Antes de Freud, Antes de Aristóteles: A Verdade Mais Antiga Sobre a Natureza Humana

Quando Freud ainda usava fraldas — e quando os gregos usavam fraldas também (opa, havia fralda?) — antes de qualquer psicologia ou filosofia sistematizada, as pessoas já se faziam a mesma pergunta que fazemos hoje: por que a gente briga tanto? Por que tantos conflitos, tantas guerras, tanta destruição mútua?

ESTUDO BÍBLICO

Raniere Menezes

2/20/20265 min read

Antes de Freud, Antes de Aristóteles: A Verdade Mais Antiga Sobre a Natureza Humana

Quando Freud ainda usava fraldas — e quando os gregos usavam fraldas também (opa, havia fralda?) — antes de qualquer psicologia ou filosofia sistematizada, as pessoas já se faziam a mesma pergunta que fazemos hoje: por que a gente briga tanto? Por que tantos conflitos, tantas guerras, tanta destruição mútua?

Desde as trincheiras da antiguidade até as cozinhas dos micro apartamentos modernos, lidar com gente continua sendo mais desafiador do que aprender neurociência em chinês e engenharia espacial em russo. E olha, ainda tenho esperança de dominar a ciência espacial antes de entender completamente a natureza humana.

Mas talvez o problema seja esse: a gente tenta entender o ser humano sem querer tocar no assunto que explica tudo. Um assunto estudado, mastigado e cuspido por milênios de teologia — especialmente por Agostinho e Calvino — e revelado com clareza desconcertante em cada página da Bíblia.

O pecado original.

A Verdade Que Ninguém Quer Ouvir no Café da Manhã

Não vou aqui sistematizar uma doutrina. Não é esse o ponto. Mas vou resumir, biblicamente, uma realidade que muda a forma como você enxerga cada pessoa na sua vida — incluindo o espelho.

Não existem pessoas boas. Existem pessoas más com boa máscara, e pessoas más sem máscara nenhuma.

É bíblico. Acredite.

E aqui está o detalhe perturbador: aquele que nunca usa máscara — que nunca aplica filtro social nenhum, que diz tudo o que pensa sem cerimônia — não é necessariamente o mais autêntico. Muitas vezes é o mais perverso. A ausência de filtro não é virtude. É revelação de outra coisa.

A natureza do pecado torna o ser humano a pior criatura do universo. E também a melhor. A história humana surpreende com pessoas incríveis — mas sempre complexas, sempre difíceis de lidar. Essa tensão não é contradição. É a condição.

Verdades Que a Vida Cobra Caro Para Ensinar

Algumas coisas que demorei mais do que deveria para aceitar:

Ninguém tem o direito de não julgar. O famoso "quem sou eu para julgar?" virou o disfarce favorito de quem passa o dia inteiro julgando. É fácil fingir bondade apontando o cisco no olho alheio enquanto carrega uma trave no próprio. A hipocrisia mais elegante sempre vem embrulhada em falsa humildade.

As pessoas não decidem ser boas ou más. E ninguém muda ninguém. Essa ilusão custa caro — em relacionamentos, em energia, em anos de vida esperando uma transformação que você não tem poder de provocar.

A ingratidão é o padrão, não a exceção. Os dez leprosos foram curados. Um voltou. Faça as contas e ajuste suas expectativas.

As pessoas não são o que você pensa que são. Elas são o que querem que você veja. Não é uma questão de duas faces — é uma questão de mil faces. Você conhece a versão que lhe foi apresentada. Isso é tudo.

Não espere que alguém fique genuinamente feliz com seu sucesso, sua saúde, sua prosperidade. Normal num mundo caído. Não é tragédia, é paisagem. Tudo bem saber disso e seguir em frente mesmo assim.

Não existe almoço grátis. A vida nunca ensina nada de graça. A lição sempre vem — a questão é se você paga antes ou depois.

Algumas pessoas simplesmente não vão gostar de você. Por mais simpático que você seja, por mais que você se esforce. E tudo bem. Não é um problema a resolver.

Gentileza de tempo bom não conta. Uma pessoa realmente boa não é aquela que se comporta bem quando tudo está tranquilo. Qualquer um faz isso.

