O Fetiche do Sofrimento: A Crítica de Vincent Cheung ao “Masoquismo Cristão”

O fetiche do sofrimento, também chamado de fetiche existencial, é a tendência de muitos cristãos de romantizar e erotizar a doença, a pobreza e a derrota, tratando essas condições como se fossem medalhas de santidade ou dons especiais de Deus.

TEOLOGIA BÍBLICA E VIDA CRISTÃTEOLOGIA & CULTURA · REFLEXÃOPSICOLOGIA & ACONSELHAMENTO

Raniere Menezes

8/7/20263 min read

O Fetiche do Sofrimento: A Crítica de Vincent Cheung ao “Masoquismo Cristão”

Para Vincent Cheung, o fetiche do sofrimento, também chamado de fetiche existencial, é a tendência de muitos cristãos de romantizar e erotizar a doença, a pobreza e a derrota, tratando essas condições como se fossem medalhas de santidade ou dons especiais de Deus.

Cheung classifica essa mentalidade como uma forma de “masoquismo cristão” e de “paganismo”, argumentando que ela representa uma negação do poder da redenção realizada por Cristo.

Sofrimento como orgulho e narcisismo

Na crítica de Cheung, determinados cristãos são religiosamente excitados pelo sofrimento cotidiano porque ele lhes permite assumir a aparência de heróis espirituais diante dos outros, sem necessariamente exigir o exercício real da fé.

O problema, segundo ele, está naquilo que esse sofrimento comunica. Em vez de glorificar a Deus, ele pode acabar glorificando a capacidade humana de suportar —uma espécie de “maltrato” divino.

Nesse contexto, o sofrimento pode se transformar em uma fonte de identidade.

Algumas pessoas não desejam realmente ser libertadas de sua condição porque a própria condição lhes proporciona uma identidade, um senso de importância e até uma espécie de status religioso.

A doença deixa de ser simplesmente uma condição da qual a pessoa deseja ser libertada e passa a fazer parte daquilo que ela entende ser sua identidade espiritual.

O ataque à expiação de Cristo

A ideia de que o cristão deve simplesmente aceitar doenças e sofrimentos para “aprender lições” constitui uma mensagem que ataca diretamente o significado da obra de Cristo.

Cristo teria sido um “homem de dores” precisamente para levar nossas dores. Consequentemente, o cristão deveria receber o oposto daquilo que Cristo sofreu: cura e alegria.

“Teologia da cruz” vs “teologia do trono”.

A teologia da cruz permanece concentrada no sofrimento e ignora a ressurreição. Nesse modelo, Jesus — e consequentemente o cristão — permanece perpetuamente associado à sepultura, em vez de assumir a realidade do trono e da vitória.

A depressão é real e pode atingir um crente? Sim, mas não pode ser um estilo de vida.

A crítica aos Puritanos e aos autores modernos

Cheung também direciona críticas contundentes a determinadas tradições cristãs e autores que, segundo sua interpretação, promovem esse fetiche do sofrimento. E critica duramente John Piper.

Cheung classifica o livreto Não desperdice seu câncer como uma mensagem do “antievangelho”, argumentando que sua abordagem incentivaria as pessoas a “desperdiçarem a redenção” ao abraçarem aquilo que Jesus teria chamado de opressão satânica.

Sua crítica também alcança os Puritanos, que ele descreve como especialistas em “permanecer na melancolia” e em “analisar uma alma até a morte”. Na avaliação de Cheung, essa tradição teria promovido tédio e depressão em vez de solução e vitória.

Da mesma maneira, ele rejeita o testemunho de líderes cristãos históricos que experimentaram depressão durante toda a vida como exemplos heroicos de espiritualidade. Em sua avaliação, esses indivíduos teriam sido “derrotados e enganados” nessa área.

Sofrimento legítimo versus sofrimento estúpido

Um ponto central da posição de Cheung é a distinção entre diferentes tipos de sofrimento.

Para ele, existe um sofrimento pela fé. Trata-se do sofrimento provocado pela perseguição e pela missão cristã: ser açoitado, odiado ou perseguido por pregar o evangelho. Esse seria o tipo de sofrimento que a Bíblia honra.

Em contraste, Cheung fala de um sofrimento pela incredulidade, associado a doenças, pobreza e problemas cotidianos que, em sua perspectiva, o cristão deveria vencer pela fé.

Atribuir valor espiritual a esse segundo tipo de sofrimento — aquilo que ele chama de “sofrimento estúpido” — seria, para Cheung, um insulto aos mártires reais.

A questão, portanto, não seria simplesmente perguntar se alguém está sofrendo, mas por que está sofrendo e se esse sofrimento está relacionado à fidelidade ao evangelho ou àquilo que, segundo Cheung, deveria ser vencido por meio da fé.

Poder e alegria

Como alternativa ao fetiche do sofrimento, Cheung defende que o cristão desenvolva um senso agudo do “eu” em Cristo e busque o poder espiritual necessário para esmagar a opressão.

Dentro dessa perspectiva, a libertação da depressão e da dor deveria ser total e rápida.

Por isso, Cheung rejeita qualquer teologia que prescreva uma “luta por toda a vida” como condição permanente do cristão. Para ele, uma teologia que transforma a derrota prolongada em virtude espiritual constitui uma mentira satânica.

O objetivo da vida cristã, em sua visão, não seria permanecer indefinidamente identificado com a dor, a derrota ou a melancolia, mas viver uma vida “energizada pela justiça, paz e alegria no Espírito Santo”.

Assim, a crítica de Cheung ao fetiche do sofrimento está fundamentada em uma ideia central: o sofrimento não deve ser transformado em identidade, medalha espiritual ou objeto de orgulho religioso. A redenção de Cristo, em sua interpretação, aponta para poder, libertação, vitória e alegria — e não para a glorificação permanente da derrota.

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