Calvinismo Consistente: Mateus 23:37

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, mas vós não quisestes!" (Mateus 23:37)

ENSINO TEOLÓGICO E APOLOGÉTICA CRISTÃ

Raniere Menezes

8/30/20268 min read

Calvinismo Consistente: Mateus 23:37

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, mas vós não quisestes!" (Mateus 23:37)

Quando os arminianos se opõem às doutrinas bíblicas da soberania divina, da eleição e da reprovação, este é um dos versículos que mais frequentemente citam em sua defesa. O raciocínio é simples: o que Jesus "queria" não se concretizou, porque as pessoas "não estavam dispostas". Isso, supostamente, demonstra que o homem possui um livre-arbítrio capaz de se opor à vontade divina — de modo que o desejo de Deus pode ser frustrado e sua graça pode ser resistida com sucesso.

O que se segue não pretende ser uma exposição positiva do sistema bíblico, mas apenas demonstrar que este versículo não pode ser usado para sustentar o arminianismo — nem, como veremos, para sustentar a versão popular e inconsistente do próprio calvinismo.

Duas Formas de Calvinismo

Antes de entrar no texto, é preciso estabelecer uma distinção que muitos calvinistas de nome se recusam a fazer. Sob o rótulo "Calvinismo" escondem-se dois esquemas incompatíveis entre si. Chamemos um de visão bíblica ou consistente, e o outro de visão popular ou inconsistente.

O Calvinismo Consistente

O calvinismo consistente afirma, com base nas Escrituras, que a soberania divina é incompatível com a liberdade humana — e, como as Escrituras ensinam que Deus é absolutamente soberano, isso exclui e destrói completamente a liberdade humana. O homem não tem livre-arbítrio; ele não é livre de forma alguma.

Isso não significa que o homem não exerça sua vontade — ele toma decisões. Mas sua vontade não é livre. Pelo contrário: como ele toma decisões (e quais decisões toma), é direta e constantemente controlado por Deus, tanto para o bem quanto para o mal, tanto para a fé quanto para a incredulidade. E Deus permanece justo por definição em todas as ações que realiza sobre suas criaturas.

O Calvinismo Inconsistente

Depois há a forma popular do calvinismo — a visão que domina púlpitos e seminários, mas que não suporta escrutínio lógico nem bíblico. Ela afirma que soberania divina e liberdade humana são "compatíveis" em algum sentido; que a responsabilidade moral pressupõe alguma medida de "autodeterminação"; que Deus tem desejos que se contradizem; que Deus emite decretos para efetuar coisas contrárias àquilo que deseja, talvez para estabelecer ainda mais aquilo que deseja; que Deus poderia decretar a reprovação de indivíduos, tornando impossível para eles crer, mas ainda assim lhes oferecer "sinceramente" a salvação como se pudessem crer; que Deus de algum modo governa o mal, mas não tem nenhuma relação causal direta com ele; que Adão foi criado inocente, mas de algum modo podia praticar o mal sem que Deus decretasse ativamente isso; que podemos afirmar a realidade do mal e ao mesmo tempo negar que Deus exerça qualquer poder causal direto sobre ele — evitando, supostamente, tanto o deísmo quanto o dualismo; que podemos afirmar ambos os lados de uma contradição "aparente", porque as Escrituras ensinariam doutrinas "aparentemente" contraditórias que não seriam contradições reais na mente de Deus.

Não devemos fazer nenhuma tentativa de defender esse amontoado de confusão antibíblica e irracional. Ele será, ao final deste artigo, tão desmascarado pela verdade em Mateus 23:37 quanto pela própria inconsistência do arminianismo.

O Contexto: Mateus 23 na Íntegra

Recomenda-se a leitura de Mateus 23 por completo antes de prosseguir — ou, na falta de paciência, ao menos depois desta exposição. Lucas 13:34 é um paralelo próximo o suficiente, em termos de contexto, para dispensar tratamento separado; o que se conclui aqui resolve também aquela passagem.

