CRESCIMENTO DO REINO E MUDANÇA GERACIONAL – A HERANÇA DA REFORMA PROTESTANTE ENTROU NA FASE DE SENILIDADE

A geração de herança reformada, com seus quinhentos anos de tradição, terá que passar para que uma nova geração, no novo milênio, possa multiplicar. Essa geração foi longe demais em seu apego a doutrinas nocivas, como o cessacionismo e o amilenismo, e se tornou muito difícil de mudar.

REFORMA PROTESTANTEESCATOLOGIACOSMOVISÃOREINO DE DEUSAPOSTASIAHISTÓRIACESSACIONISMO

Raniere Menezes

10/29/202610 min read

CRESCIMENTO DO REINO E MUDANÇA GERACIONAL – A HERANÇA DA REFORMA PROTESTANTE ENTROU NA FASE DE SENILIDADE

Por que uma nova geração, livre do pessimismo histórico e do cessacionismo, é indispensável para a multiplicação exponencial do Reino

-----------------------------------------------------------

Há décadas, e em alguns casos séculos, as escatologias pessimistas — o amilenismo e o dispensacionalismo — vêm desacelerando a multiplicação do Reino. Não se trata de um detalhe acadêmico sobre a ordem dos eventos finais: a escatologia que uma geração carrega na bagagem determina o que ela espera, o que ela ousa e o que ela é capaz de construir. Quem espera declínio organiza a igreja para o declínio. Quem espera vitória na história organiza a igreja para a conquista (este segundo caso, hoje, é raro).

A geração evangélica que abraçou o pessimismo histórico, a improdutividade missionária e o cessacionismo foi longe demais em seu erro. Sem um despertamento ou avivamento, não há como corrigir esse curso por dentro. Apenas uma mudança geracional poderá retomar o cumprimento do crescimento do Reino de modo exponencial.

------------------------------------------------------------

1. O REINO CRESCE POR MULTIPLICAÇÃO

O crescimento do Reino não é aritmético, mas multiplicativo, e as Escrituras o descrevem em níveis crescentes de expansão:

- Mateus 13:31-32 (Parábola do Grão de Mostarda): Jesus compara o Reino dos céus a uma pequena semente que, ao ser plantada, cresce e se torna a maior das hortaliças, tornando-se uma árvore onde as aves podem se aninhar.

- Marcos 4:26-29 (A semente que cresce sozinha): o homem lança a semente à terra, e ela germina e cresce de dia e de noite, por si mesma, ilustrando o avanço misterioso e divino do Reino.

- Mateus 13:33 (Parábola do Fermento): o Reino de Deus é comparado ao fermento que uma mulher mistura a três medidas de farinha, até que toda a massa fique fermentada.

- Atos 2:47 e Atos 6:7: mostram a expansão prática e o crescimento numérico da igreja primitiva, em que o Senhor acrescentava diariamente os que iam sendo salvos e a palavra de Deus se espalhava com milagres, sinais e maravilhas.

- Mateus 13:8 e 13:23 (Parábola do Semeador): Jesus usa o referencial da agricultura para falar da recepção da Palavra. A semente que cai em boa terra frutifica e produz "a cem, a sessenta e a trinta por um". Uma colheita de cem por um era considerada extraordinária e espantosa para os agricultores da Galileia daquela época. A mesma passagem se repete em Marcos 4:8 e Lucas 8:8.

O padrão é: semente, fermento, rio, montanha. Em todas essas figuras, o Reino começa pequeno e avança de forma progressiva, irreversível e abundante. Uma teologia que espera apenas a resistência de um remanescente encolhido não consegue ler essas parábolas pelo que elas dizem.

