O Mito de Marte e Vênus: O que Aprendi com Esther Perel
Segundo a terapeuta, aconselhar casais exige, antes de mais, desmantelar a postura infantil de esperar que o outro mude primeiro para que a nossa vida melhore.
ACONSELHAMENTO
Raniere Menezes
6/15/20265 min read


O Mito de Marte e Vênus: O que Aprendi com Esther Perel
Algo se repete na cozinha, na sala, no café, na rua, em consultórios de terapia de casal.
Dois adultos, perfeitamente funcionais em termos intelectuais e profissionais, sentam-se à distância de um braço.
O clima fica pesado, saturado de palavras não ditas e de pequenos ressentimentos acumulados ao longo dos anos. Eles não estão ali por falta de amor, mas sim por excesso de desgaste.
A maior ameaça aos casamentos modernos não é a traição ou a incompatibilidade de génios, mas sim a profunda passividade com que gerimos o afeto.
Fomos condicionados a tratar o amor como um fenómeno passivo — um sentimento místico que simplesmente "nos acontece" e que, com sorte, se manterá vivo por força da gravidade.
Assumimos o casamento como um porto seguro estático, onde os corpos e as rotinas assentam. Mas segundo a terapeuta belga Esther Perel se queremos salvar a vitalidade de uma relação a longo prazo, temos de fazer uma transição urgente da inércia para a intencionalidade ativa.
A Dança entre Segurança e Desejo
O maior erro que cometemos na intimidade — e para o qual muitas correntes tradicionais de aconselhamento fecham os olhos — é tentar tratar a tensão entre a segurança e o desejo como se fosse um problema simples com uma solução definitiva. Não é. Perel esclarece que estamos perante um paradoxo existencial incurável.
O ser humano é movido por duas necessidades biológicas e psicológicas perfeitamente contraditórias. Por um lado, exigimos uma âncora: pertença, familiaridade, estabilidade e previsibilidade — o "teto" protetor. Por outro, o nosso espírito anseia por exploração, novidade, risco, mistério e transcendência. O problema? O desejo alimenta-se exatamente daquilo que a segurança tenta erradicar.
Como qualquer ecossistema vivo, o casamento exige estabilidade e mudança em simultâneo. Quando um casal elimina todo o risco em nome do conforto doméstico, a relação fossiliza.
Transforma-se num pacto de convivência profundamente morno, onde o erotismo morre de tédio. No entanto, o oposto é igualmente perigoso: quando os parceiros vivem numa busca frenética por estímulos novos, sem bases sólidas de compromisso e apego, o sistema desregula-se. Entra em caos, gerando ansiedade crónica e exaustão emocional.
A saúde de uma relação não reside em neutralizar esta polaridade, mas sim em aprender a oscilar entre as duas forças de forma fluida.
Os casais que sobrevivem com vitalidade são aqueles que aprenderam a mover o peso de um lado para o outro. Sabem que há épocas na vida que exigem recolhimento, ninho e proteção — como a chegada dos filhos ou uma crise profissional —, mas entendem também que é imperativo criar momentos de ruptura da rotina, abrindo deliberadamente a porta ao desconhecido, algo novo dentro dos limites do casal. Não se trata de relacionamento aberto. Trata-se de fugir da rotina.
Comunicação e Género: O Mito de Marte e Vênus
Durante décadas, a literatura popular nos vendeu a ideia simplista de que homens e mulheres habitam planetas emocionais diferentes.
A perspectiva de Perel implode este mito. A essência dos nossos desejos humanos é idêntica; o que muda de forma dramática é a socialização e o uso do vocabulário.
Pensemos naquilo a que a psicologia chama de sinfonia emocional masculina. Desde tenra idade, os rapazes são esvaziados da linguagem das emoções. São ensinados a serem estoicos, competitivos e autossuficientes.
Quando um homem adulto se remete ao silêncio durante uma discussão, o senso comum dita que ele é frio ou insensível. Na verdade, ele simplesmente não dispõe de ferramentas linguísticas para expressar vulnerabilidade ou medo de falhar.