Versículos 1–12. Jesus critica a hipocrisia dos escribas e fariseus. Ele reconhece que, na medida em que ensinam a lei, o povo deve obedecer — mas adverte: "não façam conforme as suas obras; porque dizem coisas e não as fazem. Atam fardos pesados e os põem sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não querem movê-los nem com um dedo" (v. 3-4).

Versículos 13–32. Sete ais são pronunciados contra eles, cada um acompanhado de uma acusação específica. É essa seção — mais do que qualquer outra — que fornece a chave para compreender o versículo 37. Observe a quem os ais são dirigidos, sem exceção: "Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas!" O versículo 13 merece atenção especial: "vocês fecham o reino dos céus aos homens; pois vocês mesmos não entram, nem deixam entrar os que estão querendo entrar."

Versículos 33–36. Jesus identifica os líderes religiosos com os que, ao longo da história de Israel, mataram os profetas enviados por Deus: "…para que sobre vocês recaia a culpa de todo o sangue justo derramado na terra… Em verdade lhes digo que todas essas coisas virão sobre esta geração" (v. 35-36). Ele está se referindo à destruição iminente do templo — confirmada poucos versículos depois, quando os discípulos lhe mostram os edifícios e Jesus responde: "não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada" (Mt 24:1-2). A profecia se cumpriu em 70 d.C., na mesma geração que o ministério de Jesus alcançou e que o assassinou. O povo foi massacrado; o templo, destruído.

Jesus não muda de assunto até o versículo 37. O versículo seguinte confirma isso: "Eis que a vossa casa vos será deixada deserta!" (v. 38) — a mesma destruição do templo que abre Mateus 24. É com esse pano de fundo, e não isolado dele, que o versículo 37 deve ser lido.

Quem é "Jerusalém" e Quem São os "Filhos"

"Jerusalém", no versículo 37, não se refere à cidade física, nem a cada habitante considerado individualmente. É "Jerusalém" quem "mata os profetas" — e, no contexto, quem mataria os profetas são os líderes do povo, incluindo escribas e fariseus, imitando seus antepassados que "assassinaram os profetas" (vv. 29-32). No versículo 34, Jesus anuncia que enviará profetas e mestres, e que esses líderes os tratarão como seus antepassados trataram os profetas antigos: "a alguns deles matareis e crucificareis, e a outros açoitareis nas vossas sinagogas, e perseguireis de cidade em cidade."

Quanto aos "filhos" do versículo 37, são naturalmente as pessoas sob a autoridade desses líderes. As Escrituras chamam líderes religiosos e políticos de "pais" (At 7:2; 22:1), e aqueles sobre quem exercem influência, de "filhos" (Mt 12:27; Is 8:18).

A Estrutura Gramatical

Este é o ponto central, e o mais frequentemente ignorado pelos intérpretes arminianos: o versículo não pode se referir à disposição ou à fé de indivíduos em aceitar o evangelho. Se fosse esse o caso, o texto diria: "Eu queria reunir vocês… mas vocês não quiseram", ou "Eu queria reunir seus filhos… mas seus filhos não quiseram."

Mas o versículo diz outra coisa: "Eu queria reunir seus filhos… mas vocês não quiseram."

Não foram os "filhos" que resistiram — foram "vocês" (os líderes) que resistiram, impedindo que os "filhos" fossem reunidos. O versículo remete diretamente ao que já fora dito no versículo 13: "vocês mesmos não entram, nem deixam entrar os que estão querendo entrar."

Os arminianos podem afirmar a liberdade humana e negar que Deus controle diretamente a fé ou a incredulidade de uma pessoa. Mas, tendo negado esse controle a Deus, presumivelmente nem eles seriam tolos o bastante para atribuir a líderes religiosos e políticos humanos um controle interno e direto sobre as mentes das pessoas — como se os fariseus exercessem sobre o povo um poder maior do que o próprio Deus, capazes de ter misericórdia de quem quisessem e endurecer o coração de quem quisessem. É evidente que os versículos 13 e 37 descrevem como os líderes religiosos impediram os profetas em um nível puramente humano e externo — bloqueando o acesso da mensagem ao povo. Jesus fala de uma influência social e externa, não de um poder metafísico e interno.

