profeta está morto à beira de uma estrada. Um leão parado ao lado do corpo, imóvel, sem tocá-lo. Um jumento ao lado, igualmente parado. A estranheza da cena é proposital: aquela quietude antinatural grita que ali não houve acidente. Ali houve julgamento.

O leão podia comer carne humana e do animal de carga. Mas a natureza obedece ao Criador, e a ordem era apenas matar o jovem profeta.

O jovem profeta havia recebido uma ordem direta de Deus. Nada ambíguo. Nada que exigisse interpretação. Entregue a mensagem, vá embora, não coma nem beba na cidade, não volte pelo mesmo caminho. Uma sequência simples, dada com clareza soberana. E ele obedeceu. Cumpriu a missão. Até que um velho profeta apareceu no caminho.

O velho disse que um anjo havia falado. Disse que havia uma nova instrução. Que tudo estava autorizado. A Escritura não deixa dúvida sobre o que aquilo era: mentira. Mas o jovem profeta cedeu. Voltou. Comeu. E então a palavra real de Deus chegou de novo, desta vez pela própria boca do enganador, anunciando a sentença. O leão estava esperando na estrada.

Esse relato pode ser aplicado aos cessacionistas. A estrutura é a mesma. Há uma palavra direta de Deus. Há uma figura envolta em autoridade religiosa que se levanta para contradizê-la. E há crentes que cedem, que recuam, que trocam o que Deus falou pelo peso intimidador da tradição acumulada.

O cessacionismo é, em sua essência, uma teologia do velho profeta. Não porque seus proponentes sejam necessariamente desonestos na intenção, mas porque operam com a mesma lógica: colocam a voz da tradição acima da voz das Escrituras. Dizem que o Deus que curava já não cura assim. Que o Deus que julgava já não julga assim. Que os dons, as manifestações, os milagres eram para outros tempos, outros homens, outros contextos. E ao dizer isso, precisam inevitavelmente afirmar uma coisa que nenhuma Escritura sustenta: que Deus mudou de natureza ou de método por razões que a própria Bíblia não ensina.

Quando Pedro curou o paralítico em Atos 3, ele recusou explicitamente qualquer crédito por poder próprio ou piedade pessoal. Não mencionou dom apostólico. Não invocou a autoridade exclusiva do seu cargo. Atribuiu tudo à fé no nome de Jesus. "Jesus Cristo te cura", ele disse ao homem em Atos 9. Não "eu, apóstolo designado, te curo em virtude do meu ofício especial e irrepetível". Quando Paulo viu o homem coxo em Atos 14, ele não verificou primeiramente o estatuto eclesiástico do enfermo. Ele viu que o homem tinha fé para ser curado. A cura era da fé. O dom, quando presente, aumentava a eficácia, mas não era o fundamento.

Isso destrói a arquitetura inteira do cessacionismo. Se o fundamento dos milagres era o apostolado e não a fé, então Jesus falhou na parábola implícita de Pedro andando sobre a água, porque quando Pedro afundou, Jesus não disse "porque você não é apóstolo suficiente" ou "porque não era da vontade soberana de Deus neste momento". Disse: "Homem de pequena fé, por que você duvidou?" A falha era de fé. O critério era de fé. A expectativa era de fé.

Os cessacionistas inventaram um Deus que teria encerrado o sobrenatural para autenticar o cânon. É uma construção sofisticada do ponto de vista da apologética acadêmica. Mas é exatamente o tipo de ensinamento que Jesus condenou nos fariseus: mandamentos humanos apresentados como doutrina de Deus. Paulo advertiu os gálatas de que nem mesmo um anjo do céu poderia trazer um evangelho diferente sem ser amaldiçoado. O critério não é a fonte aparente da mensagem. O critério é se a mensagem está alinhada com o que Deus já revelou.

E o que Deus revelou é que os milagres acontecem pela fé. Que "tudo é possível ao que crê". Que "seja feito conforme a tua fé". Que a cura do corpo está ligada à expiação com a mesma profundidade que a salvação da alma, de modo que negar uma é pregar um evangelho incompleto. Isso está nas Escrituras. Não está nas confissões do século XVII, não está nos concílios medievais, não está nos comentaristas do século XIX. Está no texto Sagrado. O Messias que salva e cura.

O velho profeta de Betel não era um homem claramente ímpio. Era alguém que usava a linguagem da revelação, invocava autoridade espiritual e parecia saber mais do que o jovem profeta sobre como as coisas funcionavam. Essa é precisamente a sua periculosidade. O erro perigoso raramente vem com rótulo. Vem vestido com o prestígio da longevidade, com a aprovação dos colégios, com o peso dos nomes respeitáveis empilhados uns sobre os outros até formarem uma tradição que parece tão sólida quanto a rocha, mas que ao primeiro exame bíblico sério revela ser areia.

A única maneira de alguém estar correto ao dizer que o poder milagroso não existe mais na Igreja é se Deus estiver morto. Porque foi sempre Deus quem realizou os milagres. Nunca foi o apóstolo como homem, nunca foi o cargo, nunca foi a instituição. Se Deus vive e se Deus não muda, então o único argumento que sustenta o cessacionismo é um Deus que decidiu parar de agir como Deus. E essa decisão precisaria estar nas Escrituras. Não está.

A questão que o relato de 1 Reis 13 deixa para cada crente é severa e sem conforto fácil: você obedecerá ao que Deus falou ou seguirá a voz da autoridade humana? O jovem profeta sabia o que Deus havia dito. Sabia com clareza. E ainda assim cedeu quando um homem mais velho, mais experiente, mais estabelecido na tradição religiosa, lhe apresentou uma versão alternativa com ares de revelação superior.

A Igreja hoje vive sob pressão análoga. A tradição cessacionista não chega gritando que é falsa. Chega com traje doutoral, com bibliotecas inteiras de comentários, com a autoridade acumulada de séculos de teologia reformada que em muitas coisas foi fiel. Mas quando contradiz o que a Palavra diz sobre fé e milagres, não merece reverência por conta do que acertou em outros pontos. O leão não perguntou ao jovem profeta quais outros aspectos da sua fé eram sólidos.

Dar ouvidos à palavra de Deus é viver. Dar ouvidos ao velho profeta é morrer.

Os milagres acontecem de Deus, pela fé, agora. Não porque somos especialmente dotados. Não porque temos os títulos certos ou a linha de ordenação correta. Mas porque Deus está vivo, porque a fé é possível, e porque Jesus ainda é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Quem ensina o contrário não está preservando a ortodoxia. Está repetindo o erro de Betel. E o leão ainda está esperando na estrada.

Contato

Envie suas dúvidas ou sugestões

Email

ranzemis@gmail.com

© Raniere Menezes