Continue Virando a Página
Não se pode começar um novo capítulo enquanto se relê constantemente o antigo.
APENAS UM ENSAIO
Raniere Menezes
9/20/20263 min read


Continue Virando a Página
Não se pode começar um novo capítulo enquanto se relê constantemente o antigo.
Chega um momento em que você percebe que está passando tempo demais olhando para trás.
Pensando em quem costumava ser. Nas escolhas que gostaria de ter feito de outra maneira. Nas pessoas que gostaria que tivessem ficado. Nos caminhos que não percorreu. Naquilo que imaginava que já teria conquistado. E, principalmente, naquela versão de você que acreditava que, a esta altura da vida, já teria se tornado.
É estranho como podemos continuar vivendo uma história enquanto insistimos em reler capítulos que já terminaram.
Voltamos às mesmas lembranças, reconstruímos conversas antigas, imaginamos outros finais para situações que já aconteceram. Às vezes, não estamos exatamente com saudade do passado. Estamos tentando negociar com ele.
Gostaríamos que algumas coisas tivessem sido diferentes.
Mas páginas lidas não podem ser reescritas.
Podemos aprender com elas. Podemos voltar a elas de vez em quando para entender alguma coisa sobre nós mesmos. Mas não podemos morar nelas.
Talvez esse seja um dos motivos pelos quais algumas fases da vida parecem tão confusas. Olhamos para o presente e nos perguntamos por que nossa vida não se parece com aquilo que imaginamos.
Onde está aquela pessoa que eu seria? Onde está a vida que eu planejei? Por que algumas pessoas foram embora? Por que determinados sonhos não aconteceram? Por que as coisas tomaram um rumo tão diferente?
Talvez, em alguns momentos, estejamos olhando para a página errada. Talvez ainda estejamos lendo um capítulo antigo e esperando encontrar nele a explicação para quem somos agora.
Só que a vida mudou. Nós mudamos.
E algumas coisas simplesmente ficaram para trás.
Nem tudo precisa ser levado para o próximo capítulo.
Essa talvez seja uma das partes mais difíceis: compreender que existem pessoas, lugares, projetos, hábitos, expectativas e até versões de nós mesmos que pertencem a uma determinada temporada.
E temporadas terminam. Nem tudo que um dia pareceu certo foi feito para permanecer para sempre.
Isso não significa necessariamente que aquilo foi um erro. Uma coisa pode ter sido importante e, ainda assim, ter chegado ao fim. Uma pessoa pode ter sido fundamental em determinado momento e não fazer parte do próximo. Um sonho pode ter dado sentido a uma fase inteira e, depois, deixar de fazer sentido.
O fim não apaga o valor do que existiu.
Apenas reconhece que a história continuou.
Existe uma frase atribuída a diferentes autores que resume bem isso: não se pode começar um novo capítulo enquanto se relê constantemente o antigo.
Talvez seja exatamente isso que precisamos fazer: fechar o livro por alguns instantes, respirar e reconhecer que chegamos a outra página.
A vida não funciona como planejamos.
Ela tem estações.
Há períodos de construção, períodos de perda, períodos de espera e períodos em que simplesmente precisamos descobrir novamente quem somos. Algumas estações parecem longas demais quando estamos dentro delas. Outras só fazem sentido quando olhamos para trás.
E talvez o próximo capítulo não precise ser grandioso. Talvez não seja sobre provar alguma coisa para alguém.
Talvez seja sobre se reencontrar.
Reencontrar aquilo que ficou esquecido no caminho. Recuperar uma curiosidade. Voltar a escrever. Fazer uma caminhada. Ler um livro sem pressa. Conversar com alguém. Criar alguma coisa apenas porque ainda existe dentro de você o desejo de criar.
Talvez seja aprender a viver sem exigir que o futuro compense tudo aquilo que o passado não entregou.
Porque continuar não significa esquecer.
Significa parar de exigir que uma página antiga continue contando a nossa história.
Algumas coisas ficam para trás.
Algumas pessoas ficam para trás.
Algumas versões de nós mesmos também.
Você não precisa carregar o livro inteiro para continuar escrevendo. Às vezes, é preciso simplesmente aceitar que aquele capítulo terminou.
Fechar a página. Virar a próxima.
E descobrir que ainda existe uma história pela frente.
Talvez o próximo capítulo seja justamente sobre isso:
A arte de se reencontrar.
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© Raniere Menezes
