Deus não se aposentou

O Cessacionismo não sobrevive ao exame bíblico. - Não existe aposentadoria para Deus. E é por isso que a doutrina que afirma o encerramento dos dons espirituais — profecia, cura, línguas, milagres — precisa se apoiar em silêncios, inferências e datas que o texto bíblico simplesmente não fornece.

CESSACIONISMOESTUDO BÍBLICOENSINO TEOLÓGICO E APOLOGÉTICA CRISTÃ

Raniere Menezes

7/14/20266 min read

Há uma pergunta que o cessacionismo nunca consegue responder de forma satisfatória: em que versículo, exatamente, Deus anunciou sua própria aposentadoria? Os reformados cessacionistas falam tanto em “Soberania”, mas parece que tentam aposentá-lo de sua Soberania.”

No lugar de “Soberania, Soberania” eles deveriam gritar: “Aposentadoria, Aposentadoria”.

Não existe aposentadoria para Deus. E é por isso que a doutrina que afirma o encerramento dos dons espirituais — profecia, cura, línguas, milagres — precisa se apoiar em silêncios, inferências e datas que o texto bíblico simplesmente não fornece.

O cessacionismo não nasce de um mandamento explícito das Escrituras. Nasce do desconforto com o sobrenatural, e depois vai procurar versículos que justifiquem esse desconforto. O problema é que, quando confrontado com a exegese direta, o edifício desmorona.

Deus não é refém do calendário

O ponto de partida não é um versículo isolado, mas a própria identidade de Deus. As Escrituras O descrevem como aquele que "opera maravilhas" (Êxodo 15:11) — não como alguém que operou maravilhas num período específico da história e depois pendurou as chuteiras. Operar milagres não é um evento datado na biografia de Deus; é constitutivo de quem Ele é.

Perceba o absurdo lógico ao qual o cessacionismo nos conduz: ele afirma que Deus permanece majestoso em santidade, terrível em glória, soberano em poder — mas que, por algum motivo, decidiu parar de fazer a única coisa que sempre foi a assinatura de Sua ação no mundo.

Para que os milagres morressem de verdade, o próprio Deus teria que morrer. E como Hebreus 13:8 é categórico — "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente" — Sua função como Batizador no Espírito Santo e poder não tem data de validade. Negar isso não é uma nuance teológica. É uma tentativa velada de aposentar Cristo de Seu próprio papel messiânico.

Há ainda a questão da origem das Escrituras. A Bíblia veio do sopro de Deus (2 Timóteo 3:16), e Deus continua vivo. Se a conclusão do cânon tivesse o poder de encerrar a capacidade de Deus de agir sobrenaturalmente, a lógica nos obrigaria a concluir que fechar o livro matou o Autor. Ninguém, nem o cessacionista mais convicto, está disposto a assinar embaixo dessa conclusão — mas é exatamente onde a doutrina o deixa, se ele for consistente até o fim. É uma doutrina inconsistente com as Escrituras.

O texto que o cessacionismo mais cita é o que mais o condena

Se existe uma passagem que os cessacionistas repetem como prova textual, é 1 Coríntios 13:8-12. E é precisamente aí que a doutrina comete seu erro mais grave, porque o texto não apenas fala em cessação — ele define a condição exata sob a qual ela ocorre.

Paulo não deixa margem para adivinhação. Os dons cessarão "quando vier o perfeito" (v. 10), e ele mesmo explica o que isso significa: o momento em que veremos "face a face" e conheceremos "como somos plenamente conhecidos" (v. 12). Não é uma metáfora vaga sobre maturidade doutrinária. É a descrição de um conhecimento direto, imediato, total — o tipo de conhecimento que não precisa de exegese, de comentário bíblico ou de seminário para existir. É a condição pós-ressurreição, ou a segunda vinda de Cristo. Ponto final.

A tentativa cessacionista de encaixar a conclusão do cânon bíblico nesse "perfeito" é, teologicamente insustentável. Pense bem: se a Bíblia fosse o "perfeito" de 1 Coríntios 13, isso significaria que qualquer cristão hoje, ao terminar a leitura das Escrituras, passaria a conhecer a Deus tão plenamente quanto Deus o conhece. Nenhum teólogo sério, cessacionista ou não, defenderia isso em outro contexto. A Bíblia é suficiente para edificar nossa fé nos milagres — não para servir de cláusula de rescisão das obras do Espírito no mundo.