Segue-se, portanto, que o "eu queria" do versículo 37 também opera no mesmo nível humano e externo — no relacionamento de Jesus com esses líderes e seu povo. Não há aqui indício algum de que o desejo divino, ou o decreto divino, possa ser resistido com sucesso simplesmente porque alguém "não quer".

A Bíblia é clara: se alguém não quer, é porque Deus o torna indisposto (Jo 12:40; Rm 9:18; 11:7); e se alguém quer, é porque Deus o torna disposto (Jo 6:44, 65). Ninguém que Deus torna indisposto pode vir (Jo 6:44), e ninguém que Deus torna disposto pode ficar longe (Jo 6:37).

A Objeção Cristológica — e Sua Resposta

Poderia surgir a objeção de que aquilo que se atribui ao "eu" de Jesus não poderia ser realizado por ele em nível puramente humano. Mas em quase qualquer outro contexto — numa discussão sobre a divindade de Cristo, por exemplo — até mesmo os arminianos admitiriam que as Escrituras, como Deus-homem, nem sempre distinguem meticulosamente entre o que se atribui à natureza divina e o que se atribui à natureza humana de Cristo. A distinção pode ser feita quando necessário, mas as Escrituras nem sempre a enfatizam.

Em João 4:10, Jesus é simultaneamente quem pede água para beber e quem oferece a água viva — mas, em sua natureza divina, não pode ter sede. Em Atos 3:15, Pedro diz aos judeus que "mataram o autor da vida" — mas, em sua natureza divina, Jesus não podia ser morto. Isso não representa problema algum para a inspiração das Escrituras, para a divindade de Cristo ou para a doutrina da encarnação; pelo contrário, testemunha que as duas naturezas estão intimamente unidas em Cristo e, ainda assim, permanecem distintas — sem mistura ou confusão. Uma não é deificada; a outra não é humanizada.

De todo modo, é possível responder à objeção a partir do próprio versículo: o envio dos profetas não é atribuído ao "eu" — apenas o ajuntamento dos filhos recebe essa atribuição. E, como o ajuntamento se refere ao ministério em nível humano e externo, não exige um sujeito divino. O fato de um ministério encontrar resistência em nível humano nada diz sobre a soberania divina ou a liberdade humana em nível metafísico.

A Dupla Condenação: Arminianismo e Calvinismo Inconsistente

O esforço aqui apresentado já é suficiente para demonstrar que Mateus 23:37 não oferece nenhum suporte à heresia arminiana. Seus adeptos precisam abandonar o pensamento humanista implícito nessa leitura e abraçar a doutrina bíblica da soberania absoluta.

Mas o falso esquema do calvinismo inconsistente também não encontra refúgio aqui. A mesma argumentação se aplica igualmente a ele e ao seu uso indevido deste versículo — por exemplo, em seus ensinamentos sobre a "oferta sincera" do evangelho e sobre a suposta tensão entre desejos contraditórios na mente de Deus. Se o "eu queria" de Mateus 23:37 opera em nível humano e externo, ele não serve de base nem para o livre-arbítrio arminiano, nem para a ficção de um Deus que deseja o que não decreta.

O calvinismo consistente não precisa desse recurso interpretativo emprestado da confusão. Ele afirma, sem rodeios, que a vontade de Deus é una, eficaz e absolutamente soberana — sobre a fé e sobre a incredulidade, sobre o bem e sobre o mal — sem contradição alguma em sua mente. Exorta-se, portanto, tanto o arminiano quanto o calvinista inconsistente a abandonarem seu irracionalismo e a removerem definitivamente todos os vestígios da heresia arminiana de seu pensamento.

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