Carta a uma mulher cristã que ama livros
Havendo espaço para um novo relacionamento futuro, ele só existirá quando eu não for um fragmento do passado — das décadas perdidas. Deus quem abençoa com saúde, longevidade e prosperidade. Ele pode me dar a coragem de construir algo genuinamente novo.
CARTA & TESTEMUNHO
Raniere Menezes
6/7/20268 min read


Após quase vinte e cinco anos de convivência, minha esposa pediu separação. Alegou não aguentar mais tantas dificuldades e o esfriamento conjugal. Tenho gratidão pelo tempo que passamos juntos — a parceria, a cumplicidade, o apoio nos momentos mais difíceis da vida. Ela era meu porto seguro. Mas de repente as coisas mudaram, as dificuldades aumentaram e o desgaste também. A âncora foi cortada, e vinte e cinco anos de convivência têm um impacto emocional imediato. Um quarto de século, encerrado.
Falhei financeiramente. Falhei emocionalmente. Um relacionamento de vinte e um anos de casamento e três de noivado molda uma vida inteira.
Tive uma trajetória antes e durante o relacionamento. Partes dessa trajetória pesaram sobre a separação — minha identidade, as expectativas dela, tudo somado. Tenho cinquenta e seis anos. Considerando os ciclos de décadas a partir da adolescência, perdi uma década com drogas e amizades ruins — até os vinte e seis anos. Uma fase niilista, de rebeldia total, sem me importar com o amanhã. O que me rendeu envolvimentos sociais errados, processos judiciais e uma prisão.
Aos vinte e sete anos, Aquele que eu odiava disse basta: Deus. Tive uma conversão abrupta em 1997. Me afastei das drogas e de tudo ligado àquele mundo. Comecei a participar ativamente de projetos missionários, da igreja, do Reino de Cristo.
Em 2002, conheci minha ex-esposa. O foco no Reino continuou, em família. Tentamos diversos negócios. Voltei aos estudos que havia abandonado anos antes e fiz uma faculdade com seu apoio e incentivo. Em 2009, tivemos um filho abençoado — pelo qual tenho um amor incondicional. Aquela foi a janela ideal para termos acertado financeiramente, mas não acertamos. Não adianta culpar a crise de 2008.
Apesar do fracasso financeiro, estivemos perto do meu pai na sua década final com Alzheimer. Um privilégio e uma honra cuidar dele até o último dia. Minha ex foi muito importante nessa fase.
O tempo de espera processual me limitava de algum modo — os advogados acompanhavam o processo com expectativa de condenação, a ser recorrida por anos. Fato: Anos de bloqueios profissionais e expectativa suspensa. Até que em 2015 a sentença foi confirmada, e a prisão, cumprida. Após dezesseis anos de processo. Um tempo em que me afastei das drogas e das amizades erradas, formei família, estudei, prestei serviços, realizei cursos e projetos. E então — preso. A sentença completa se encerrou em 2023, entre os regimes fechado, semiaberto e aberto. Um tempo de limbo social. Um tempo perdido em termos de trabalho. Trabalhos esporádicos.
Após pagar toda a dívida com a Justiça, tentamos recomeçar em outra região. Não deu certo. O retorno foi desgastante — dificuldades de moradia, dificuldades financeiras. Mais de dois anos assim. E então ela pediu separação.
Esta é minha breve avaliação de trajetória nesses vinte e cinco anos. Considero que perdi aproximadamente duas décadas financeiramente. Perdi — mas não cedi à tentação de voltar a ganhar dinheiro de modo ilícito. A consciência tranquila, mesmo em dificuldades financeiras, não tem preço. A paz e a liberdade não têm preço. Melhor é o pouco com o temor do Senhor do que viver em inquietação.
Soma-se a isso o fato de que, mesmo que ninguém queira reconhecer, tenho traços de autismo. Não tenho dúvidas. Reconheci isso poucos anos atrás após a Pandemia. Para mim, foi uma teofania — virou uma chave de entendimento na minha mente. Pode parecer desculpa para alguns; que seja. Isso me trouxe prejuízos sociais evidentes. É uma mentalidade e uma identidade diferenciadas. Hoje tenho consciência e clareza sobre isso — mas socialmente é um peso real. Depois de mim, quem melhor poderia constatar isso é minha ex e meu filho.