Quando encontra um espaço de escuta real e seguro, livre de julgamentos, as suas emoções emergem. O grande bloqueio reside no fato de a sociedade ter ensinado o homem a canalizar a sua necessidade de conexão quase exclusivamente através do sexo.
Em contrapartida, as mulheres receberam historicamente uma licença social generosa para debater sentimentos, carências e nuances relacionais. Mas, foram severamente punidas caso expressassem o desejo sexual. Consequentemente, a mulher aprendeu a embalar os seus anseios de prazer e sedução numa sofisticada linguagem de "conexão emocional".
Eis o grande desencontro linguístico: o homem pede intimidade através do sexo; a mulher pede sexo através da intimidade.
No fundo do poço emocional, ambos procuram exatamente o mesmo reconhecimento e fusão, mas foram condicionados a utilizar moedas de troca distintas.
O Olhar Triangular e a Sustentação do Desejo
Outra grande revelação está relacionada com a ecologia do erotismo duradouro. Os casais eróticos de sucesso não dependem de uma paixão adolescente ininterrupta. O seu segredo apoia-se em dois pilares que desafiam o senso comum.
O primeiro é a aceitação pacífica do chamado "sexo de manutenção". Estes casais não patologizam as fases em que a vida sexual se torna mais funcional ou afetiva (o toque de conexão, o abraço na cama). Eles entendem que manter os corpos magneticamente sintonizados, mesmo sem grandes fogos de artifício, é o que mantém o canal desimpedido para mais desejos surjam organicamente.
O segundo pilar é a preservação da interioridade. O maior inimigo do erotismo é o canibalismo emocional — aquela fusão total onde o casal se dissolve numa criatura única e homogénea. Para que o desejo exista, tem de haver um espaço de separação e distância.
É aqui que entra o fenómeno do olhar triangular. Perel identificou que o momento em que sentimos mais atração pelo nosso parceiro é quando o observamos à distância, completamente imerso no seu próprio campo de excelência — seja a proferir uma palestra, a tocar um instrumento ou a liderar uma equipe.
Nesse instante, o parceiro deixa de ser aquela figura familiar e previsível deitada no sofá e passa a ser visto como um "outro" independente, autónomo, desejado e autossuficiente. Esse espaço entre o "eu" e o "outro" é o único solo fértil onde o erotismo consegue respirar.
O Amor como Verbo de Ação: Conselhos para a Prática
Se pudéssemos destilar todo este conhecimento clínico num único conselho prático, ele seria de ordem gramatical: o amor deve ser resgatado da sua condição de substantivo passivo e transformado num verbo de ação.
O amor não é algo que simplesmente se sente; é algo que se faz, que se pratica e que se conjuga todos os dias através de escolhas difíceis e riscos emocionais.
Segundo a terapeuta, aconselhar casais exige, antes de mais, desmantelar a postura infantil de esperar que o outro mude primeiro para que a nossa vida melhore.
O amadurecimento relacional começa quando cada indivíduo se olha ao espelho e se questiona: "O que posso fazer aqui e agora para alterar o tom desta casa?"
Exige também uma profunda responsabilidade. Antes de disparar uma crítica destrutiva, um comentário irónico ou de optar pelo gelo do silêncio punitivo, cada parceiro deve avaliar o impacto do seu gesto: "O que é que isto que vou dizer vai causar à nossa relação?".
A partir desse momento, a parceria deixa de ser um eterno cabo de guerra e passa a ser tratada como uma terceira entidade — o "Nós" — que necessita de proteção e alimento.
Importa redescobrir o hábito de abastecer o tanque emocional através da gratidão.
Deixar de dar o outro por garantido requer pequenos rituais. Escrever um bilhete, uma mensagem ou uma carta detalhada ao parceiro, especificando o valor que ele traz à nossa existência e os momentos em que o admirámos, funciona como um bálsamo.
Um gesto simples, frequentemente esquecido na correria dos dias, mas com um poder transformador, devolve-nos a certeza de que somos vistos, validados e profundamente importantes na vida de quem escolhemos para caminhar ao nosso lado.
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