O Direito de Não Se Reunir: Quando Fidelidade a Cristo Significa Sair de uma Igreja (Instituição)

Existe um versículo que muitos pastores repetem semana após semana para manter os bancos cheios: "não deixeis de congregar-vos" (Hebreus 10:25). Você já ouviu esse texto ser usado como argumento de autoridade, quase como uma ameaça velada de que quem falta ao culto está pecando contra Deus. E muitas vezes o culto é um show de horrores de invenções humanas e desprezo aos elementos de culto.

APOSTASIA

Raniere Menezes

2/23/20266 min read

O Direito de Não Se Reunir: Quando Fidelidade a Cristo Significa Sair de uma Igreja

Existe um versículo que muitos pastores repetem semana após semana para manter os bancos cheios: "não deixeis de congregar-vos" (Hebreus 10:25). Você já ouviu esse texto ser usado como argumento de autoridade, quase como uma ameaça velada de que quem falta ao culto está pecando contra Deus. E muitas vezes o culto é um show de horrores de invenções humanas e desprezo aos elementos de culto.

Mas e se essa interpretação de Hebreus 10 estiver completamente invertida?

A Premissa Incômoda

Antes de continuar, preciso ser direto: este artigo vai incomodar. Não é meu objetivo atacar pessoas. É meu objetivo colocar uma questão que muita gente sente, mas poucos têm coragem de verbalizar.

A questão é esta: se uma igreja abandonou os ensinos de Cristo, continuar se reunindo nela é devoção ou concessão ao erro?

Porque existe uma diferença enorme entre a Igreja — o Corpo de Cristo, composto por aqueles que realmente creem — e uma instituição religiosa com nome de igreja na fachada. Confundir as duas coisas tem custado caro a muitos cristãos.

O Que Hebreus 10:25 Realmente Diz

Quando o autor da carta aos Hebreus escreveu sobre não abandonar as reuniões, ele estava falando com cristãos que enfrentavam perseguição romana. Contexto de perseguição física, prisões, torturas, mortes, perdas de bens, enfim.

O risco era real: comparecer ao culto podia significar prisão ou morte. O versículo é um chamado à coragem diante da ameaça externa.

Acontece que hoje o versículo é frequentemente usado de forma invertida — não para proteger os fiéis da perseguição, mas para mantê-los submissos dentro de uma estrutura que persegue a verdade.

Quando a ameaça vem de dentro da própria congregação, quando é a liderança que suprime as promessas bíblicas e chama de "arrogância" quem as leva a sério, o espírito do texto aponta exatamente para o lado oposto: a fidelidade a Cristo pode exigir que você saia.

Isso não é deserção. É coerência. E libertador. A verdade liberta.

A Reunião que Virou Farsa

Há uma pergunta prática que vale fazer: o que acontece quando você se reúne?

Nas igrejas do Novo Testamento, reuniões tinham conteúdo. Paulo descreve revelação, profecia, ensinamento, milagres — sinais do Espírito agindo de forma reconhecível. Existe uma diferença entre uma congregação que crê nas promessas de Deus e uma que se reuniu para gerir coletivamente a descrença.

Quando o tema dominante de uma congregação é a aceitação resignada da doença, quando o sofrimento é sistematicamente apresentado como "vontade de Deus" e as promessas bíblicas de cura são tratadas como ingenuidade ou heresia, aí vale se perguntar: a que estamos nos reunindo, exatamente?

Uma igreja que não acontece milagres, que não busca milagres, que menospreza quem prega, que acusa que milagres são espetáculos ou manipulações ou “coisa” de pentecostal ou neopentecostal. E de fato, há muita manipulação, porém a rejeição aos milagres é um atestado de incredulidade. Mesmo que se afirme o contrário.

O Direito de Confrontar e o Dever de Sair

Antes de abandonar qualquer instituição, existe um passo anterior: o confronto honesto.

Cristãos têm não apenas o direito, mas a responsabilidade de ir aos seus líderes com a Bíblia aberta e fazer perguntas difíceis. Por que as promessas de cura são sistematicamente ignoradas? Por que o evangelho pregado aqui é tão menor do que o evangelho registrado nas Escrituras? O que fazemos com isso?

A questão não é comparar uma igreja tradicional com uma igreja carismática, a questão é comprar qualquer igreja com a Igreja Primitiva. Praticamente todas não passam no teste e isto significa: Apostasia.

Se a resposta for silêncio, desvio ou pressão para que você simplesmente "tenha fé na liderança" — isso já é uma resposta. E ela tem consequências.

A separação de uma instituição apóstata não é um gesto de orgulho. É um ato de consciência. E sim, vai custar algo. Existe uma mecânica social muito eficiente dentro de certas igrejas para fazer quem sai se sentir culpado, rebelde ou até amaldiçoado. Conhecer esse mecanismo de antemão ajuda a não ser paralisado por ele.

Não deve haver culpa quando se faz o que é certo, não há rebeldia contra Cristo nem maldição. Culpa, rebeldia e maldição são armas psicológicas dos manipuladores de rebanho.

