O Arrependimento Inevitável: Kierkegaard, a Angústia da Escolha

"Case-se, e você se arrependerá. Não se case, e também se arrependerá." — Søren Kierkegaard

TEOLOGIA & CULTURA · REFLEXÃOPSICOLOGIA & ACONSELHAMENTOACONSELHAMENTO

Raniere menezes

8/24/20266 min read

O Arrependimento Inevitável: Kierkegaard, a Angústia da Escolha

"Case-se, e você se arrependerá. Não se case, e também se arrependerá." — Søren Kierkegaard

Essa frase costuma ser lida como uma uma piada amarga de solteirão filósofo. Não é. Por trás dela está uma das intuições que a filosofia já produziu sobre a condição humana. E ela nunca esteve tão atual quanto agora, na era em que um algoritmo nos mostra, diariamente, todas as vidas que não escolhemos viver.

Escolher é sempre perder

O ponto de partida é simples de enunciar: toda escolha abre uma possibilidade e fecha todas as outras.

Casar não é escolher uma pessoa. É escolher uma forma inteira de existência — e renunciar, ao mesmo tempo, a um número indefinido de vidas possíveis que essa escolha torna definitivamente inacessíveis. Não casar produz o efeito inverso: preservam-se certas possibilidades, mas outras — igualmente reais — se perdem para sempre.

Kierkegaard identificou, um século e meio antes do termo existir, algo que hoje chamaríamos de custo de oportunidade existencial. Você pode ser o homem que constrói uma família, o que permanece livre, o empreendedor, o escritor, o missionário, o aventureiro, o homem que fica, o homem que parte. Mas não pode ser todos eles ao mesmo tempo. Escolher uma vida é, estruturalmente, dizer não a todas as outras.

Não existe a decisão perfeita escondida em algum lugar

O erro mais comum diante disso é imaginar que existe uma escolha certa, oculta, que a análise cuidadosa eventualmente revelaria: se eu pensar o suficiente, vou descobrir qual caminho vai me fazer feliz.

Kierkegaard desmonta essa fantasia. O futuro é opaco-cinza. Você pode escolher A e descobrir sofrimentos que não previu; pode escolher B e encontrar outros, diferentes, mas igualmente reais. E há um detalhe: você nunca terá acesso à experiência da vida que rejeitou. Ela permanece, para sempre, hipotética.

É por isso que a pergunta "e se eu tivesse escolhido diferente?" é uma pergunta viciada. Ela compara uma realidade — com suas contas, seu cansaço, seus conflitos— com uma fantasia. E a imaginação, generosamente, edita os problemas da vida que não foi vivida.

Regine Olsen

A ruptura do noivado de Kierkegaard com Regine Olsen costuma ser lida como ilustração perfeita desse dilema — e há verdade nisso, embora valha a ressalva de que a decisão de Kierkegaard também carregava elementos biográficos mais específicos (uma melancolia herdada, um senso de culpa próprio) que não se reduzem a um caso de manual filosófico. Ainda assim, o núcleo permanece válido: ele parece ter vivido a escolha como um conflito entre vocação e amor. Se eu casar, talvez destrua minha vocação. Se não casar, talvez destrua minha felicidade.

Essa é a armadilha kierkegaardiana: qualquer decisão envolve sacrifício. A existência não oferece escolhas limpas, do tipo "amor + vocação + segurança + ausência de sofrimento". Ela oferece apenas possibilidades que trazem, simultaneamente, ganhos e perdas.

Não decidir também é decidir

Não escolher também é uma forma de escolha.

Não decidir casar é escolher uma determinada forma de vida. Não decidir mudar de cidade é escolher permanecer. Não começar um projeto é escolher não começá-lo. Não existe posição neutra, porque a vida continua acontecendo enquanto você congela — e a hesitação prolongada é, ela mesma, um tipo de vida sendo vivida.

Isso não deveria virar um martelo retórico para pressionar decisões precipitadas ("você já está escolhendo mesmo, então decida logo"). Adiar, muitas vezes, é legítimo — é reunir informação, é discernimento em curso. O que Kierkegaard ataca não é a espera prudente, mas a fantasia de que existe uma posição de observador neutro, fora do tempo, de onde se poderia escolher sem nunca perder nada.

A diferença entre medo e angústia

Kierkegaard é, antes de tudo, o filósofo da angústia — e vale distinguir esse conceito de algo mais familiar, o medo.

O medo tem objeto: teme-se algo. A angústia não. Ela é o desconforto diante da própria possibilidade. Diante de uma porta com duas saídas, o medo pergunta o que existe do outro lado? A angústia pergunta: e se eu escolher a porta errada?

Um animal reage a circunstâncias; não se angustia com o que poderia ter sido. Só o ser humano consegue formular: eu poderia ter feito diferente. Essa capacidade é, ao mesmo tempo, o que nos torna humanos e o que nos condena a esse tipo específico de sofrimento.

A internet industrializou o "e se?"

