Escrever é sempre um pequeno milagre

Parece um pequeno milagre escrever um manuscrito de 80 mil palavras. Tenho uma dúzia de manuscritos em revisão — outro pequeno milagre. Às vezes começo um rascunho novo já com 25 mil palavras, então já não me considero iniciante. Tem manuscrito que dá vontade de desistir — e a maioria de quem escreve, desiste mesmo.

ESCRITA CRIATIVAESCRITA CRIATIVA COM IAAPENAS UM ENSAIO

Raniere Menezes

9/1/20266 min read

Escrever é sempre um pequeno milagre

Parece um pequeno milagre escrever um manuscrito de 80 mil palavras. Tenho uma dúzia de manuscritos em revisão — outro pequeno milagre. Às vezes começo um rascunho novo já com 25 mil palavras, então já não me considero iniciante. Tem manuscrito que dá vontade de desistir — e a maioria de quem escreve, desiste mesmo.

Antigamente, escrever 50 livros levaria uns 25 anos. Hoje, com o auxílio da IA, isso cabe em um ano — um auxílio inevitável, e quem disser que não usa, mente. Antes da IA, eu já tinha escrito centenas de artigos ao longo de mais de dez anos, mas os livros tinham outro ritmo, mais lento. A tendência, antes da IA, era começar vários livros, ter várias ideias e não concluir nenhuma — tudo ia para a gaveta, zero publicação. Pensar em 50 livros era subir uma montanha reservada a poucos.

O tamanho da fera

Em 2023, no pós-pandemia, a IA virou uma ferramenta de auxílio poderosa. No primeiro ano, a adesão era de 4%; hoje, em 2026, já passa de 40%. E a boa notícia é que a IA, como auxílio de escrita, não precisa de um data center do tamanho de uma cidade em Marte para escrever razoavelmente bem — o que temos hoje já é suficiente para escrever por mil anos, e ainda vai evoluir mais.

As IAs evoluem rápido. Primeiro os saltos eram mensais, depois semanais, às vezes diários — sempre aperfeiçoando, sempre com mais gente aderindo, do jornalismo ao mundo jurídico. Onde houver texto, a IA está lá. Ela já varreu a internet inteira faz tempo; não sobrou corpo textual que a língua de fogo dela não tenha lambido.

Por isso, o jogo das big techs de IA hoje é outro: caçar ouro nos sistemas fechados das empresas, ou nos bancos de dados de código aberto que ainda restam. A Nvidia comprou a Hugging Face por 12 bilhões de dólares. A Amazon comprou a DuckLabs, banco de dados de código aberto. Outra empresa de IA comprou uma gigante de planilhas em nuvem por mais de um bilhão. A IBM comprou a Confluent por 11 bilhões. A Cloudflare comprou a Human Native, outro banco de dados. A SpaceX de Elon Musk comprou o Cursor por 60 bilhões, para alimentar a inteligência do Grok. O Google pagou 10 bilhões pelo banco de dados de uma companhia aérea falida, a Spirit Airlines.

O que isso sinaliza? Que a IA já varreu tudo o que existia em aberto e agora caça ouro em ambientes fechados — o novo petróleo. Startups que fecham as portas vendem seus bancos de dados, suas pegadas digitais. E o que isso tem a ver com "escrever com IA"? Significa que ela domina a mecânica da escrita, e bem orientada, torna esse processo mecânico acessível a qualquer um.

Um exemplo prático, que dá para fazer em casa: suponha que existam 50 canais no YouTube dedicados a especialistas em escrita criativa, cada um com 100 vídeos. Com IA é possível puxar todo esse conteúdo para uma plataforma e extrair os dados dos canais — e usar isso para melhorar a própria técnica de escrita. O mesmo princípio serve para pesquisar qualquer assunto. É só um exemplo, num universo de possibilidades.

O botão que não existe

Ninguém deve pensar que escrever um livro é apertar um botão, como numa máquina de refrigerante. O livro não simplesmente acontece. Escrever exige trabalho duro, dedicação: estudar, ler, cortar, trabalhar horas e dias, fins de semana, madrugadas — mesmo com o auxílio da IA. Revisão por horas e dias — mesmo com o feedback da IA e todos os recursos técnicos — até chegar a um rascunho refinado de 100 mil palavras.

Ainda não me considero escritor, apesar de ter escrito centenas de textos ao longo de mais de 20 anos. Mas depois das editoras independentes de autopublicação e das ferramentas de IA, finalmente estou caminhando para ser um. E estou descobrindo algo além de ser escritor: a experiência de ser autor, editor — é enriquecedora.

Ideia é mato

Uma coisa que aprendi: ter ideias para livros não faz nenhum livro, por melhores que sejam as ideias. Produzir três, cinco livros ao mesmo tempo faz com que a finalização de qualquer um deles vire um trabalho que "pode esperar" — e daí nascem projetos novos, sempre mais interessantes que o anterior. Devo ter mais de 20 outras ideias para livros variados, algumas já com esboço ou enredo. E parece que quanto mais se escreve, mais ideias aparecem para outros projetos.