Não foi apenas um relacionamento de vinte e cinco anos que moldou minha identidade. Foi também um problema com a Justiça por décadas, somado à minha personalidade e à minha natureza.
Em termos de legado pessoal, tenho dezenas — centenas — de textos na área teológica, e ter educado nosso filho conectado a esse legado. Tenho minha cooperação com o Reino de Cristo há aproximadamente trinta anos. E há um divisor de águas nesses trinta anos.
Na teologia — ou, para o estudante de aprendizado contínuo, o que se chama de educação para a vida toda — isso não é apenas uma postura mental diferente da educação tradicional. É um chamado, um dom. Teologia não tem data para acabar; vai até o último dia de vida e entra na glória. É cavar, é buscar o conhecimento de um tesouro inesgotável — não apenas para uma função ministerial ou para crescimento pessoal ou para se manter atualizado. É uma vida. É como beber água: tem como parar um dia?
Meus registros teológicos desde 2007.
Se existe um legado, ele está aí — nos estudos. E nesses trinta anos, quem não progride organicamente está morto. Como uma figueira: se não der frutos, serve para lenha.
Nessa caminhada teológica, rompi com a parte morta da tradição protestante reformada, com a tradição cessacionista. Toda teologia fica pequena perto do entendimento sobre a nocividade do cessacionismo. Entender e aceitar isso é um processo disruptivo. O prejuízo social é enorme — mas a paz e a liberdade da verdade não têm preço. Não é romper por romper, não é inquietação rebelde em ação. É uma revelação bíblica óbvia inegociável. É a raiz da apostasia da Igreja. E creio que Cristo irá arrancar essa raiz incrédula de sua igreja, pois Ele quem edifica sua igreja e as portas do inferno cedem.
Posso somar até aqui as dores sociais: questões jurídicas, financeiras, o casamento, a personalidade, a teologia. São dores que não passam em uma semana.
Aos cinquenta e seis anos, não posso planejar décadas de reconstrução do que foi perdido. Não posso ancorar minha identidade ao passado. Mas reconheço um legado — teológico e paternal — que ainda posso construir. Pelo tempo que Deus abençoar. Não se trata de reconstruir: trata-se de avançar a construção.
Deus proverá uma nova configuração de esforço, foco e sabedoria para alcançar vitórias sobre as trevas, conquistar liberdade e paz.
Ela suportou muito e não aguentou. Resta a gratidão por todo o suportar. Seria possível ter resistido e continuado? Sim. Mas aí, biblicamente, entra a dureza de coração, o nosso tempo de apostasia, o determinismo, os decretos, a predestinação — enfim. Nenhuma decisão foge dos decretos.
Minha ação prática e responsável hoje é fazer uma nova vida. Uma separação de vinte e cinco anos é um choque, e não posso caminhar no estresse destrutivo. Biblicamente, o divórcio é concedido por dureza de coração. Social e juridicamente, respeito o pedido de separação sem contra-atacar. Desse modo preservo minha dignidade e meus valores.
Devo colocar minha energia, minha vida, meus dons a serviço do Reino. E Deus proverá as demais necessidades.
Havendo espaço para um novo relacionamento futuro, ele só existirá quando eu não for um fragmento do passado — das décadas perdidas. Deus quem abençoa com saúde, longevidade e prosperidade. Ele pode me dar a coragem de construir algo genuinamente novo.
Pode haver espaço, nos ambientes sociais ao meu redor, para identificar uma possível companheira que compartilhe dos mesmos valores de vida? Sim. Mas hoje devo estabilizar minha rotina de autocuidado nesta nova fase. Sair de um ciclo de vinte e cinco anos e entrar em outro sem antes focar na saúde e na liberdade financeira seria uma distração — uma tentativa de preencher lacunas emocionais recentes.
Meu estado de integridade pessoal importa mais do que uma aproximação rápida. Se eu negligenciar meu gerenciamento de estresse nessa fase de transição e me aproximar de um novo relacionamento, vou transferir instabilidade para essa nova relação. Tenho clareza do que construí e clareza do que perdi. Essa clareza me dá o filtro para me aproximar de alguém no tempo certo — alguém alinhado aos meus valores.
