ELA TRAZ OS PROBLEMAS. VOCÊ ACHA QUE ESTÁ TUDO BEM. E OS DOIS ESTÃO CERTOS?

O que a pesquisa dos doutores John e Julie Gottman — casal de psicólogos clínicos que passaram mais de 50 anos estudando relacionamentos — revela sobre isso é ao mesmo tempo incômodo e libertador.

ACONSELHAMENTO

Raniere Menezes

6/15/20265 min read

Quem se identifica?

O marido senta no sofá, respira e pensa: que bom, está tudo bem. A esposa, sentada do outro lado da sala, está com uma lista mental de cinco coisas que precisam ser conversadas. E ali está o abismo.

Eu me reconheço nessa cena. Mais alguém?

O que a pesquisa dos doutores John e Julie Gottman — casal de psicólogos clínicos que passaram mais de 50 anos estudando relacionamentos — revela sobre isso é ao mesmo tempo incômodo e libertador. Incômodo porque é a realidade. Libertador porque tem saída. As pesquisas foram realizadas com milhares de casais.

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80% das vezes são as mulheres que levantam os problemas num relacionamento.

Quatro de cada cinco conversas difíceis são iniciadas por ela. E o primeiro reflexo masculino — honestamente — costuma ser: por que você está criando problema onde não tem?

Na maioria dos casos os homens dizem:

"Se você nunca trouxesse um problema, eu acho que nunca haveria um problema." Este é o ponto cego.

O que os Gottman documentaram — em laboratório, com câmeras, medindo frequência cardíaca e marcadores imunológicos — é que esse comportamento feminino não é drama. É cuidado. A mulher foi formada — pela criação, pela cultura e, pelo próprio design da criação — para zelar pela conexão.

Ela sente quando algo está desalinhado na relação antes que o marido sequer perceba que há algo a sentir.

Quando ela traz um problema, ela está cumprindo uma função que você, sozinho, não cumpriria.

O problema não é ela trazer. O problema é você receber como ataque o que foi enviado como um cuidado dela. E muitas vezes a comunicação não transmite cuidado, mas apenas reclamação.

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69% DOS PROBLEMAS NUNCA VÃO EMBORA

Essa informação vale um doutorado em psicologia.

Os problemas em quantidade são recorrentes, não há casais sem problemas. Nada é perfeito.

Aqui está a segunda virada que a pesquisa dos Gottman provoca: 69% dos problemas em um relacionamento são perpétuos. Não têm solução. Não vão ser resolvidos. Nunca. Nunca. Nunca.

Leia de novo: quase sete em cada dez conflitos que você tem com o seu cônjuge não têm resolução. São diferenças de personalidade, de temperamento, de família de origem, de ritmo, de necessidade emocional. Você pode aprender a conviver com elas. Não pode eliminá-las.

Isso é libertador — se você entende isso. Porque quando você para de medir o sucesso do casamento pelo número de problemas resolvidos, você começa a medir pelo que realmente importa: como vocês tratam um ao outro dentro do conflito.

Não existe resolver o problema, existe melhor gestão do problema.

O conflito não é o inimigo do casamento. A forma como você trata a sua esposa dentro do conflito — isso sim pode matar o casamento.

E isso sim, a Bíblia trata. "Maridos, amai vossas mulheres e não as trateis com amargura" (Cl 3.19) não é conselho para quando tudo vai bem. É instrução para quando tudo vai mal.

Discussão sempre vai existir, em qualquer relacionamento. Um exemplo: Numa empresa ou ambiente de trabalho sempre haverá problemas, sempre haverá pressão. E geralmente as pessoas fazem uma gestão para lidar com o problema. E muitas vezes essa atitude lá fora não é feita no casamento. Aguentamos um chefe por causa do emprego, mas não temos o mesmo “aguentar” com a esposa ou marido.

Muitas vezes oferecemos aos nossos colegas e estranhos a nossa melhor versão e ao cônjuge nossa pior versão. Como se o acúmulo de stress tivesse que ser despejado nas pessoas que amamos.

Essa gestão é brigar pelo certo do modo certo.

