O Amor se Constrói: O Fim da Passividade nos Relacionamentos de Longo Prazo
Guia de Aconselhamento Conjugal Baseado nas Lições de Esther Perel
ACONSELHAMENTO
Raniere Menezes
6/15/20264 min read


Na clínica contemporânea de casal, há frequentemente com uma ferida silenciosa que drena a vitalidade das parcerias mais estáveis: a passividade.
Fomos culturalmente condicionados a idealizar o amor como um sentimento avassalador que nos consome de forma inteiramente passiva, e o casamento como um porto seguro que deveria funcionar por força da gravidade.
Esta ilusão romântica dita que, uma vez encontrada a pessoa certa, o enredo estabiliza-se e o bem-estar mantém-se sem esforço.
A célebre terapeuta belga Esther Perel inverte radicalmente esta premissa. Manter a vitalidade relacional e o desejo erótico a longo prazo exige uma transição urgente da passividade romântica para a intencionalidade ativa.
Mudar a Dinâmica sem Esperar pelo Outro
A maioria dos casais em crise vive no que a psicologia designa por "contingência mútua negativa". Trata-se de um impasse crónico e paralisante: "Eu só serei carinhoso quando ela parar de me criticar", enquanto o outro pensa: "Eu só pararei de o criticar quando ele for minimamente carinhoso". Este cenário transforma a vida a dois numa guerra fria silenciosa, onde ambos os lados se recusam a dar o primeiro passo, esperando que o outro deponha as armas primeiro. O resultado inevitável é a estagnação e o ressentimento.
O Princípio da Interconectividade Humana
Para quebrar este ciclo, importa compreender que não somos ilhas isoladas. Tornamo-nos quem somos em resposta direta ao estímulo do outro. Ninguém performa a frieza, a indiferença ou a grosseria do nada; estes comportamentos são quase sempre reações de defesa a um estímulo prévio.
Do ponto de vista sistémico, se alterar o estímulo que emite, o seu parceiro será obrigado a recalibrar a resposta dele.
Se deixar de desempenhar o seu papel habitual nessa dança destrutiva — se, em vez de se defender e isolar, decidir aproximar-se e acolher —, o outro perderá o chão firme onde apoiava a sua reação automática.
A mudança de um elemento altera necessariamente o equilíbrio de todo o sistema conjugal.
O Poder dos "Micro-Rituais" de 30 Segundos
Como aplicar isto na rotina? Perel sugere a introdução de micro-rituais intencionais. Parar apenas 30 segundos ao chegar a casa, olhar verdadeiramente nos olhos do parceiro e dizer "Estou feliz por te ver" tem um impacto emocional mensurável. Quando o parceiro passa o dia sob stress, o seu cérebro encontra-se em modo de sobrevivência. Se ao entrar em casa é recebido com indiferença ou com o foco no celular, o sistema nervoso lê a situação como rejeição, ativando mecanismos de defesa — que se manifestam em ironia ou cara feia.
Ao interromper a rotina com um olhar e um abraço, desarma-se a previsão de ameaça no cérebro do outro. Oferece-se segurança psicológica instantânea.
E uma pessoa que se sente genuinamente segura não precisa de atacar. Mudar a dinâmica de forma unilateral faz bem ao outro porque sinaliza que quer viver num ambiente significativamente melhor.
A Sexualidade Revisitada: Trilhos Paralelos e Intencionalidade
Um dos maiores equívocos da terapia de casal tradicional é a visão linear de que "se resolverem as brigas na cozinha, o sexo na cama melhora automaticamente".
Esther Perel explica que a intimidade emocional e a intimidade erótica correm em trilhos estritamente paralelos.
É perfeitamente possível encontrar casais que cooperam de forma exemplar, que são excelentes sócios no lar, pais dedicados e melhores amigos, mas que partilham uma vida sexual completamente letárgica ou inexistente.
Isto acontece porque os pilares que sustentam uma grande amizade — proximidade, reciprocidade, igualdade e previsibilidade — são, por natureza, os opostos psicodinâmicos dos ingredientes necessários para o combustível do desejo: o mistério, a distância, a novidade e a transcendência.
O Sexo como Espaço de Autodescoberta
O erotismo a longo prazo vai muito além do desempenho físico ou da frequência mecânica de orgasmos.
Ele funciona como um portal de expressão psíquica. É o único reduto na vida adulta onde nos é permitido abdicar temporariamente do papel de cidadãos responsáveis, profissionais exemplares ou pais dedicados.
No encontro erótico, procuramos vivenciar facetas da nossa identidade que a rotina sufoca: o desejo de libertar o controle, o direito a um egoísmo focado no prazer ou a exploração da nossa vertente mais lúdica.
O Mito da Espontaneidade Erótica
Esperar que o desejo surja "do nada" após uma década de convivência, enquanto se divide a atenção com telas no sofá, é uma ingenuidade fatal. Casais eróticos de longo prazo compreendem que o desejo maduro é essencialmente responsivo e intencional. Isto implica aceitar:
Ação antes da emoção: Não se deve esperar estar "no clima" ideal para iniciar o contato. Muitas vezes, a abertura mental e física ao toque precede a excitação biológica.
Planeamento e proteção do espaço: É vital criar espaços de privacidade sexual, estabelecendo fronteiras onde as obrigações da parentalidade e da gestão doméstica não possam entrar.
Valorizar o "Sexo de Manutenção": Relações saudáveis não dependem exclusivamente de paixões. O toque afetuoso e a intimidade física regular mantêm os canais de conexão, preparando o terreno para que a faísca da novidade ressurja espontaneamente.
Em última análise, tanto na harmonia do quotidiano como na vivacidade da cama, o aconselhamento de casais moderno assenta num apelo à responsabilidade individual.
O relacionamento não é um troféu estático que se possui, mas sim uma criatura viva que necessita de ser alimentada de forma deliberada e quotidiana.
Se permitirmos que o canal de conexão seque por preguiça ou complacência, o sistema inevitavelmente morrerá. O amor não se mantém por gravidade; constrói-se com intenção.
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