HOMERO, CALVINO E LUTERO: COMO OS REFORMADORES PROTESTANTES CONVERTERAM AS EPOPEIAS PAGÃS EM LIÇÃO CRISTÃ

O lema Ad Fontes incentivava os estudiosos a ignorar as traduções e resumos medievais latinos para ler os clássicos em sua língua original.

Raniere Menezes

6/14/20265 min read

O movimento gospel do século XX e XXI demoniza até a Disney, enquanto os Reformadores do século XVI, que viviam realmente sob uma severidade religiosa debaixo de ameaças da Inquisição, encontravam nas obras clássicas pagãs gregas materiais culturais para a construção da educação europeia.

Longe de banir os clássicos da antiguidade, os arquitetos da teologia europeia abriram as portas das academias para os poetas da Grécia Antiga. Em uma reviravolta cultural, os cantos épicos de Homero — povoados por divindades, heróis coléricos e batalhas sangrentas no solo de Troia — deixaram de ser vistos como ameaças pagãs para se tornarem ferramentas fundamentais na formação da cristandade moderna.

Os líderes da Reforma não operavam no vácuo, mas estavam profundamente imersos no fervilhar do Renascimento europeu. A adoção dos poemas homéricos pelos reformadores protestantes fundamentou-se no movimento humanista conhecido como Ad Fontes, ou "Volta as Fontes", uma corrente filosófica e pedagógica que pregava o retorno urgente e rigoroso aos textos originais da antiguidade clássica.

Embora o foco principal da Reforma fosse a teologia bíblica expressa no principio da Sola Scriptura, os homens que lideravam essa transformação eclesiástica eram humanistas altamente eruditos.

Para eles, o resgate das línguas antigas não era um mero exercício de vaidade acadêmica, mas sim uma necessidade filológica. Eles viam no estudo aprofundado do grego clássico uma ferramenta absolutamente indispensável para a compreensão precisa do grego bíblico no qual o Novo Testamento foi originalmente redigido, estabelecendo uma ponte direta entre a literatura pagã e a verdade revelada.

Filipe Melanchthon, figura apelidada de "O Professor da Alemanha". Dotado de uma sensibilidade cultural ampla, Melanchthon tornou-se o principal reformador do sistema educacional protestante e um apaixonado pela obra de Homero. Em sua atuação nas universidades e escolas latinas, ele introduziu a Ilíada como leitura obrigatória no currículo escolar.

Melanchthon não via ali apenas fábulas distantes, mas defendia com veemência que o domínio soberano da linguagem e da rica retórica homérica era um requisito essencial para que os futuros pastores e acadêmicos pudessem pregar o Evangelho com clareza, elegância e eloquência persuasiva. Para o educador alemão, a beleza da forma literária grega servia de pedagogo para a transmissão das verdades mais profundas da fé, refinando a mente dos jovens estudantes e preparando-os para os complexos debates teológicos de seu tempo. — Essa abertura na Alemanha pavimentou o futuro da literatura e filosofia, e nomes como Goethe, Kafka, Kant, Schopenhauer e outros surgiram.

Essa visão encontrou eco nas convicções do próprio Martinho Lutero. O Reformador não apenas apoiava a ampla reforma educacional proposta por seu maior colaborador Melanchthon, mas também enxergava utilidade teológica profunda na leitura das epopeias antigas.

Segundo Lutero, o estudo atento de poetas pagãos da estatura de Homero permitia aos jovens compreender com extrema lucidez as engrenagens da natureza humana decaída, os limites e as glórias da virtude civil e a atuação da Providencia divina que governa o mundo físico. — O mesmo ponto (a Providência) que serviu de defesa a Camões ao escrever Os Lusíadas sob ameaça da Inquisição. A obra que fundou a língua portuguesa.

Ao observar os dilemas de Aquiles ou os sofrimentos de Ulisses, o estudante cristão podia contemplar um espelho da condição humana desprovida de redenção, mas ainda assim capaz de atos de bravura e de organização social. Como observa Lutero em suas reflexões sobre a ordem do mundo, as histórias dos povos antigos serviam para ilustrar como a mão invisível do Criador guia as nações e sustenta a civilização por meio de leis e virtudes temporais, mesmo entre aqueles que não conheciam o Deus de Israel.

Na Genebra reformada, Joao Calvino elaborou uma justificativa teológica ainda mais aprofundada para a preservação dessa herança literária. Educado no humanismo francês, Calvino demonstrava um apreço pela estrutura estilística e pela profundidade da literatura greco-latina, elementos que incorporava de maneira natural e magistral em seus próprios comentários teológicos e tratados.

Conforme argumenta Calvino, a beleza artística e os insights morais presentes na obra de Homero não deveriam ser rejeitados, pois eram frutos legítimos daquilo que a teologia reformada conceitua como a Graça Comum ou Providência.

Na visão calvinista, essa graça é uma manifestação generosa do Espírito Santo, que concede talentos artísticos, sabedoria científica e discernimento intelectual até mesmo a indivíduos não cristãos, operando no mundo para o benefício, a preservação e o enriquecimento cultural de toda a sociedade humana. Desprezar Homero, portanto, seria o equivalente a desprezar a graça comum.

Dessa forma articulada e surpreendente, a Reforma Protestante operou uma verdadeira mudança cultural nas epopeias homéricas, transformando-as em ferramentas educacionais vivas e dinâmicas dentro do ecossistema protestante.

Longe de ser um desvio de suas metas religiosas, a assimilação desses textos antigos provou-se perfeitamente alinhada com o ideal de uma igreja reformada e letrada.

Homero passou a ser utilizado nas salas de aula tanto para lapidar a estética literária e o estilo dos estudantes quanto para treinar a mente da cristandade na interpretação de textos altamente complexos e estruturados.

Ao cruzar o mar cor de vinho dos poemas gregos, a juventude protestante exercitava os músculos intelectuais necessários para manejar, com ainda maior zelo e precisão, as próprias Escrituras Sagradas.

O foco da Reforma Protestante no princípio Ad Fontes (Volta às Fontes) também representou um rompimento com a hegemonia do latim, pois exigia retornar aos textos originais em grego e hebraico, línguas não priorizadas pelo Ocidente medieval. O que também permitiu gerar o movimento de traduções dos originais às línguas populares e nacionais.

Durante os séculos XII a XIV, o texto original grego de Homero desapareceu na Europa Ocidental. O conhecimento da obra era indireto, baseado apenas em citações de autores latinos como Cícero ou em resumos latinos de baixa qualidade, como a Ilias Latina. Até mesmo Dante Alighieri, ao homenagear Homero na Divina Comédia, o fez sem citar o texto grego real.

O Renascimento iniciou a quebra desse monopólio latino ao buscar manuscritos gregos autênticos, especialmente após a queda de Constantinopla em 1453.

Ao focar no Ad Fontes, a Reforma não apenas mudou o conteúdo do estudo religioso, mas também derrubou a exclusividade do latim como a única ponte para o conhecimento clássico e divino, elevando o grego a um patamar de importância técnica.

Os reformadores demonstraram que a busca pela pureza doutrinária não precisava caminhar de mãos dadas com o isolamento cultural ou com o anti-intelectualismo. Pelo contrario, eles nos ensinaram que a verdadeira robustez intelectual reside na capacidade de dialogar com as grandes obras da humanidade, extraindo delas o rigor estético, a compreensão humana e o exercício da prudência.

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