------------------------------------------------------------

2. AS GRANDES VISÕES PROFÉTICAS DO REINO VITORIOSO

Se as parábolas revelam o método do Reino, as grandes visões proféticas revelam o seu destino. Uma geração capaz de multiplicar precisa resgatar essas visões:

- Daniel 2:31-35 (A Pedra que vira Montanha): a estátua é esmiuçada por uma pedra "cortada sem auxílio de mãos", que cresce até se tornar um grande monte e encher toda a terra. O Reino de Cristo começa de forma humilde e quase imperceptível, mas cresce até subjugar todos os impérios mundanos.

- Ezequiel 47:1-12 (O Rio que Sai do Templo): a água que jorra do templo vai aumentando de profundidade — dos tornozelos aos joelhos, à cintura, até se tornar um rio que só se atravessa a nado e que traz vida por onde passa. Jesus identifica o cumprimento dessa profecia no derramamento do Espírito Santo (João 7:37-39).

- Salmo 110:1 e 1 Coríntios 15:20-28 (O Reinado Atual de Cristo): Cristo não está aguardando o futuro para reinar. Ele já foi entronizado à destra do Pai e está ativamente subjugando todos os Seus inimigos dentro da história, antes do segundo advento.

Essas passagens não descrevem uma igreja em retirada à espera do resgate, mas um Reino em marcha, cujo Rei já governa e cujo avanço tem direção, ritmo e garantia de sucesso.

------------------------------------------------------------

3. O SÉCULO XIX: OTIMISMO HISTÓRICO E EXPLOSÃO MISSIONÁRIA

O século XIX, conhecido como o século das missões, foi extraordinariamente produtivo, não apenas em quantidade, mas também em qualidade. A explosão missionária daquele período (William Carey, J. Hudson Taylor, Jonathan Edwards, os missionários de Princeton) foi impulsionada diretamente por uma escatologia pós-milenista e vitoriosa. O lema de William Carey — "Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus" — nascia da certeza de que o evangelho conquistaria as nações.

A grandeza das missões modernas veio de missionários rudes, que atravessaram oceanos antes da existência do antibiótico, levando na bagagem uma escatologia otimista e histórica. Eles tinham a capacidade de pensar além das próximas gerações. Pensaram grande, agiram com otimismo e fé, e por isso a história os acompanhou.

A ousadia missionária não foi acidental. Ela era fruto direto de uma convicção sobre o futuro. Quem acredita que a história caminha para a vitória do Reino está disposto a morrer em terra estrangeira, porque sabe que a semente plantada vai frutificar.

------------------------------------------------------------

4. A RETRAÇÃO DO SÉCULO XX

O século XX, apesar das duas grandes guerras mundiais, ainda foi um século produtivo em termos de missões, especialmente no Sul Global e na Ásia, com destaque para a Índia. Mas, no Ocidente, houve uma retração decisiva.

As duas guerras mundiais criaram um pessimismo existencial. O avanço do dispensacionalismo e do amilenismo fez a igreja adotar a mentalidade do "navio em naufrágio", expressão atribuída a D. L. Moody. A igreja transformou-se em um convento ou retiro do mundo, destinado a salvar poucas almas isoladas, abandonando o mandato de avançar como um exército conquistador.

Gerações inteiras perderam o otimismo da multiplicação abundante. A consequência foi uma igreja que deixou de esperar crescimento exponencial e passou a esperar declínio. E aquilo que se espera, em geral, se produz. São as profecias autorrealizáveis de uma geração ou de gerações.

Nesse mesmo período, enquanto o Ocidente caía no secularismo e na apatia cessacionista, o século XX e o início do XXI viram o crescimento explosivo do Reino na América Latina, na África, na China e na Coreia do Sul, confirmando que o grão de mostarda continua se expandindo além das fronteiras ocidentais. O problema, portanto, não está no Reino, que cresce, mas nas estruturas e mentalidades que o resistem.

A virada do milênio de XX para XXI trouxe um terreno fértil para as novas gerações, em termos de acesso ao conhecimento, a popularização da Internet e Inteligência Artificial. O conhecimento bíblico na palma da mão. E estamos apenas no começo do século XXI e do novo milênio.

