DICAS DE ESCRITA CRIATIVA COM IA - FASE 1 - Brainstorming e Conceito - Curso Oficina de Oleiros com Raniere Menezes
Oficina de Oleiros são dicas tutoriais focadas em otimizar a escrita através da IA. Com Raniere Menezes. Nesta série Oficina de Oleiros detalharei métodos para refinar manuscritos com técnicas e prompts para escrita de ficção. A tecnologia da IA usada como assistente criativo para aumentar a produtividade sem comprometer a voz autoral original.
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Raniere Menezes
9/2/20268 min read


Brainstorming e Conceito: o alicerce que decide se o seu livro vai nascer forte ou fraco
Todo escritor que já tentou usar IA para ficção conhece isso: abrir o chat e pedir, de cara, "escreva o capítulo 1 do meu romance". O resultado costuma ser genérico, sem alma, sem direção — porque falta o que deveria vir antes de qualquer parágrafo: um conceito de história testado, validado e apropriado por você.
A IA pode ser uma Ferrari, se o piloto é de carroça vai bater na primeira curva.
É exatamente aqui que entra a Fase 1 de um processo estruturado de escrita assistida por IA: Brainstorming e Conceito. Gaste dois dias, uma semana nisso. Essa fase determina se as próximas semanas serão produtivas ou uma sucessão de becos sem saída.
Vamos explorar mais essa fase, com um olhar de nível intermediário: você já sabe escrever, já entende os fundamentos de enredo e personagem, mexe um pouco com IA, e agora quer saber como incorporar IA nesse processo sem perder a autoria — e sem cair no genérico.
1. O princípio: humano pensa, IA executa
Antes de qualquer técnica, existe uma divisão de trabalho que precisa ficar clara na sua cabeça, porque é ela que evita que o livro pareça "feito por IA". A IA deve ser ferramenta de auxílio, não escrever pra você.
Primeira coisa, não crie o primeiro esboço na IA. Jogue suas ideias no papel. O DNA é seu. A alma é sua. O comandante é você.
A IA não decide o que é a história, quem é o leitor ou quais promessas narrativas o livro vai cumprir. Essas são decisões autorais — a alma do projeto. O que a IA faz bem, e faz muito bem, é gerar volume: variações, ângulos, combinações que um cérebro humano cansado, sob pressão, dificilmente produziria sozinho em tempo hábil. Em termos de produtividade e recursos, a IA é mil vezes mais eficaz.
Com SUA história inicial em mãos. Sugiro que você tenha pelo menos 5 partes de sua história em mente: a cena inicial, o incidente incitante, o ponto médio, clímax e cena final. Se você tiver isso, tem uma história. Tendo isso o auxílio da IA faz diferença. Tendo esse esboço poderá testar todo tipo de pressão, pra ver se a ideia resiste.
Na prática, isso significa trocar a pergunta errada pela pergunta certa. Em vez de perguntar "qual é a ideia perfeita para o meu livro?", você pergunta:
Me dê 20 ganchos de curiosidade para esse tema.
Me dê 10 sinopses com focos emocionais diferentes.
Esboce esse mesmo enredo de três formas: como jornada do herói, como romance, como mistério.
O seu trabalho passa a ser o de curador: pegar a frase de um gancho, o twist de outro, a estrutura de um terceiro, e fundir tudo numa "ideia frankenstein" que só existe porque você a montou. A originalidade não está em pedir para a IA inventar algo do nada — está na sua seleção e na sua costura.
Esse deslocamento de papel é o que separa um autor que usa IA como ferramenta de um autor que terceiriza o julgamento criativo. E é o julgamento, não a prosa, que o leitor sente primeiro.
2. Mixed Interview: deixe a IA fazer as perguntas
Encarar uma tela em branco e se perguntar "o que eu devo escrever?" é a receita mais confiável para o bloqueio criativo. A técnica proposta inverte essa lógica: é a IA quem entrevista você.
Você configura o chatbot — Claude, ChatGPT, Perplexity, tanto faz — com instruções específicas para agir como parceiro de brainstorming. A instrução central é: faça uma pergunta por vez, não várias de uma vez, e aprofunde a partir das minhas respostas. Os temas da entrevista giram em torno de:
Que tipo de experiência emocional você quer proporcionar ao leitor?