Sim, as pessoas são egoístas. Você também é. Eu também sou. O egoísmo não é o vilão que aparece nos outros — é o inquilino fixo que mora em todo mundo.

Seus pequenos erros não são tão importantes quanto parecem. As pessoas estão ocupadas demais com as próprias vidas para ficar obcecadas com os seus deslizes. Você não é o protagonista da história delas.

Para de esperar o pedido de desculpas. Ele provavelmente não vai vir. E mesmo que venha, não vai curar o que você acha que vai curar. Siga.

Pecado Não É Doença

Essa é talvez a distinção mais importante — e a mais ignorada.

A cultura contemporânea adora transformar tudo em diagnóstico. Comportamento destrutivo vira transtorno. Crueldade vira trauma mal processado. Maldade vira doença a tratar.

Mas a verdade bíblica é outra: pecado não é doença. Pecado é queda. É morte. Não é algo que se trata com a terapia certa ou o ambiente adequado — é uma condição que exige algo muito mais radical do que autoconhecimento.

Entender isso não torna a vida mais sombria. Estranhamente, torna tudo mais claro. Quando você para de se surpreender com a capacidade humana para o mal — inclusive a sua própria — você começa a enxergar com muito mais lucidez. E a se relacionar com muito menos ilusão e muito mais graça.

A história humana surpreende com pessoas incríveis. Mas sempre complexas. Sempre difíceis de lidar. Sempre — sem exceção — carregando o mesmo peso.

Inclusive você. Inclusive eu.

Se você conhece a verdade sobre a natureza do pecado, ou Deus colocou em seu coração o desejo e a necessidade de conhecer Jesus Cristo ou seu coração ainda continua duro e seco como uma pedra.

No Calvinismo este ensino se chama: Depravação Total (nome esquisito, mas um ensino sensacional).

Conclusão:

Você ora, frequenta cultos, lê a Bíblia, serve na igreja — e acredita, no fundo, que Deus deveria estar satisfeito com você. Que sua conversão foi, em última análise, sua decisão. Que você escolheu bem quando outros escolheram mal. Que há, em algum lugar no seu coração, um mérito que justifica por que você está aqui e outros não.

Se isso ressoa — mesmo levemente — você não entendeu a depravação total. Você já ouviu falar. E há uma diferença entre as duas coisas.

A doutrina da depravação total não é sobre os outros. É sobre você. É o espelho mais realista que a teologia oferece — e a maioria dos cristãos evangélicos modernos o evita com distrações, substituindo-o por um espelho mais gentil que lhes devolve uma imagem aceitável.

Cuidado para não distorcer o ensino bíblico:

A depravação total não é depravação absoluta. O homem caído ainda constrói hospitais, ama seus filhos, produz beleza. A Providência de Deus refreia o pecado em sua expressão máxima. Se não fosse assim, a civilização seria impossível.

"Eu escolho meus próprios valores." "Deus me aceita como sou." "Minha espiritualidade é minha." Estas frases são expressões de corrupção radical em linguagem contemporânea. O homem caído não apenas peca em ações específicas — ele reivindica soberania sobre sua própria vida moral. A depravação total diz: você não tem essa autoridade. Você é criatura. E criatura caída que, sem intervenção divina, usará toda sua capacidade racional para construir justificativas para sua rebelião.

Se toda a humanidade está sob corrupção radical, então nenhuma estrutura humana — política, econômica, jurídica — pode ser investida de esperança utópica. O reformado não é ingênuo sobre revoluções, ideologias ou líderes carismáticos. Toda promessa de transformar a sociedade a partir de dentro da sociedade esbarra na realidade da corrupção universal.

Isso não produz passividade — produz sobriedade realista. O cristão trabalha por justiça, não porque acredita que o homem construirá o reino de Deus, mas porque o mandato cultural permanece válido e a Providência sustenta a ordem mesmo em mundo caído. Ele não investe sua esperança escatológica em nenhum partido político ou sistema econômico.

Há muito mais a ser tratado, mas reflita nestes pontos. A psicologia é a ponta do iceberg, a grande montanha submersa é a verdade sobre a natureza do pecado.