O Mito da Conversão Nacional: Uma Exegese de Romanos 11 e o Único Povo de Deus
A ideia de uma futura restauração nacional baseada na etnia não é apenas um erro de interpretação; é uma distorção do próprio evangelho, que tenta reerguer muros que Cristo já derrubou.
ESTUDO BÍBLICO
Raniere Menezes
2/22/20267 min read


O Mito da Conversão Nacional: Uma Exegese de Romanos 11 e o Único Povo de Deus
Cristãos contemporâneos falam sobre o futuro de Israel, e muitos partem de um pressuposto quase inquestionável: a ideia de que o Israel étnico mantém um estatuto especial na aliança de Deus e que, no fim dos tempos, haverá uma conversão nacional e em massa dos judeus.
Textos como Romanos 11:26 ("E assim todo o Israel será salvo") tornaram-se o grande estandarte desta teologia.
Contudo, uma leitura exegética da Carta aos Romanos, despida de lentes dispensacionalistas ou de sentimentalismos escatológicos, revela uma verdade mais contundente.
A ideia de uma futura restauração nacional baseada na etnia não é apenas um erro de interpretação; é uma distorção do próprio evangelho, que tenta reerguer muros que Cristo já derrubou.
Vejamos, à luz das Escrituras, por que o povo de Deus é um só, e porque a salvação de "todo o Israel" não significa o que insistem em dizer.
1. A Falsa Premissa do Privilégio Étnico (Romanos 9)
Antes de chegar ao capítulo 11, o apóstolo Paulo dedica tempo a desmantelar a ilusão da identidade judaica baseada no sangue. Em Romanos 9:6, ele estabelece o axioma de toda a sua tese: "Nem todos os que são descendentes de Israel são de Israel".
Esta única frase deveria ser suficiente para silenciar qualquer sistema teológico que afirme que a linhagem sanguínea ainda tem relevância pactual para Deus.
A identidade da aliança e a linha da promessa nunca foram definidas exclusivamente pela biologia. A escolha divina de Isaque em detrimento de Ismael, e de Jacó sobre Esaú, prova que os filhos de Deus não são os filhos da carne, mas os filhos da promessa.
Insistir que os judeus retêm um estatuto de aliança apenas pela sua etnia é introduzir um privilégio que o Novo Testamento rejeita ativamente.
O sistema sacrificial e a ordem do templo não sofreram um "hiato" ou uma pausa cronológica; eles foram alvo de um juízo pactual definitivo que culminou na destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.
Qualquer tentativa de ressuscitar essa ordem é uma forma de necromancia espiritual que considera o sangue de Cristo insuficiente.
2. A Oliveira: Uma Questão de Fé, Não de Geopolítica (Romanos 11:17-24)
A metáfora da oliveira é frequentemente sequestrada para desenhar um cronograma profético de duas etapas, onde a nação de Israel sai temporariamente de cena para depois regressar ao centro do palco. Mas o tema de Paulo aqui não é o destino geopolítico; é a justificação pela fé.
A oliveira tem uma só raiz nutritiva e um só alimento. A dinâmica da árvore é ditada exclusivamente pela resposta a Jesus Cristo:
· Os ramos naturais (judeus) foram cortados pela incredulidade.
· Os ramos bravos (gentios) foram enxertados e permanecem firmes pela fé.
A advertência de Paulo era dirigida aos gentios que se sentiam tentados a interpretar a incredulidade judaica como prova da sua própria superioridade. Ele esmaga esse orgulho lembrando-lhes de que o terreno aos pés da cruz é plano. Quando o apóstolo afirma que Deus é poderoso para enxertar os judeus novamente, não está a garantir um futuro nacional.
Ele está a afirmar que a condição para a restauração de um ramo quebrado é o arrependimento e a fé pessoal em Cristo — a mesmíssima exigência feita a qualquer pagão.
3. Exegese: "E Assim Todo o Israel Será Salvo" (Romanos 11:26)
Chegamos ao centro do debate. Como devemos ler Romanos 11:26? A chave está na gramática do texto grego.
Muitos leem o versículo como se dissesse: "A plenitude dos gentios entrará, e depois disso todo o Israel [a nação étnica] será salvo". No entanto, a expressão grega usada por Paulo é καὶ οὕτως (e assim / e desta maneira). Este advérbio de modo (houtōs) aponta para a maneira como algo ocorre, e não para uma sequência temporal (tote / então).
O apóstolo está a revelar o mistério de como Deus reúne a totalidade do seu povo eleito. Como é que o verdadeiro Israel é salvo? Desta maneira: através do endurecimento parcial de uma parte dos judeus, o que abriu a porta para a entrada da plenitude dos gentios, provocando ciúmes no remanescente eleito judaico para que também creia ao longo da história.
Consequentemente, "todo o Israel" não se refere a todos os judeus étnicos no fim do mundo, nem à nação geopolítica. Refere-se à totalidade do Israel de Deus (Gálatas 6:16) — o corpo completo dos eleitos, composto por judeus e gentios crentes, perfeitamente unidos em Cristo.
O Único Povo de Deus
Em Cristo, Deus reuniu um só povo e estabeleceu um só caminho de salvação. A Igreja não "substituiu" Israel; a Igreja, unida a Cristo pela fé, é o Israel de Deus. As promessas foram feitas ao Descendente, que é Cristo (Gálatas 3), e todos os que estão n'Ele são a semente de Abraão.
Em Cristo, Deus reuniu um só povo e estabeleceu um só caminho de salvação. Não há outro povo de Deus senão aqueles que seguem Jesus Cristo.