Quem é esse leitor, e o que ele já ama consumir?
Que tropos e dinâmicas de personagens te interessam explorar?
Que cenários e conflitos te dão vontade de escrever agora?
O valor real dessa técnica não está nas respostas "certas" que você dá. Está no brain dump sem filtro — você responde sem se preocupar em soar inteligente ou coerente, e frequentemente sua voz autêntica aparece justamente no momento em que você discorda de uma sugestão da IA: "não, não é isso, eu quero que aconteça desse outro jeito". Esse atrito é ouro. Lute com a IA, exerça pressão nela. Extraía o suco do bagaço. Aperte até a última gota.
Vou lhe dar um prompt que chamo de prompt de ouro. Isso permite forçar o motor da IA para que ela se esforce mais. Você pode adaptar ao seu projeto.
1. Peça para que ela transforme seu texto em algo específico, mas antes de criar peça que ela siga 3 pontos:
2. Enquadramento: defina claramente sua ideia e identifique a ideia central.
3. Teste: aponte evidências contrárias, liste alternativas e desafie seu próprio raciocínio.
4. Resolução: avalie os prós e contras e então escreva que pedi.
Isso vai fazer com que a IA desafie seu próprio raciocínio e busque mais alternativas.
É o ponto exato em que a IA para de ser geradora de conteúdo e vira espelho da sua própria intenção criativa.
Uma dica prática de nível intermediário: guarde essas discordâncias num documento separado. Elas tendem a virar as cenas mais fortes do livro, porque nasceram de uma reação instintiva sua, não de um algoritmo tentando adivinhar o que você quer.
Tenha pastas separadas para um projeto. Crie um acervo, banco de dados de ideias. Não tenha medo de empilhar ideias para um projeto.
3. Gênero, tropos e a regra do "mesmo, mas diferente"
Um erro comum de quem já domina a escrita mas é iniciante em publicação de gênero é subestimar o peso do mercado na fase de concepção. A legibilidade e a sintonia com as expectativas do leitor superam, na prática comercial, a originalidade absoluta.
O gênero é uma restrição criativa, não uma limitação. Escolher um nicho específico — cozy fantasy com foco em culinária, romance mafioso russo, fantasia urbana com protagonista masculino — já define, antes de você escrever a primeira cena, o tamanho aproximado do livro, o estilo de capa esperado e os tropos que o leitor exige para se sentir satisfeito. Isso é o feijão com arroz. Existem fórmulas de estilos. É preciso estudá-las.
Isso leva à regra do "mesmo, mas diferente": a história deve ser cerca de 90% familiar ao leitor do gênero, cumprindo as expectativas clássicas que ele já busca, e reservar apenas 10% para um ingrediente novo ou uma reviravolta que a torne memorável.
Um exemplo didático: um detetive no estilo Jack Reacher, mas transplantado para um cenário de fantasia industrial. O leitor reconhece o esqueleto (o gênero de investigação, o protagonista durão) e se surpreende com a pele (o mundo fantástico).
Para calibrar essa proporção, a técnica recomendada é a caça de competidores: selecionar de 5 a 10 livros de sucesso no mesmo nicho e alimentar a IA com os resumos deles. Estudar a estrutura. Estudar o autor.
A IA age então como detector de padrões — extraindo tropos recorrentes, estruturas de conflito comuns, e as promessas visuais que capa e sinopse costumam fazer ao leitor daquele gênero. Isso não é copiar; é entender as regras do jogo antes de decidir onde você vai quebrá-las. Aqui estamos tratando de fórmulas de ficção.
4. Reader Avatar: materializando o leitor ideal
Com os dados de competidores em mãos, o próximo passo é transformar um público abstrato em uma pessoa concreta — o Reader Avatar. Peça à IA para construir um perfil detalhado: nome, rotina, hábitos de consumo, o que essa pessoa faz depois do trabalho, que tipo de conteúdo já a fideliza.
Duas perguntas organizam esse exercício:
O que esse leitor está tentando escapar na vida real? Alguém que sai de um trabalho exaustivo e abre uma cozy fantasy está buscando conforto, não tensão constante. Entender a fuga emocional do leitor orienta o tom do livro inteiro.
