Cangurus Radioativos

Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem? (Mt 7.9-11)

ENSINO TEOLÓGICO E APOLOGÉTICA CRISTÃ

Raniere Menezes

8/27/20265 min read

Cangurus Radioativos

Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem? (Mt 7.9-11)

A Oração Incompreendida

Não entender o Deus da Bíblia é orar a um deus emprestado do paganismo, disfarçado de ortodoxia, e muitos cristãos nem percebem isso.

Vamos ilustrar com uma fábula. Um homem ora pedindo dinheiro para pagar as dívidas médicas da sua mãe. O deus responde matando a mãe num acidente horrível — e a seguradora paga mais do que o suficiente para cobrir o funeral, as despesas e, é claro, as dívidas. O pedido foi atendido. E, ao mesmo tempo, tornado completamente sem sentido, porque o homem perdeu a própria mãe no processo de "ajudá-la". Ele pediu pão. Recebeu uma pedra em forma de dinheiro.

Nosso homem, porém, é um teólogo — um especialista. Ele refina o pedido: dinheiro para a dívida da mãe, sim, mas sem que ninguém se machuque. Ele ganha na loteria. Ninguém morre no processo direto da resposta. Só que a mãe, agora livre do peso financeiro, para de trabalhar em três empregos e começa a beber. Numa noite, dirige embriagada, bate o carro e morre.

Essa é a lógica de um deus caprichoso: não importa quão bem você formule a petição, ele encontrará uma brecha para transformar a bênção em divina ironia. É por isso que os pagãos temem a "vontade dos deuses". Você nunca sabe o que vai receber. As promessas não garantem nada, porque a interpretação delas está sempre em aberto e a divindade fará o que quiser de qualquer forma. Ignorá-la, porém, também é perigoso — ele pode se ofender. Não há como vencer. Só resta apaziguar com votos, sacrifícios e sofrimento, sem nunca saber se hoje é dia de bênção ou dia de ruína.

O Disfarce Ortodoxo

Os deuses pagãos, evidentemente, são fictícios — projeções da mente humana ou, na leitura bíblica, disfarces demoníacos. Mas é justamente aí que mora o ponto que vale a pena entender: essa concepção pagã da divindade é parecida com a doutrina que igrejas cristãs defenderam sob o nome de "soberania de Deus".

Basta trocar a palavra "pagão" por "cristão" no relato acima, suavizar o tom, e a fábula se torna sermão dominical. Os "améns" seriam pronunciados. Os membros aplaudiriam a "humildade" e a "profundidade teológica" do pregador. E ninguém notaria que acabaram de aplaudir uma teofania grotesca — um deus que usa a oração como cilada.

Esse deus pagão assombra parte do cristianismo. Ele aparece nos sermões, nas orações fúnebres, nas conversas pastorais. E, no entanto, não é o Deus revelado nas Escrituras, nem o Deus que Jesus anunciou ao povo. Na prática, muitos cristãos ensinam exatamente o oposto do que Jesus ensinou sobre o Pai: agora é Deus quem joga cobras nos filhos — talvez para "ensinar alguma lição" —, e é Satanás quem distribui pão e doces. Agora é Deus quem deixa o Seu povo doente e pobre, e Satanás quem reparte cura e prosperidade.

Cangurus Radioativos

Chegamos à versão final da ilustração — e mais absurda — dessa ortodoxia distorcida: se pedir pão já é suspeito de materialismo, e pedir peixe é sintoma de "evangelho da prosperidade", então a alma verdadeiramente piedosa deve aprender a pedir cobras. E, mesmo assim, pode não recebê-las — porque Deus, "em sua soberania insondável", decidirá caso a caso, sem se prender a promessa alguma.

E se Ele decidir dar um canguru radioativo? Pois bem: o sujeito vai receber um canguru radioativo. E, enquanto derrete lentamente sob os efeitos da radiação, ele erguerá as mãos e cantará: "Todas as coisas cooperam para o bem."

É essa a caricatura que devemos ter em mente sempre que ouvirmos alguém invocar a soberania de Deus para justificar o inexplicável, para esvaziar uma promessa bíblica de qualquer conteúdo, ou para transformar Romanos 8.28 num cheque em branco que cobre qualquer tragédia sem pedir explicação.

O "canguru radioativo" é a soberania divina divorciada do caráter divino — um poder absoluto que já não responde à bondade, à fidelidade ou à Palavra que o próprio Deus jurou cumprir. É a onipotência sem o Pai.

Uma Religião Deformada

Algumas religiões tribais exigem que seus adeptos deformem o próprio corpo como ato de devoção — cicatrizes rituais, mutilações, provações físicas que comprovam fé. Mas há algo mais intrigante ainda: cristãos que fazem exatamente a mesma coisa, só que no espírito. Aprenderam uma teologia grotesca, e se deformam interiormente com a mesma disciplina com que um pagão deforma o corpo. Chamam-se cristãos, mas cultuam, no coração, a divindade caprichosa dos pagãos — porque é o único tipo de deus que aprenderam a temer.

Por isso, quando Deus envia alguém para anunciar que o pão está disponível, eles exigem a pedra. Quando alguém anuncia que o peixe está sobre a mesa, eles insistem na cobra. E depois se gloriam nesse sofrimento auto imposto, chamando-o de "cruz", de algo suportado "para a glória de Deus". Só que não é o mesmo sofrimento que a Bíblia aprova — o preço de viver pela fé, de perseverar em meio à perseguição por causa do evangelho. É outra coisa: um sofrimento que nada tem a ver com o evangelho, às vezes o próprio tipo de sofrimento do qual o evangelho veio para nos libertar. E ainda assim é chamado de santo, de teocêntrico, de espiritualmente maduro.

Isso não é fé cristã. É paganismo masoquista com verniz de reformado.

O Pai Que Sabe Dar Boas Dádivas

Jesus não deixou espaço para essa ambiguidade. Ele não descreveu um Pai que, entre pão e pedra, decide de forma arbitrária qual dos dois entregar "por Seus próprios e insondáveis propósitos". Ele descreveu um Pai comparado favoravelmente a pais humanos falhos: se nós — que somos maus — sabemos dar boas dádivas aos nossos filhos, quanto mais o nosso Pai celestial dará boas coisas aos que lhe pedem.

O argumento de Jesus é a fortiori: do menor para o maior. Se a bondade humana imperfeita já sabe distinguir pão de pedra, a bondade divina perfeita saberá com muito mais razão. Reduzir essa promessa a "Deus pode responder com um canguru radioativo, e cabe a você aceitar com um sorriso" não é reverência à soberania — é uma inversão do próprio argumento de Cristo.

A soberania de Deus não é uma licença para o absurdo. É a garantia de que Aquele que tudo controla é também Aquele que se comprometeu, por aliança e por caráter, a ser bom com os Seus filhos. Tirar o caráter da equação e preservar apenas o poder é precisamente como se constrói um deus pagão — só que com roupagem reformada e citações bíblicas fora de contexto.

---
Este artigo tem como referência o artigo original de Vincent Cheung: Boas Dádivas ao Pai – 2016 - https://www.vincentcheung.com/2016/06/05/good-gifts-from-the-father/

Contato

Envie suas dúvidas ou sugestões

Email

ranzemis@gmail.com

© Raniere Menezes