É aqui que o diagnóstico kierkegaardiano encontra o presente. Sempre existiu a pergunta "e se eu tivesse me casado com aquela pessoa?" — mas ela surgia ocasionalmente, alimentada por uma memória, um reencontro, uma lembrança. Hoje ela tem uma fonte permanente e ativamente curada: e se eu tivesse escolhido aquela profissão, aquela cidade, aquele negócio, aquela audiência?

Vale marcar a diferença de grau: não é apenas que existam mais pessoas para comparar. É que o mecanismo de recomendação foi otimizado para exibir precisamente aquilo que gera engajamento — e o que gera engajamento é, com frequência, a vida que você não está vivendo. Antigamente você comparava sua existência com algumas dezenas de pessoas próximas. Hoje o feed lhe entrega, todos os dias, milhares de vidas cuidadosamente selecionadas para parecerem melhores que a sua.

Você não vê apenas pessoas. Vê possibilidades encarnadas. O empreendedor mostra quem você poderia ser. O viajante mostra onde você poderia estar. O casal mostra quem você poderia amar. O corpo mostra quem você poderia ser fisicamente. Cada rolagem de tela é uma pequena reencenação do dilema de Kierkegaard, multiplicada por um algoritmo que não tem nenhum interesse na sua paz.

A saída não é acertar.

Kierkegaard não resolve o problema encontrando a escolha perfeita — porque ela não existe. A saída que ele propõe é outra: assumir integralmente a escolha feita.

Há uma diferença decisiva entre dizer "escolhi corretamente" e dizer "agora vou viver integralmente aquilo que escolhi." A primeira frase exige uma certeza que a existência jamais concede. A segunda exige compromisso — algo inteiramente ao alcance da vontade.

É por isso que o conceito kierkegaardiano de repetição (Gjentagelsen) é central. A existência não é um ato único de escolha seguido de piloto automático. É reassumir continuamente aquilo que se escolheu. Casa-se uma vez — e depois é preciso escolher o casamento de novo, amanhã, e depois de amanhã. Escolhe-se uma vocação — e depois é preciso reafirmá-la. A mentalidade moderna busca a decisão perfeita que garanta o futuro de uma vez por todas; Kierkegaard propõe outra lógica: escolha, e depois torne-se responsável por aquilo que escolheu.

Isso não é fatalismo, e é importante marcar essa fronteira: fidelidade não é o mesmo que obstinação. O próprio Kierkegaard, diante da evidência de que aquele caminho específico o destruiria, rompeu o noivado. Reassumir uma escolha continuamente não significa nunca revisar um erro— significa não abandonar um compromisso legítimo só porque o feed mostrou, hoje, uma alternativa mais interessante.

Diante de Deus

Há uma dimensão do pensamento de Kierkegaard que muitas leituras contemporâneas, seduzidas apenas pelo existencialismo, deixam de lado: para ele, o problema da escolha não se resolve em termos puramente psicológicos. Existe uma dimensão que muda completamente os termos da pergunta.

A questão deixa de ser "qual escolha produzirá a melhor vida para mim?" — pergunta que, levada ao limite, é insaciável, porque sempre haverá uma vida hipotética melhor em algum lugar. A pergunta passa a ser: "como devo viver diante de Deus?"

Essa mudança desloca o critério. Você deixa de tentar maximizar todas as possibilidades — projeto estruturalmente impossível — e começa a perguntar sobre fidelidade. Não "qual vida me dará menos arrependimento?", mas "qual é a minha responsabilidade nesta vida que já me foi dada?". É uma pergunta que a estoicidade também tentaria responder, mas por outro caminho — eliminando a angústia como um erro de percepção sobre o que está ou não sob nosso controle. Kierkegaard não elimina a angústia; ele a atravessa. Para ele, a angústia é o preço da liberdade, não um defeito a corrigir — e é diante de Deus, não diante de uma fórmula estoica de autocontrole, que ela encontra seu lugar.

A maturidade não elimina o lamento — ela recusa que ele governe

A frase "você se arrependerá de qualquer maneira" pode soar niilista. Mas admite uma leitura completamente diferente: você nunca terá uma existência sem perdas — portanto, pare de esperar uma escolha que preserve todas as possibilidades.

Alguma coisa será perdida. Portas serão fechadas. Versões possíveis de si mesmo serão abandonadas. Mas é precisamente nesse ato de fechar portas que uma pessoa se torna alguém. Quem mantém todas as possibilidades abertas indefinidamente nunca se compromete com nenhuma.

A imaturidade pergunta: "qual escolha me permitirá não perder nada?" A maturidade pergunta: "o que estou disposto a perder para ser fiel àquilo que escolhi?"

As redes sociais nos vendem, hoje, a ilusão de infinitas possibilidades simultâneas. Kierkegaard, escrevendo quase dois séculos antes de qualquer feed existir, já sabia a resposta a isso: você não pode viver todas as vidas. Vai ter que escolher uma. E escolher uma vida significa, inevitavelmente, lamentar algumas das vidas que não viveu.

A sabedoria não está em eliminar esse lamento. Está em não deixar que ele o impeça de viver plenamente a vida que você escolheu.

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