Escreva Para Quem Ainda Não Nasceu

Quem escreve para o algoritmo está competindo contra bilhões de estímulos produzidos hoje. Quem escreve para durar está competindo contra praticamente ninguém, porque quase ninguém tem paciência — ou coragem — para isso.

APENAS UM ENSAIO

Raniere Menezes

8/4/20267 min read

Escreva Para Quem Ainda Não Nasceu

Conta-se que um jovem encontrou um velho plantando tamareiras.

O rapaz perguntou:

— Por que plantar uma tamareira? Ela levará décadas para dar frutos. O senhor provavelmente nunca comerá nenhuma tâmara dessa árvore.

O velho respondeu:

— Eu comi das árvores que outros plantaram. Agora planto para aqueles que virão depois de mim.

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Existe um tipo de escritor que devia ser extinto, e a extinção já está em curso.

É o escritor que vive de novidades e modismos. O que escreve sobre a crise da semana, o aplicativo do mês, a polêmica das últimas vinte e quatro horas. Ele produz muito, é aplaudido rápido, e desaparece com a mesma velocidade com que apareceu. Não é escritor. É combustível de feed.

E o pior: ele mesmo não sabe disso, porque confunde alcance imediato com relevância permanente.

Quem escreve para o algoritmo está competindo contra bilhões de estímulos produzidos hoje. Quem escreve para durar está competindo contra praticamente ninguém, porque quase ninguém tem paciência — ou coragem — para isso.

Exige escrever para poucos leitores, escrever mesmo que ninguém leia.

Hoje com a IA a escrita deixou de ser escassa. Textos que queimam como palha seca. Escrever livros é sair da corrida.

Estamos entrando na economia da autenticidade. Se tudo é artificial, o que é humano torna-se escasso.

No auge dos fóruns e redes sociais, quem gostava de estudar, consultava livros, google, artigos e elaborava respostas, que muitas vezes se perdiam, evaporavam em mensagens, e-mails, comentários. Muita coisa boa perdida. Isso sempre me incomodou. Diferente de escrever um artigo. O artigo já tem um potencial de longevidade e um livro muito mais.

O tempo é o crítico mais implacável que existe

Nassim Taleb chamou esse fenômeno de Efeito Lindy: quanto mais tempo uma ideia sobrevive, maior a probabilidade estatística de que ela continue sobrevivendo. É o inverso exato da lógica viral. Uma trend morre na proporção direta da velocidade com que nasceu.

Um texto que resiste a um século carrega, embutido nele, uma evidência que nenhum prêmio literário e nenhuma métrica de engajamento conseguem forjar: ele já foi testado por gerações inteiras de leitores que não tinham nenhum motivo social para fingir que gostavam.

Isso não é novidade para quem lê as Escrituras com atenção. O pregador de Eclesiastes já havia percebido, milênios antes de Taleb nomear o fenômeno, que não há nada de novo debaixo do sol — que a novidade é, estruturalmente, incapaz de gerar sentido duradouro, porque o sentido duradouro nunca dependeu do que é novo, e sim do que é verdadeiro.

Taleb redescobriu estatisticamente aquilo que a sabedoria bíblica já havia estabelecido teologicamente: o efêmero é, por definição, aquilo que não suportou o teste do tempo porque nunca tratou de nada além de si mesmo.

A pergunta que todo escritor sério precisa fazer não é "o que as pessoas querem ler hoje?". É: "o que alguém daqui a cem anos ainda vai precisar aprender com este texto?"

Escritor de moda, escritor de princípio

A diferença entre os dois não é de talento. É de propósito.

Passageiro:

"Como a inteligência artificial vai mudar o mercado de trabalho em 2026?"

Permanente:

"Como toda nova tecnologia redistribui poder e reconfigura quem detém o controle sobre o conhecimento?"

Passageiro:

"Lições da eleição de 2026."