------------------------------------------------------------

5. O COMEÇO DO SÉCULO XXI: A RESSACA DE DUAS ONDAS

O século XXI é, em grande medida, uma ressaca dessas duas ondas: a do otimismo do século XIX e a da retração do século XX. Convém lembrar, contudo, que estamos apenas no começo do século. O avanço da escatologia pessimista do século XX atravessou a fronteira do novo milênio, e o início do século XXI ainda colhe as consequências da Guerra Fria e de mudanças geopolíticas que, historicamente, sustentam e aparentemente respaldam as escatologias pessimistas.

É um cenário que favorece o desânimo. Mas a pergunta não é o que o noticiário sugere, e sim o que o Rei já fez e está fazendo. Por isso, o diagnóstico precisa ser feito com honestidade: a geração evangélica do século XX levou longe demais o seu pessimismo histórico, sua improdutividade e seu cessacionismo.

A escatologia pessimista mais o cessacionismo tentam validar seu ensino pelos olhos que veem ou pelo que conseguem deduzir circunstancialmente.

Interpretar o mundo ou a história circunstancialmente por meio do empirismo e do racionalismo secular é um erro.

Um erro que substitui o axioma infalível da Revelação pela autonomia do pensamento humano.

Quem interpreta a história, o mundo, a verdade e a realidade pelas circunstâncias impõe especulações...

A história deve ser interpretada à luz da promessa da revelação infalível de Deus.

------------------------------------------------------------

6. A GERAÇÃO DO DESERTO E A GERAÇÃO DA PROMESSA

Aqui a Escritura oferece um exemplo inescapável: a igreja no deserto. Uma geração inteira teve que morrer no deserto sem receber a promessa da terra prometida. A terra foi dada à nova geração.

O mesmo princípio parece se aplicar as igrejas apóstatas. A geração de herança reformada, com seus quinhentos anos de tradição, terá que passar para que uma nova geração, no novo milênio, possa multiplicar. Essa geração foi longe demais em seu apego a doutrinas nocivas, como o cessacionismo e o amilenismo, e se tornou muito difícil de mudar. Uma geração mais velha dificilmente terá a humildade e a flexibilidade necessárias para a revisão, pois há nela um medo de mudar, um apego a tradições de homens.

Deus prefere agir com um remanescente purificado a agir com uma multidão incrédula. Assim como reduziu o exército de Gideão de 32 mil para 300 homens, Ele permite que a geração infiel e presa às tradições humanas caia no deserto, a fim de libertar a comunidade da aliança de "dívidas espirituais e sociais", isto é, de falsos crentes e tradicionalistas endurecidos.

Por isso é coerente afirmar que esta geração terá que ficar para trás. Não por desprezo pessoal, mas por necessidade histórica e espiritual: há uma mudança geracional que precisa acontecer.

------------------------------------------------------------

7. REAVALIAR É VIRTUDE; INTRANSIGÊNCIA É SENILIDADE

Reavaliar pressupostos não é defeito, é virtude. A intransigência diante da apostasia doutrinal — o cessacionismo e as doutrinas pessimistas — é senilidade. As igrejas envelheceram na teimosia e no erro.

A condição dessas igrejas encontra reflexo na advertência a Sardes: "tens nome de que vives, mas estás morto" (Apocalipse 3:1). Mantêm a aparência de vida, mas a vida, em seu sentido bíblico, de poder, de frutos e de expansão, já se foi. A intransigência em manter doutrinas impotentes equivale a esse estado de senilidade espiritual.

A nova geração precisa mover-se da "religião do medo e da autopreservação" para o "descanso da fé e a ousadia indestrutível".

------------------------------------------------------------

8. QUEM SERÁ A GERAÇÃO DA MUDANÇA?

Talvez seja a Geração Z (a atual), talvez a próxima. O que não admite dúvida é o conteúdo da mudança: essa geração terá que resgatar as grandes visões proféticas do Reino vitorioso, e precisará ser caracterizada por três convicções.