Casais que "brigam certo" — descrevendo o que sentem, o que precisam, sem atacar o caráter do outro — constroem intimidade dentro do conflito. Saem sabendo mais sobre o parceiro do que sabiam antes. Isso é possível. Mas exige decisão.

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VOCÊ CONHECE OS SONHOS DELA?

Julie Gottman faz uma pergunta que pode ser desconfortável: você sabe quais são os sonhos do seu cônjuge?

Não os planos. Não os projetos. Os sonhos. Aquilo que ele ou ela carrega no fundo do peito e talvez nunca tenha verbalizado com clareza — porque nunca foi perguntado com atenção suficiente.

Eu já fiz o exercício mental de "acho que sei o que ela quer" sem jamais ter perguntado diretamente. E há uma diferença enorme entre o que você supõe que seu cônjuge sonha e o que ele ou ela realmente sonha.

Os Gottman escreveram um livro chamado Eight Dates — oito perguntas específicas que casais deveriam ter, seja no começo do relacionamento ou depois de anos juntos. A ideia é simples: amor se constrói com atenção deliberada. Com perguntas reais. Com disposição para ouvir a resposta mesmo quando ela é diferente da que você esperava.

Muitas vezes nem comunicação há mais, sempre há um celular no meio ou algo.

Isso tem um nome bíblico: honrar. "Honrai o matrimônio" (Hb 13.4) não é só fidelidade sexual. É tratar o outro como alguém cujos sonhos merecem ser ouvidos, pesados, considerados.

E falhamos na maior parte do tempo.

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O QUE VOCÊ PODE FAZER (E NÃO FIZ)

Os Gottman não terminam suas pesquisas com teoria. Eles terminam com prática. E aqui estão quatro coisas que qualquer casal pode fazer — não em retiro espiritual, não depois de ler mais um livro, mas essa semana:

1. Vire-se para ela. Quando ela faz um convite de conexão — mesmo pequeno, mesmo no meio da sua reunião mental — responda. Olhe nos olhos. Diga "me conta". Os Gottman descobriram que casais duradouros fazem isso 86% das vezes. Não é perfeição. É disposição.

2. Descreva o que você sente, não o que ela fez de errado. Quando houver conflito, a diferença entre "você sempre faz isso" e "eu me sinto invisível quando isso acontece" é a diferença entre uma guerra e uma conversa. Uma acusa. A outra convida à compreensão. Troque o “Você” por “eu”. Isso é virar a bateria de tiro pra si mesmo. “Eu tenho falhado nisso”. Não é fácil admitir, mas necessário.

3. Pergunte os sonhos dela — de verdade. Marque um tempo. Desligue o celular. Pergunte: o que você sonha para a nossa vida daqui a cinco anos? O que você sempre quis e nunca me contou? E então fique quieto o suficiente para ouvir a resposta completa.

4. Uma vez por semana, pergunte: "O que eu posso fazer essa semana para você se sentir mais amada?" Não é fraqueza. É sabedoria. É o oposto de esperar que o cônjuge leia a sua mente — e a alternativa de construir amor de forma intencional, palavra por palavra, gesto por gesto.

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UMA ÚLTIMA PALAVRA

O apóstolo Paulo escreveu que o amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1 Co 13.7). Uma bela frase para emoldurar na parede da sala.

Mas só fui entender o peso disso quando percebi que "tudo suporta" inclui suportar os conflitos que nunca vão embora, suportar o desconforto de ouvir o que não quero ouvir, suportar a morte do ego que preferia achar que estava tudo bem quando não estava.

O amor maduro não é o que nunca briga. É o que aprende a brigar sem destruir. Eu achava que era nunca brigar. Brigar sem agressão verbal ou física. A briga certa.

O que ouve os sonhos do outro com o mesmo interesse com que apresenta os próprios. O que escolhe, semana após semana, fazer a pergunta difícil e suportar a resposta honesta.

Isso é casamento. Trabalhoso e possível.

Parece uma dica comum? Isso foi avaliado em milhares de casais, a maior pesquisa do mundo com casais, ao longo de 50 anos.

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