Permanente:

"Por que sociedades em crise sempre produzem líderes carismáticos — e por que isso raramente termina bem?"

O primeiro texto de cada par está datado antes mesmo de ser publicado. O segundo pode ser lido daqui a duzentos anos por alguém que nunca ouviu falar da eleição de 2026, e ainda assim vai encontrar ali algo útil sobre como funciona o coração humano.

O erro não é falar do agora. É parar nele.

Ninguém está sugerindo que o escritor ignore seu tempo. Adler, C. S. Lewis e Drucker partiam constantemente de acontecimentos contemporâneos — mas nunca ficavam presos a eles. Usavam o circunstancial como porta de entrada e rapidamente elevavam a discussão para o princípio geral que o acontecimento revelava. É esse movimento — do episódico para o universal — que separa o articulista do pensador.

Se você escreve sobre a notícia (o assunto envelhece em horas), você produziu lixo biodegradável. Se você usa a notícia como ilustração de algo permanente sobre orgulho, medo, ganância, tribalismo ou desejo de status — coisas que não mudaram desde Caim e Abel—, você produziu algo que vai continuar de pé quando a notícia já tiver sido esquecida por todo mundo, inclusive por você.

Nunca esqueço de uma pregação a qual o pregador começou com uma notícia da semana, sobre um crime, ele falaou sobre a biografia do criminoso e seus crimes, e depois aplicou o tema sobre o pecado. E que os ouvintes eram tão pecadores quanto aquele criminoso. E concluiu com a Graça.

Por que isso importa mais do que parece

Escrever para durar não é vaidade de querer ser lembrado. É uma questão de mordomia.

Temos um tempo finito, uma capacidade limitada de produção, e uma responsabilidade diante de Deus sobre como usa essas duas coisas. Gastar essa mordomia inteira perseguindo o ciclo de notícias — que por definição vai substituir seu conteúdo pelo próximo ciclo em menos de uma semana — é queimar um recurso não-renovável em troca de uma satisfação que expira antes mesmo de você conseguir sentir.

Escrever sobre o que é permanente é o oposto: é investir um recurso finito numa forma que sobrevive à sua própria morte. É reconhecer que a palavra escrita, quando trata do que é verdadeiramente humano — e, no caso do escritor cristão, do que é verdadeiramente revelado—, continua trabalhando muito depois de quem escreveu e já não está mais aqui para colher o crédito.

Isso é, no fundo, o oposto exato da vaidade. É abrir mão do aplauso imediato em troca de uma utilidade que você nunca vai presenciar.

Kafka por exemplo, publicou pouco, era pouco conhecido e ainda pediu para um amigo que queimasse seus escritos. Ainda bem que o amigo não queimou. Hoje Kafka é considerado um dos maiores escritores do século XX.

Emily Dickinson durante sua vida publicou menos de dez poemas, vivia quase em reclusão. Após sua morte foram encontrados cerca de 1.800 poemas. Hoje é considerada uma das maiores poetas da língua inglesa.

Herman Melville escreveu Moby-Dick. Hoje Moby-Dick é um clássico. Na época foi um fracasso comercial, recebeu críticas negativas. Melville terminou a vida trabalhando como inspetor de alfândega. Somente cerca de cinquenta anos depois sua obra foi redescoberta.

Fernando Pessoa quando morreu deixou um baú com aproximadamente 25 mil manuscritos. Grande parte da sua fama surgiu décadas depois. Hoje é considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa.

William Blake. Em vida vendia pouquíssimos livros; era visto como excêntrico. No século XX tornou-se um gigante da poesia inglesa.

Quase todos esses autores compartilham características semelhantes: escreviam mais preocupados com a verdade do que com o mercado; não seguiam as modas literárias do momento; tinham uma voz muito própria; tratavam de questões universais da condição humana; produziram obras difíceis de classificar em seu tempo.

É justamente esse tipo de escrita que costuma envelhecer melhor.