PRIMEIRO: uma geração que rejeite o cessacionismo e as limitações do continuísmo.

O cessacionismo não é apenas um erro secundário. É uma rejeição do evangelho em sua inteireza e, na prática, uma religião contracristã, pois nega o poder sobrenatural do Espírito Santo, que é parte inegociável da mensagem salvadora. Mas é preciso que a nova geração vá além: que não se contente com um continuísmo tímido, que admite os dons em teoria e os sufoca na prática. — Trata-se não apenas de continuar, mas expandir exponencialmente.

SEGUNDO: uma geração que compreenda que o crescimento do Reino não virá por mero debate político ou conservadorismo moralista. — A igreja em apostasia em sua incredulidade cessacionista e seu pessimismo escatológico busca saídas erradas, e o ativismo político é um desses erros.

O crescimento extraordinário virá quando a pregação fiel for acompanhada pela demonstração ativa de poder: curar doentes, expulsar demônios e profetizar, multiplicando as obras de Cristo de geração em geração. A Palavra e o poder não competem entre si; caminham juntos, como no ministério do próprio Senhor e dos apóstolos. Assim também como poder e santidade andam juntos. —A igreja em apostasia se afastou disso.

TERCEIRO: uma geração com mentalidade de herança apostólica, e não de sobrevivência.

Uma geração que pense, como os missionários do século XIX, para além de suas próprias vidas; que plante árvores cuja sombra talvez não veja; que trabalhe com a convicção de que a terra se encherá do conhecimento do Senhor.

------------------------------------------------------------

CONCLUSÃO

O Reino de Cristo cresce como semente, fermento, rio e montanha; o Rei já está entronizado e subjugando Seus inimigos dentro da história; e o declínio da multiplicação nas igrejas de herança ocidental decorre do pessimismo escatológico e do cessacionismo, que sufocaram o otimismo missionário que marcou o século XIX. — Deus não tem pressa nem se atrasa, ele possui um relógio que não atrasa. Não há poder, tecnologia, influência, dinheiro que mude um segundo de Deus.

A igreja apóstata cairá. A igreja de herança reformada será reformada. Pode fechar as portas em suas tradições de homens, colocar defensores sentinelas. Não vai adiantar.

Por que a igreja de herança reformada irá cair? Por causa do cessacionismo e escatologia pessimista. Deus restaurará a honra da videira, cortando a geração incrédula. Deus é zeloso e vingador.

A Reforma é famosa por sua história, e a história será uma testemunha contra sua herança cessacionista. Um dos pecados do calvinismo é o orgulho. E este orgulho em parte está sobre o cessacionismo. — Assim como aconteceu com a queda de Nínive, a prata, o ouro foram saqueados por ordem de Deus (Naum 2). — A sã doutrina de herança reformada será preservada. No mais a herança cessacionista será esvaziada, esgotada, devastada (como Nínive). A missão é de Deus, a guerra é de Deus. — Os cessacionistas herdeiros zombadores não zombarão mais.

Os cessacionistas herdeiros da Reforma podem achar que são perenes por causa do tempo de herança. Mas Deus tem um relógio. A queda de Nínive demorou séculos. — Quanto mais Deus não executa o juízo mais os injustos cometem injustiças (Ec 8.11). — Esquecem que a demora não é esquecimento. — A tradição dos homens confiam em prédios, em documentos, em status? Deus ainda reina e o cessacionismo vai cair.

Como no deserto, a correção não virá de uma reforma gradual da geração que se acostumou ao erro, mas do surgimento de uma nova geração, que reavalie sem medo, reúna Palavra e poder e recupere a visão de um Reino em expansão exponencial com milagres, sinais e maravilhas.

A nova geração é chamada a retomar o avanço vitorioso do Reino, unindo a Palavra infalível à demonstração viva do poder de Deus, até que a terra se encha do conhecimento do Senhor.

Contato

Envie suas dúvidas ou sugestões

Email

ranzemis@gmail.com

© Raniere Menezes