Estou sentado à mesa do Rei. Ele dará direção, sem pressa, sem urgência para um novo relacionamento. Urgência, sim — para servir em missão ao Reino.
Primeiro: o Rei me blindou da autodestruição diversas vezes em quarenta anos. Considero-me maduro para, na hora certa, ser direto e transparente com uma futura parceira — sem jogos indiretos, alinhada com meus valores. Não sou santo perfeito, intocável, de gesso, sem sangue. Sou pecador — mas, pela graça, servo do Rei dos reis e Senhor dos Senhores. Há trinta anos. E nesses trinta anos, Ele nunca me abandonou e nunca me fez mal.
Uma nova companheira pertence ao futuro. Não sei quanto tempo. Reconheço minhas falhas no relacionamento que acabou, e sei que um novo relacionamento não pode seguir o mesmo padrão. O novo exige que eu esteja estruturado em vários aspectos. Sim, haverá uma mulher livre, alinhada aos meus valores. Mas há também a necessidade de reconstruir minha base após o encerramento de um ciclo de vinte e cinco anos.
Uma aproximação amorosa neste momento é impulso — não é o momento. É algo que precisa ter consistência, rotina, construção de uma nova dinâmica. O fato de esperar o tempo certo não diminuirá o valor da mulher que está livre e alinhada aos meus valores. Deus já separou, e não haverá obstáculo para isso.
No tempo certo, estarei mais sólido — não alguém em transição emocional de uma separação. O alinhamento de valores é permanente. Essa é uma decisão lúcida, expressa em palavras. O ruído da urgência não pode ser obstáculo. Deus não deixa de usar um soldado ferido na batalha.
Não me separei por traição, por violência ou por qualquer outro motivo senão por uma decisão pessoal dela. Hoje tenho mais clareza do peso da minha trajetória sobre as pessoas que convivem e conviveram comigo.
"Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade."
A Igreja está em apostasia — e dizer isso não é loucura, é lucidez profética, revelação bíblica óbvia. O clubismo cessacionista engoliu a Igreja. Ela sairá vitoriosa, num despertar — breve. Os odres velhos não suportarão o vinho novo.
Não coexistirei em instituição por obrigação de performar ou buscar validação. Rompi com a cultura cessacionista.
No tempo de Deus, minha aproximação será direta, madura e transparente. Jogos são infantis. Estou em reconstrução madura e a serviço do Reino.
Quem mais escreveria uma carta à sua futura esposa que mais parece um processo de inventário existencial?
Mas o que está escrito aqui não é apenas o relato de um relacionamento de vinte e cinco anos. É uma sobreposição de múltiplos ciclos de longa duração. E como já escrevi uma vez: minha vida é um livro aberto, não oculto.
Assim como uma carta aberta é pública — para que qualquer pessoa possa ler —, a Palavra de Deus diz que a vida cristã é uma carta viva. Uma vida de fé é pública. A vida cristã é uma carta que o mundo lê. E o mundo está sempre preparado para acusar, perseguir, zombar, menosprezar. Nada de novo. Mas é também testemunho do poder transformador do Evangelho.
Deus me deu um legado. Que esse legado seja autenticado pelo fruto — ou jogado fora como lenha. Ele me deu dons, e tenho exercido voz profética há décadas. Tudo escrito e registrado. Meu testemunho é uma fratura exposta que Deus curou.
A missão é dEle. E Ele me dará sabedoria para mais produção teológica, para o papel paternal e para o serviço ao Reino.
Àquela que compartilhará um novo ciclo: você não receberá os fragmentos das décadas perdidas, nem os padrões de um ciclo que se encerrou. O Rei me blindou da autodestruição para que eu me apresentasse inteiro. Minha base está reconstruída na verdade, na clareza da minha natureza e no avanço contínuo do Seu Reino. Nossa aproximação será direta, madura e transparente, pois o que ficou para trás não nos guiará adiante. Caminharemos sob o temor do Senhor, onde a paz e a liberdade teológica são o nosso tesouro inesgotável. Sem pressa e sem ruído, estou pronto para avançar a construção ao seu lado.
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