Isso não significa que você deixará um legado universal, mas deixará pegadas para seus netos, talvez. Significa não cegar com os holofotes do mundo.

Rainer Maria Rilke disse:

"Pergunte a si mesmo, na hora mais silenciosa da noite: preciso escrever?"

Um teste prático antes de escrever qualquer parágrafo

Antes de começar qualquer texto, faça estas perguntas:

  • Isso ainda vai ser útil daqui a cinquenta anos?

  • Se eu remover todos os nomes próprios e todas as referências à conjuntura atual, a ideia continua de pé?

  • Estou descrevendo um fato temporário ou um princípio permanente sobre a natureza humana e sobre Deus?

  • Estou reagindo ao meu tempo ou estou usando meu tempo como ilustração de algo que atravessa todos os tempos?

Se a resposta for sim para a permanência, você está escrevendo algo com chance de sobreviver ao próprio ciclo de notícias que talvez tenha inspirado o primeiro rascunho.

A convocação

Pare de escrever para os próximos trinta segundos de atenção alheia. Escreva para o leitor que ainda não nasceu — aquele que vai abrir seu texto daqui a cem anos, sem saber quem você foi, sem nenhum incentivo social para fingir que concorda com você, e que só vai continuar lendo se encontrar ali algo verdadeiro.

A internet recompensa reação. A história recompensa verdade. E a história, ao contrário do algoritmo, nunca perde para o tempo — porque ela é o próprio tempo trabalhando como editor. Escolha para qual dos dois juízes você está escrevendo. Um deles esquece você em uma semana. O outro ainda vai estar lendo quando você já tiver dado contas da sua mordomia.

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Produção de Conteúdo com Valor Permanente

Para quem escreve sobre teologia (que é diferente de ser teólogo), escrever é melhor que debater em redes sociais. É uma missão escrever para ajudar seguidores de Jesus para entender, proclamar, defender e praticar a cosmovisão bíblica.

Escrever pode ser uma forma de servir a Deus e ao seu povo. Uma forma de edificar quem é ensinável e evangelizar incrédulos.

Uma forma de restaurar o entendimento correto da doutrina, restabelecer o temor de Deus na igreja e no mundo, e fornecer "armas" para que discípulos combatam a incredulidade.

Uma forma de arma numa guerra espiritual e cultural. Visando a destruição de argumentos e de toda pretensão que se levante contra o conhecimento de Deus.

Escreva materiais que tenham valor universal e permanente, focar excessivamente no "atual" faz com que o material se torne obsoleto rapidamente, enquanto o foco nas doutrinas fundamentais lida indiretamente com todos os problemas e ataques.

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Um viajante encontra três homens assentando pedras.

Pergunta ao primeiro:

— O que você está fazendo?

Ele responde:

— Estou quebrando pedras.

Pergunta ao segundo.

— E você?

Resposta:

— Estou ganhando meu sustento.

Finalmente pergunta ao terceiro.

O homem sorri e responde:

— Estou construindo uma catedral.

Os três realizavam exatamente o mesmo trabalho.

A diferença estava na visão.

As grandes catedrais medievais frequentemente levavam entre 100 e 300 anos para serem concluídas. A Catedral de Colônia levou mais de seis séculos entre o início e a conclusão, considerando as interrupções históricas. A Catedral de Notre-Dame de Paris exigiu cerca de dois séculos de construção.

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Escrever é um trabalho silencioso.

Livros são construídos lentamente.

O reconhecimento imediato é secundário.

As palavras podem atravessar gerações e continuar moldando pessoas muito depois da morte do autor.

O escritor coloca uma pedra por dia, planta uma árvore por livro e raramente vê toda a colheita. Ainda assim, séculos de história mostram que algumas das obras que mais transformaram o mundo nasceram justamente desse trabalho paciente, quase invisível, realizado em silêncio.

Se um livro sobrevive quarenta anos, eu espero lê-lo; se sobrevive quatrocentos, considero obrigatório.

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