E há uma implicação escatológica que os cessacionistas raramente enfrentam de frente: se o "perfeito" já chegou, então já vivemos no estado pós-ressurreição, na era vindoura. Mas isso exigiria que tivéssemos hoje capacidades naturais superiores às dos próprios apóstolos.

Deus manda buscar, o cessacionismo manda parar

Se a teologia de alguém termina em contradizer um mandamento direto das Escrituras, o problema não está no texto. Paulo não sugere, ordena: "Sigam o caminho do amor e busquem com zelo os dons espirituais, principalmente o de profecia" (1 Coríntios 14:1). E completa, algumas linhas depois, com uma proibição explícita: "não proíbam que se fale em línguas" (14:39).

Note a estrutura do argumento cessacionista: ele usa o capítulo 13 — que fala do amor — para justificar o abandono dos dons descritos no capítulo 12 e retomados no capítulo 14. Só que o próprio Paulo, na transição entre os capítulos, deixa claro que o caminho é andar no amor enquanto se exercem os dons — não trocar um pelo outro.

Pregar que os dons cessaram, à luz desse texto, não é uma posição teologicamente neutra. É pregar rebelião contra um mandamento bíblico infalível, ainda que revestida de linguagem reverente sobre a suficiência das Escrituras.

A promessa sem data de validade

João 14:12 é outro texto que o cessacionismo prefere não esmiuçar. Jesus disse que aquele que crê Nele faria as mesmas obras que Ele fez — e obras ainda maiores. Não há, em lugar nenhum do versículo, uma cláusula que restrinja essa promessa aos apóstolos, ao primeiro século, ou a qualquer período dispensacional. A promessa é para "qualquer um que tem fé".

O propósito do batismo no Espírito Santo, segundo o próprio texto de Atos 1:8, é a recepção de poder (dunamis) para o milagroso. E quando Pedro, no Pentecostes, explica o que está acontecendo, ele não recorre a uma teologia própria — cita o profeta Joel: o derramamento do Espírito, com profecias, visões e sonhos, é uma promessa para todas as gerações, para todos os que estão longe. Não para uma geração fundacional que se encerraria com a morte do último apóstolo.

Expansionismo: não é sobre continuar, é sobre crescer

Aqui está talvez o ponto mais negligenciado de todo o debate. A alternativa ao cessacionismo não é apenas afirmar que os dons "continuam" — como se fosse uma sobrevivência de algo que deveria ter acabado. A Bíblia ensina o expansionismo: a doutrina de que os poderes sobrenaturais e os milagres devem aumentar em quantidade, magnitude e alcance geográfico à medida que o evangelho avança até os confins da terra.

Essa é uma diferença categórica, não de grau. O cessacionista discute quando os dons pararam. O expansionista discute o quanto eles ainda vão crescer. E é essa mesma lógica de intensificação, e não de extinção, que explica por que a vinda do Espírito Santo em plenitude, no Novo Testamento, não eliminou os milagres — ela os multiplicou. Por que razão a plenitude futura, então, faria o movimento oposto?

Cura na expiação: por que aceitar um lado e negar o outro?

Por fim, um argumento que expõe a inconsistência prática do cessacionismo. Mateus 8:17 declara que Jesus levou sobre si nossas enfermidades. Perdão e cura são providos pelo mesmo princípio expiatório — a cruz. Nenhum cessacionista duvida que o perdão dos pecados esteja disponível hoje, plenamente, para qualquer crente. Mas, ao chegar na cura física, promovida pela mesma obra expiatória, a resposta muda repentinamente para "isso já cessou".

Não há base textual para esse corte seletivo. Se a cruz garante um benefício presente, garante o outro. Separar os dois não é exegese — é conveniência doutrinária.

O que sobra do cessacionismo depois disso?

Sobra pouco. Sobra o desconforto histórico de tradições que viveram experiências negativas com falsificações carismáticas e, em vez de corrigir o abuso, decidiram negar o dom. Sobra uma leitura de 1 Coríntios 13 que inverte o próprio texto que citam. E sobra a tarefa, sempre adiada, de explicar por que razão a Igreja deveria acreditar que Deus, imutável em Sua natureza, mudou de ideia sobre operar maravilhas no meio de Seu povo.

A resposta bíblica é simples e não exige malabarismo hermenêutico: o "perfeito" ainda não chegou. Ninguém vê a Deus face a face. Ninguém tem conhecimento pleno. Portanto, os dons permanecem — não como relíquia do passado, mas como ferramenta viva de um Deus que nunca se aposentou.

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