Cozy fantasy (ou fantasia aconchegante) é um subgênero da ficção fantástica focado em histórias leves, reconfortantes e de baixo risco, que priorizam o bem-estar e o cotidiano em vez de grandes batalhas ou ameaças catastróficas ao mundo.
Os conflitos são íntimos e em escala humana (como abrir um negócio, cuidar de uma vila ou resolver um mal-entendido local).
Histórias sobre laços de amizade, família encontrada e o acolhimento de pequenas cidades ou tavernas mágicas.
Sensação de refúgio, ideal para leitores que buscam tramas acolhedoras, finais felizes garantidos e uma pausa de narrativas frenéticas. Um exemplo: Cafés & Lendas (Legends & Lattes), de Travis Baldree: A história de um orc que larga a vida de mercenário para abrir uma cafeteria.
O que geraria uma avaliação de 1 estrela? Peça à IA para escrever essa avaliação fictícia, específica — a ausência de final feliz num romance, uma traição do herói sem redenção, um plot twist que quebra uma promessa implícita do gênero. Esse exercício estabelece os limites éticos e estruturais que a sua história não pode ultrapassar sem perder o leitor que você quer conquistar.
5. O Story Dossier e os três "checks" de qualidade
Todo esse material bruto — ganchos, sinopses, tropos, avatar do leitor — precisa convergir para um documento único: o Story Dossier. Um mapa oficial de 2 a 3 páginas que vai guiar toda a fase seguinte de planejamento de capítulos. Ele reúne:
1. Uma sinopse detalhada e um gancho "E se..." de impacto.
2. Definição de tom, vibe geral, ponto de vista e tempo verbal.
3. O esqueleto do enredo — incidente incitante, ponto médio, clímax, imagem de encerramento.
4. A lista inicial de personagens e elementos de cenário.
Em fluxos mais automatizados (usando agentes de IA, mas nada que um chat bem abastecido de contexto não possa fazer), esse dossiê passa por três análises críticas antes de o autor sequer começar a esboçar capítulos:
Check emocional: a IA avalia se a história tem ganchos capazes de gerar impacto emocional real, e não apenas uma sequência fria de eventos.
Check de nomes de personagens: o elenco é comparado a um banco de nomes clichês gerados por máquina — Marcus, Silas, Nora, Dr. Chen, Blackwood são exemplos recorrentes — e a IA sugere alternativas culturalmente plausíveis e menos previsíveis. Forneça nomes exclusivos a IA.
Check de lógica e plausibilidade: um modelo com maior capacidade de raciocínio verifica se as regras do mundo sustentam as atitudes dos personagens, caçando furos de enredo e conveniências narrativas que quebrariam a suspensão de descrença do leitor.
Esses três filtros funcionam como uma primeira revisão editorial, feita antes mesmo de existir um manuscrito — o que economiza semanas de retrabalho mais adiante. Todo esse processo e muito mais possibilidades trabalham na fase 1. É o arquiteto e o engenheiro conversando para construir um prédio antes de limpar o terreno.
Tenha uma capa cedo
Um conselho que soa contraintuitivo, mas que faz sentido psicológico: ter uma capa (provisória), antes de escrever uma única cena do manuscrito.
Ter a imagem visual e a tipografia prontas foca o gênero na sua mente — você não escreve mais "algo parecido com fantasia", você escreve para aquela capa específica. E funciona como motor de motivação: nas semanas difíceis de escrita, você não estará apenas preenchendo um documento em branco, estará completando um livro que já tem rosto, já tem promessa, já parece real.
Por que essa fase merece dedicação de dias inteiros
Para quem já escreve com alguma fluência, pode parecer excessivo dedicar dias inteiros só ao conceito, antes de tocar num único capítulo. Mas é justamente essa disciplina que evita o problema mais comum de projetos assistidos por IA: um livro tecnicamente correto, mas emocionalmente vazio, porque o autor pulou direto para a geração de texto sem primeiro definir para quem e por quê aquela história existe.
A IA, usada dessa forma — como entrevistadora, como geradora de volume, como detectora de padrões de mercado, como revisora de lógica — não substitui a visão do autor. Ela a testa, a expande e a organiza mais rápido do que um processo manual permitiria. O conceito que sai dessa fase carrega a sua voz, porque foi você quem discordou, escolheu e costurou as peças. A IA apenas ofereceu o material bruto para você trabalhar.
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