O evangelho não é sobre raça, herança ou nacionalismo. Não há salvação para aqueles que se apegam a uma nação que foi julgada pela sua rejeição do Messias. Um cristão deve opor-se vigorosamente a qualquer forma de antissemitismo, afirmando a dignidade de todas as pessoas criadas à imagem de Deus; contudo, devemos rejeitar categoricamente qualquer sistema carnal que imponha uma admiração espiritual baseada na etnia.
Só há um nome debaixo do céu pelo qual importa que sejamos salvos. Se o homem está em Cristo, ele é Israel. Se está fora d'Ele, não é nada. É exatamente e exclusivamente desta forma que todo o Israel será salvo.
O verdadeiro Israel não é judeu por sangue, mas cristão por fé. Consiste de cada pessoa que invoca o nome de Jesus. É o corpo de Cristo, os eleitos de toda tribo e língua, unidos não pela carne, mas pelo Espírito.
Apêndice: O Teste das Confissões Históricas
Como herdeiros da Reforma, abraçamos o princípio de Semper Reformanda e da Sola Scriptura. As nossas confissões de fé são monumentos teológicos valiosos, mas não são inerrantes. Para demonstrar como a expectativa escatológica de uma conversão nacional e étnica dos judeus — que acabamos de expor como uma leitura equivocada de Romanos 11 — se infiltrou em nossos documentos históricos, precisamos olhar especificamente para os textos do século XVII.
Embora os reformadores originais (como Calvino) vissem a Igreja como o cumprimento integral do "Israel de Deus", os puritanos ingleses e escoceses inseriram a esperança de um avivamento judaico futuro e massivo em seus padrões confessionais. Aqui estão as partes específicas onde essa expectativa errônea foi codificada:
1. O Catecismo Maior de Westminster (1648)
A Confissão de Fé de Westminster em si manteve uma visão eclesiológica mais unificada, mas a Assembleia detalhou suas expectativas escatológicas no Catecismo Maior, especificamente ao instruir a Igreja sobre como orar.
Na Pergunta 191, que trata da segunda petição da Oração do Senhor ("Venha o teu reino"), o catecismo afirma:
Pergunta 191: O que pedimos na segunda petição?
Resposta: (...) oramos para que o reino do pecado e de Satanás seja destruído, o evangelho seja propagado por todo o mundo, os judeus sejam chamados, a plenitude dos gentios seja introduzida, a igreja seja confortada...
O Erro Teológico: Ao isolar "os judeus sejam chamados" como um evento distinto da "plenitude dos gentios" e da propagação geral do evangelho, o Catecismo Maior cedeu à tentação de ler as promessas do Reino através de lentes étnicas. A oração cristã bíblica deve ser para que todos os eleitos (judeus e gentios indistintamente) venham à fé, sem criar uma categoria especial ou um evento futuro exclusivo para uma linhagem sanguínea que já não possui relevância pactual.
2. A Declaração de Savoy (1658)
Dez anos após Westminster, os Congregacionais (liderados por teólogos como John Owen e Thomas Goodwin) redigiram a Declaração de Savoy. Eles adotaram quase toda a Confissão de Westminster, mas sentiram a necessidade de ser muito mais explícitos e dogmáticos sobre a conversão nacional de Israel. Adicionaram um parágrafo inteiramente novo no Capítulo 26:
Capítulo 26, Seção 5:
"Como o Senhor em seu cuidado e amor para com a sua Igreja... assim, de acordo com a sua promessa, nós esperamos que nos últimos dias, o Anticristo seja destruído, os judeus sejam chamados, e os adversários do reino de Seu querido Filho sejam quebrados, e as igrejas do Senhor sejam multiplicadas e edificadas..."
O Erro Teológico: A Declaração de Savoy transforma uma exegese falha de Romanos 11 em uma doutrina confessional e escatológica. Ao listar o "chamado dos judeus" ao lado da destruição do Anticristo como um marco profético dos "últimos dias", Savoy cimenta a ideia de um Israel nacional com um destino distinto da Igreja em geral.
A Crítica a essas Cláusulas Confessionais
À luz da doutrina do "Único Povo de Deus", as cláusulas acima falham em dois pontos cruciais:
1. Retrocesso ao Particularismo: Ao fixar os olhos em um futuro chamado étnico, esses documentos desviam o foco da realidade presente: a parede de separação foi derrubada (Efésios 2:14). A cruz aboliu qualquer distinção baseada na carne.
2. Minimização do Juízo de 70 d.C.: A expectativa puritana muitas vezes ignorou o peso do julgamento final e irrevogável que Cristo pronunciou sobre a velha ordem da aliança, o sacerdócio e a nação no ano 70 d.C. Não há uma "pausa" na aliança com o Israel nacional; houve um fim definitivo da velha administração para dar lugar à Nova Aliança em Cristo, onde o verdadeiro Israel é exclusivamente definido pela fé, sem promessas pendentes para etnias ou geografias.
Conclusão Bíblica
A salvação continuará a alcançar judeus e gentios individualmente, através da pregação do único Evangelho, conforme a eleição soberana da graça. Qualquer judeu que creia em Cristo será salvo e enxertado na árvore, exatamente nos mesmos termos que um gentio. No entanto, a nação étnica, enquanto entidade corporativa, não possui qualquer promessa bíblica de conversão em massa no fim dos tempos.
A Igreja de Cristo — formada por eleitos de todas as tribos, línguas e nações — não é o "plano B" de Deus enquanto Ele aguarda para lidar com os judeus. A Igreja é o plano central, final, perfeito e irrevogável de toda a história da redenção.
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