Descobri que isso é ilusão de produtividade. Ideia todo mundo tem, o tempo todo — ideia é mato. A ideia não é o mais importante; o trabalho é o que importa depois da ideia. Um livro, às vezes, termina com quase 200 mil palavras e, depois da edição, cai para 100 mil, ou menos — e é essa quantidade em excesso que contribui para a versão final. Alguém já disse que o melhor amigo de quem escreve é a lata de lixo — e a falta de fome, por causa da edição e da aceleração do tempo: não se para pra nada, nem pra comer.

Gostar do que se faz

Outra coisa necessária é gostar do que se faz. Trabalhar 12 horas num texto sem gostar dele é tortura. O trabalho de edição é técnico: é lapidar estrutura, recursos, personagens, mundo — é preciso entender o mínimo de construção de enredo e estrutura. A edição parece não ter fim. No ano passado e neste, acelerei todo o processo — devo ter feito, na prática, um mestrado, senão dois, em escrita. Se as publicações um dia chegarão a editoras profissionais, só o tempo vai dizer. Mas, se não chegarem, publico por conta própria mesmo.

Toda semana tenho a revisão de um ou dois livros, entre ficção e não ficção. Espero que, até dezembro, tenha publicado mais de 20, com fôlego cada vez maior.

Duas flechas, dois alvos

Sempre que publico um livro impresso por editora, coloco uma margem mínima — em média 5 reais por livro — e, ao mesmo tempo, publico a versão digital gratuita. No gratuito, tenho boas surpresas de leitores; no impresso, bem menos. Mas são duas flechas com alvos diferentes.

Pelo menos três diretores de cinema já reconheceram o potencial de ao menos um dos meus livros. O audiovisual no Brasil é uma mega-sena, uma loteria. Um dos diretores gostou de um livro, mas o processo para tirar algo do papel por aqui é bem complicado. Ainda assim, isso despertou em mim um interesse maior pelo livro elogiado: divulguei mais, fiz chegar a uma editora profissional, que colocou em análise, e dois diretores elogiaram — mas a fila de projetos que já estão tocando não permitiu assumir mais um. De todo modo, isso me deu clareza sobre a realidade autoral: uma validação externa de que devo continuar publicando e espalhando. O livro que ganhou destaque foi o “Lutero Negro do Recife Imperial”, publicado pela Uiclap. - Versão Digital Gratuita AQUI.

O que eu diria a quem está começando

Tem muita gente oferecendo cursos, livros e outros recursos — mas aprender não basta, é preciso de fato escrever o livro. A única maneira de escrever é escrevendo e publicando. Seria impossível publicar sem a autopublicação impressa e digital; dez anos atrás, isso era impensável. Com o auxílio da IA para estruturar, revisar e mil outros recursos, hoje é possível não só publicar, mas publicar em quantidade e qualidade publicável.

Muita gente ainda resiste ao auxílio da IA, como se fosse algo horrível, desprezível, e diz que a IA escreve porcaria sem alma. Os comandos devem ter sido uma porcaria com alma — humana — para gerar porcaria sem alma.

Cada um com o seu método, mas não recomendo clube de escritores. Acredito que escrever, ao menos em grande parte, é um trabalho árduo e solitário. Pare de estudar mil cursos e escreva — coloque palavras nas páginas. A primeira versão sempre é ruim; saiba disso e continue. Sempre tem como melhorar. Aprendi muito mais escrevendo do que estudando.

Se você não tem tempo para escrever, não escreva. Mas se você tem tempo para gastar horas por dia numa tela, então tem tempo para escrever. Não precisa de um mês inteiro livre, ou de uma semana numa cabana de hotel — embora isso seja ótimo. Livros inteiros são escritos por autores que digitam no celular dentro do trem, no intervalo do almoço, numa hora livre, num fim de semana, de noite, de manhã — enfim. Com barulho de obra no ouvido, com vizinho barulhento: isso é escrever sem glamour. Quem escreve não desliga a mente — seja na insônia, seja na fila do supermercado, ela está sempre trabalhando.

Publicar mesmo assim

O frio na barriga de publicar sempre vai existir. Se vai ser sucesso ou fracasso está fora do controle de quem escreve. Se tiver um leitor, ou nenhum, importa publicar — talvez alguém descubra o texto daqui a anos. E se hoje já há dezenas ou centenas de leitores, isso já é uma conquista e merece ser comemorada.

Finalizar um livro não é o fim desse livro: ele ainda precisa encontrar seus leitores. O trabalho é cansativo, às vezes sem retorno nenhum, e não dá para parar — a fila anda. Escrever é uma atividade solitária, mas feita na companhia de todos os que escreveram antes de nós. Não tenha medo de não parecer profissional: publicar é sempre melhor do que não publicar nada. Se você tem uma história que está no coração, que já subiu para a mente e não te deixa em paz — então você tem que escrever.

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