Mais que um Porto Seguro: Quando o Amor se Torna um Lar, uma Cidade Fortificada

Não existe contrato capaz de eliminar completamente o risco da decepção. Não existe garantia absoluta contra mudanças, conflitos, distâncias ou frustrações.

APENAS UM ENSAIO

Raniere Menezes

6/23/20264 min read

Mais que um Porto Seguro: Quando o Amor se Torna um Lar, uma Cidade Fortificada

"Amar é dar ao outro o poder de nos ferir e confiar que ele não o fará."

Esta frase não pertence a nenhum autor clássico ou filósofo. É um pensamento de autoria anônima popularizado na internet. A ideia central da citação é frequentemente associada à escritora norte-americana E. Lockhart e lembra as reflexões de C.S. Lewis sobre vulnerabilidade no livro Os Quatro Amores. Independentemente da autoria, ela diz mais que uma primeira leitura rápida.

Começo com uma breve história:

Conheci uma pessoa que dizia que não queria jamais ter filhos, pois seria uma irresponsabilidade colocar mais gente num mundo mau. Será uma justificativa razoável ou medo de amar? Esta mesma pessoa sofreu muito numa infância doente, viveu em hospital, e talvez absorveu o medo dos seus pais e que o mundo é injusto, e a vida é cruel. Esta mesma pessoa ama animais abandonados e ama seu pet.

Não amar por medo de perder se aplica somente aos relacionamentos humanos? Definitivamente, não.

Sim, é verdade que:

Quanto mais amamos alguém, mais vulneráveis nos tornamos.

Amar não é apenas sentir carinho, admiração ou atração. Amar é abrir portas. É permitir que alguém caminhe pelos corredores da nossa alma. É entregar acesso aos nossos sonhos, às nossas inseguranças, às nossas cicatrizes e às nossas esperanças.

Quem não tem importância para nós pode nos ofender e causar apenas um incômodo passageiro. Mas uma palavra dura dita por alguém que amamos pode durar dentro do coração.

Isso acontece porque o amor cria poder.

Não o poder da força ou da autoridade, mas o poder da intimidade.

Quanto mais alguém nos conhece, mais sabe onde somos fortes e onde somos frágeis. Conhece nossos medos. Conhece nossas derrotas. Conhece as batalhas que travamos em silêncio.

Um estranho pode nos atingir por fora.

Mas quem amamos pode nos atingir por dentro.

É por isso que as maiores alegrias e as maiores dores da vida raramente vêm de desconhecidos. Elas costumam vir de pais, filhos, irmãos, amigos e cônjuges.

Diante dessa realidade, algumas pessoas escolhem vestir armaduras.

Decidem não confiar demais. Não se envolver demais. Não depender demais.

A lógica parece simples: se eu não me entregar, não sofrerei.

Mas existe um preço escondido nessa escolha.

A armadura que impede a ferida também impede o abraço, impede a conexão humana.

Quem constrói muros altos demais pode até se proteger da dor, mas também se afasta da amizade, da intimidade genuína e do sentimento de pertencimento que todo ser humano procura.

Nenhum coração foi criado para viver trancado.

Por isso todo amor exige um salto.

Não existe contrato capaz de eliminar completamente o risco da decepção. Não existe garantia absoluta contra mudanças, conflitos, distâncias ou frustrações.

Amar é dizer:

"Eu sei que você tem o poder de me machucar. Mas escolho confiar em você."

Essa é uma das formas mais profundas de coragem.

Só existe amor verdadeiro quando existe liberdade.

O outro pode ficar.

Mas também pode partir.

Se não pudesse partir, não seria amor. Seria posse.

O amor só existe porque duas pessoas livres escolhem permanecer.

E é justamente essa liberdade que torna a confiança tão necessária.

Talvez por isso os relacionamentos mais saudáveis não sejam aqueles em que ninguém nunca se machuca. Eles são aqueles em que ambos aprendem a cuidar com responsabilidade do poder que receberam.

Porque todo relacionamento profundo envolve um acordo silencioso:

"Eu conheço suas vulnerabilidades. Você conhece as minhas. Vamos tratar esse conhecimento com cuidado."

Quando isso acontece, algo surge.

O relacionamento deixa de ser apenas uma âncora em meio às tempestades.

Ele deixa de ser apenas um porto seguro para momentos difíceis.

Ele se transforma em algo maior.

Torna-se um lar.

E existe uma diferença enorme entre um abrigo temporário e um verdadeiro lar.

O lar é o lugar onde podemos tirar as armaduras.

Onde não precisamos medir cada palavra.

Onde somos conhecidos e ainda assim aceitos.

Onde encontramos descanso para a alma depois das batalhas do mundo.

Todo ser humano carrega dentro de si o desejo de voltar para um "lar doce lar". Esta é a fórmula das grandes histórias desde a Odisseia.

Não apenas uma casa feita de paredes e telhado, mas um ambiente construído com confiança, lealdade, acolhimento e amor.

Um lugar onde podemos ser imperfeitos sem sermos descartados.

Mas talvez ainda exista uma outra imagem.

Os antigos sonhavam com cidades muradas, cidades protegidas por grandes fortificações. Não eram apenas lugares de descanso. Eram lugares de segurança, pertencimento e identidade. A essência de Ilíada.

Uma cidade fortificada protegia seus habitantes contra ataques externos. Dentro de seus muros havia vida, comércio, família, cultura e esperança.

Os melhores relacionamentos funcionam assim.

Eles não apenas oferecem abrigo.

Eles constroem muralhas contra o cinismo, contra a solidão, contra o desespero e contra as pressões que tentam destruir a alma.

Quando marido e esposa cuidam um do outro.

Quando amigos permanecem leais.

Quando pais e filhos aprendem a confiar.

Quando irmãos escolhem perdoar.

Uma pequena cidade fortificada começa a surgir.

Ali dentro existe espaço para crescer. Existe espaço para falhar. Existe espaço para recomeçar.

O mundo lá fora pode ser hostil, mas dentro daqueles muros existe proteção. Essa talvez seja uma das maiores belezas do amor maduro.

Ele não promete ausência de conflitos. Não promete ausência de feridas.

Mas cria um ambiente onde as feridas podem cicatrizar.

A única forma de evitar completamente a dor do amor é evitar completamente o amor.

Mas quem escolhe esse caminho acaba perdendo algo ainda mais valioso.

Perde a possibilidade de construir um lar.

Perde a possibilidade de encontrar sua cidade fortificada.

Perde a oportunidade de experimentar a alegria de ser conhecido e amado. Por isso o amor não é apenas um sentimento. Não é um roteiro perfeito de Dorama. Não é palestra de coaching.

Não é apenas prazer. Não é apenas compatibilidade.

O amor é um ato de coragem.

É a decisão diária de abrir o coração, confiar, permanecer e construir junto. É dar poder ao outro de nos ferir e não ser ferido.

Porque aqueles que possuem o poder de nos ferir são exatamente aqueles que também possuem o poder de nos curar, fortalecer e transformar nossa vida em um lugar com mais significado.

E quando essa confiança floresce, o relacionamento deixa de ser apenas uma companhia para uma jornada. Ele se torna um lar doce lar.

Uma cidade fortificada.

Um lugar para voltar quando o mundo se torna pesado demais.

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