Escrever com IA: O segredo “vergonhoso” que todo escritor finge não ter
O segredo vergonhoso que todo escritor supostamente guarda a sete chaves, como se fosse algum tipo de adultério criativo.
ESCRITA CRIATIVA COM IA
Raniere Menezes
2/18/20264 min read


Estou escrevendo isso com uma IA aberta. E está tudo bem.
Lendo um artigo gringo vi algo que vale a pena falar. E poucos estão falando.
O segredo vergonhoso que todo escritor supostamente guarda a sete chaves, como se fosse algum tipo de adultério criativo.
Estamos há 3 anos usando IA no dia-a-dia e muita gente ainda... ainda... não descobriu seu potencial ou menospreza seu uso como algo criminoso.
Semelhante a guerra inútil dos taxis versus Uber, Fax versus E-mail. A IA não é onda passageira, é uma ferramenta para muitas áreas.
Só que a verdade é mais simples e mais desconfortável: não é vergonha. É medo.
Medo de parecer menos talentoso.
Medo de ser substituído.
Medo de descobrir que aquilo que levava quatro horas pode ser feito em doze segundos.
Escrevo desde os anos 1990. Ufa! Antes da IA. Ainda bem (ironia).
Às vezes passava um dia ou dois para escrever um artigo e pedir para algum amigo revisar. Hoje esse processo pode levar uma hora com o mesmo resultado, ou melhor.
Um livro poderia passar 15 dias ou 30. Hoje em dois, três dias, é possível escrever um livro. O que mais demora hoje é revisar.
Sem pressa e sem stress, pode-se gastar metade de um dia ou um dia pesquisando (as pesquisas avançaram bastante, além dos buscadores) e estruturando, organizando, orquestrando.
A execução é rápida, poucas horas. E a revisão é lenta, mais humana do que máquina. Resumo: Seja “Lento-Rápido-Lento”.
A curadoria humana é sempre lenta. E essencial. O senso crítico humano deve participar de todo processo.
Mas vamos falar do que realmente importa.
A mentira confortável sobre “escrever como humano”
Durante meses, o debate foi barulhento.
“A IA está matando a criatividade.”
“A escrita nunca mais será a mesma.”
“Quem usa está trapaceando.”
Enquanto isso, uma pergunta mais honesta ficou esquecida:
O que, afinal, significa escrever como humano?
Porque aqui vai outra verdade que ninguém gosta de admitir: a IA não inventou a escrita genérica. Nós inventamos.
Muito antes de qualquer algoritmo gerar textos em segundos, já escrevíamos assim:
Introduções previsíveis
Frases corporativas recicladas
Parágrafos polidos e vazios
Conteúdo otimizado e esquecível
A IA apenas aprendeu conosco. Ela leu milhões de textos medianos e concluiu: “Ah, então é isso que eles querem.”
Treinamos nosso próprio substituto. E se o treinamento do universo dos textos continua retroalimentando as IAs e as IAs conhecem mais sua vida que sua mãe, então existe uma tendência dela escrever (executar) cada vez melhor, desde que ajustada, personalizada para o usuário.
Os níveis de execução (a mecânica da escrita) ficarão cada vez mais acessíveis para mais gente, o diferencial não será mais na execução, mas na gestão humana, na orquestração, no domínio humano, no repertório, experiência e senso crítico humano. Saber usar melhor as ferramentas.
O dia em que meu texto virou IA
Os testes de detecção de IA estão obsoletos.
Já joguei um texto meu em um detector de IA e ele dá sempre uma porcentagem maior ou menor que “usou” IA. Posso jogar um texto de IA e o detector avaliar que não usou IA ou o mínimo. Isso é inútil.
O mau uso da melhor IA gera texto ruim com “IAísmo” (com cara de IA), mas um uso ajustado, bem orientado, bem trabalhado, com diretrizes claras, bem elaboradas, com restrições claras, oferecem bons resultados.
Uma IA mal orientada dará um texto sem sal, sem alma, com clichês de IA. Mas um texto bem orientado e com revisão humana “lenta”.
As máquinas estão cada vez melhores em trabalhos intelectuais, principalmente estão aumentando seu poder de raciocino de contexto extenso (milhões de Tokens).
O que a IA ainda não consegue roubar
A IA é ótima em generalidades.
“Muitas pessoas sofrem de ansiedade.”
Correto. Técnico. Seguro. Sem risco.
Mas a escrita humana não é segura.
Ela é específica.
“Passei três horas olhando para as placas do teto no consultório da terapeuta, fingindo que estava pensando, quando na verdade eu não sabia responder.”
Isso não é otimizado.
Não é perfeito.
Mas é real.
A IA não tem fantasmas. Nós temos.
Ela tem dados de treinamento.
Nós temos fracassos, decepções, pais desapontados, negócios que faliram, relacionamentos que doeram, café frio, ansiedade.
E muitas vezes, o trauma escreve melhor que qualquer algoritmo. A IA não tem a sua bagagem humana.
A estratégia que quase ninguém admite
Eu uso IA. Deixo isso bem claro. E chegará um tempo que será estranho quem não usar.
Mas não uso como substituto. Uso como ponto de partida.
Peço uma estrutura. Um esqueleto. Um rascunho inicial.
Depois eu destruo tudo. Reconstruo, bagunço. Ela organiza.
Reescrevo com minhas memórias, meus erros, minhas contradições. Coloco exemplos específicos que só eu poderia contar.
A IA organiza.
Eu bagunço de volta.
Porque a bagunça é humana.
O verdadeiro segredo (que ninguém quer ouvir)
Se existe um segredo vergonhoso que todo escritor guarda, não é usar IA.
É este:
Escrever bem não é o mesmo que escrever humano.
Escrever humano dói.
É desconfortável.
É específico demais.
Não é “um momento difícil”.
É “março de 2023, chorando num estacionamento depois de perceber que eu estava errado com o que estava construindo”.
Alguém específico, em um dia específico, precisando ouvir algo específico.
Então o que fazer?
Esqueça, por um momento, as regras perfeitas.
Escreva o que você quase apaga.
Escreva o que te constrange.
Escreva o que você acha que talvez seja “demais”.
Comece frases com “e”.
Deixe parágrafos irregulares.
Contradiga-se se for necessário.
Porque a IA pode aprender estrutura.
Pode aprender tom.
Pode até aprender a simular vulnerabilidade.
Mas ela não pode ser você naquela terça-feira específica.
E talvez esse seja o único território que ainda é totalmente nosso.
Uma das coisas que aprendi cedo no uso da IA, não a trate como uma pessoa, trate-a como um sistema impessoal, uma coisa, uma ferramenta.
Você pode usar uma furadeira para furar uma parede ou pode usá-la como um martelo para bater num prego.
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