Eles seguiram ídolos inúteis e se tornaram inúteis também. (Jeremias 2:5)

Depois da Crise, Não Volte

Pandemias, períodos de isolamento, crises pessoais — esses momentos frequentemente forçam as pessoas a ficarem longe de suas congregações por um tempo prolongado. E muitas descobrem algo surpreendente: a vida espiritual não entrou em colapso.

Quando a poeira baixa, a escolha sobre para onde voltar merece ser feita com atenção. Não por hábito, não por vínculo afetivo com o prédio ou com os costumes, mas por uma pergunta simples: este lugar trata o evangelho com seriedade real?

Se a resposta for não, voltar ao velho lugar por conforto ou conveniência é desperdiçar uma rara janela de clareza.

A Bíblia em Casa Pode Valer Mais (Em Certos Casos)

Isso vai soar radical: há circunstâncias em que uma pessoa lendo a Bíblia sozinha em casa tem mais chance de encontrar a verdade do que sentada por anos debaixo de um ensino que sistematicamente a distorce.

Não estou defendendo o isolamento como estilo de vida cristão. A comunidade importa, e muito. Mas comunidade não é sinônimo de instituição. E submissão a um líder não é sinônimo de fidelidade a Deus — especialmente quando os dois apontam em direções opostas.

Havendo uma consciência clara que demonstre que a igreja está em apostasia, o não congregar é mais importante.

A Verdadeira Igreja Não é uma Placa

No fim, a questão central é simples: o que define uma igreja?

Se for obediência à Palavra de Deus e fidelidade às promessas de Cristo, então "igreja" não é um endereço nem uma denominação nem um CNPJ. É uma realidade que pode existir em qualquer lugar onde pessoas levem o evangelho a sério — e pode estar completamente ausente de um templo com culto toda semana.

A separação de instituições que abandonaram esse fundamento não é o fim de algo. É, para muitos, o começo de uma fé que finalmente corresponde ao que está escrito.

Deus não aceita tudo o que as pessoas chamam de adoração.

Nas Escrituras, Ele define adoração por meio de Sua palavra. Ele aprova o que ordena e rejeita tudo o que Sua palavra não autoriza. A Bíblia nunca sugere que Deus se agrade sempre que as pessoas se reúnem e se envolvem em atividades religiosas.

A adoração existe onde Deus falou e nós respondemos com fé obediente. Quando as pessoas inventam maneiras de honrá-Lo que Ele nunca ordenou, imaginam ter acrescentado uma forma opcional de devoção, embora na realidade estejam apresentando uma rebeldia disfarçada de religião.

CONCLUSÃO

O Novo Testamento em nenhum momento ordena que os crentes se reúnam semanalmente sob uma estrutura clerical.

A exortação em Hebreus 10:24-25, “não deixemos de congregar-nos”, não é uma aprovação das instituições eclesiásticas modernas, mas um incentivo à edificação mútua entre os crentes. O texto pressupõe perseverança e apoio mútuo, não um modelo de culto formalizado. O autor estava exortando os crentes a se fortalecerem mutuamente sob pressão, não impondo a presença em uma reunião semanal estruturada.

A adoração é espiritual, e não geográfica ou organizacional.

Jesus disse: “Vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém vocês adorarão o Pai… os verdadeiros adoradores o adorarão em espírito e em verdade”. Insistir que a adoração exige a presença em um tipo específico de reunião transforma um padrão descritivo em uma regra universal.

O sacerdócio, o templo e os rituais foram cumpridos nele. Todo crente agora se apresenta como sacerdote diante de Deus. Tratar o culto coletivo como uma exigência absoluta introduz uma nova camada de obrigação religiosa que as Escrituras não impõem.

Negligenciar a frequência à igreja equivale a desobediência?

A passagem de Hebreus 10.24-25 trata de apostasia, não de absenteísmo.

“Deixar de se reunir” se referia àqueles que abandonavam a fé sob pressão, não àqueles que preferiam o culto em casa.

Os versículos seguintes falam daqueles que “continuam pecando deliberadamente depois de terem recebido o conhecimento da verdade”. O contexto diz respeito à renúncia a Cristo, não à ausência no culto de domingo.

Aplicar este texto para impor a frequência organizada é exegético equivocado.

A obediência a Deus é medida pela fé e pela adesão à verdade revelada, não pela participação institucional. Deus exige fé e santidade, não frequência rotineira. Os infiéis podem frequentar a igreja todas as semanas e permanecer espiritualmente mortos, enquanto um crente sozinho em seu quarto pode adorar a Deus em espírito e em verdade. Atos externos são vazios sem a verdade interior.

A adoração é um estado de ser antes de ser um evento. O crente, unido a Cristo, vive em adoração contínua. Oração, ação de graças e obediência são expressões constantes de comunhão com Deus. Sozinho ou com outros, ele permanece na presença de Deus como sacerdote e filho. A adoração particular ou familiar não é inferior. É uma devoção genuína e suficiente. O culto comunitário pode expressar a mesma fé, mas não acrescenta nada de essencial.

Para aprofundar o assunto AQUI