O MITO DE SÍSIFO NA ESCATOLOGIA DA DERROTA

Existe um mito grego que, sem querer, se tornou a melhor ilustração do problema escatológico que boa parte da igreja evangélica carrega nas costas. O mito de Sísifo.

ESCATOLOGIAREINO DE DEUSSOBERANIA DE DEUS

Raniere Menezes

6/18/20266 min read

Sísifo era um rei astuto, conhecido por enganar os deuses. Como punição, foi condenado a um castigo eterno no Tártaro: empurrar uma enorme pedra até o topo de uma montanha. Mas sempre que ele estava prestes a alcançar o cume, o peso da pedra vencia e ela rolava de volta para baixo. Sísifo então recomeçava. Um ciclo sem fim, sem esperança de chegada.

Sísifo é uma boa representação para o amilenista e para o dispensacionalista. — E para o pós-milenismo puritano.

Existe uma rotina diária de esforço e de trabalho pelo reino. Mas todo dia é um empurrar de pedra — porque, dentro dessas escatologias, não haverá conquista do topo na linha temporal do esforço histórico. Não haverá vitória na história. A vitória vem só no fim, no evento escatológico final: parousia arrebatamento, juízo, glória.

Aplicando o mito: seria como se, um dia, uma força maior viesse retirar a pedra e libertar Sísifo eternamente. Nas escatologias, esse seria o fechamento da história.

Há algo de errado nisso.

O Peso de Saber que a Pedra Vai Cair

Se eu sei, como indivíduo do corpo de Cristo, que todo esforço será inútil na história — porque haverá fracasso, apostasia crescente, o anticristo dominando as nações, a grande tribulação, futuro sombrio —, então empurrar a pedra se torna quase um ato de desespero.

É empurrar a pedra sabendo que no topo está o anticristo.

Isso é um absurdo teológico. Dessa maneira, o homem que empurra essa pedra já está derrotado, não na eternidade, mas na história. E o ensino escatológico vai bebendo desse erro e achando normal.

Não por acaso, no auge do dispensacionalismo, muitos jovens temiam casar, fazer família, estudar. A lógica é coerente: um sistema que aponta para um horizonte sombrio não impulsiona ao avanço, mas ao recuo. Quando o esforço não parece valer a pena, nascem as crenças subjetivas, as fugas, os idealismos sem substância; os escapismos.

O amilenismo, o dispensacionalismo e o pós-milenismo puritano — os três incluem, em graus variados, esse horizonte sombrio — ensinam, na prática: não fuja do declínio. Continue empurrando a pedra. Não haverá chegada ao topo na linha histórica com vitória. Continue empurrando. Cristo salvará sua Igreja quase sem forças de tanto empurrar a pedra.

Sua paixão missionária é empurrar a pedra sabendo que não chegará ao topo. Mas um dia o Rei removerá a pedra. É isso que se ensina.

E assim a missão se transforma em obrigação pesada, não em conquista esperançosa na história. —Aqui não se trata de falta de esperança na eternidade, nisso todas as linhas escatológicas têm.

Camus e o Verão Invencível

Albert Camus usou a figura de Sísifo para ilustrar o esforço do desespero humano. Mas conseguiu extrair um pensamento notável sobre isso ao dizer: "Em pleno inverno, finalmente descobri que havia em mim um verão invencível."

Camus queria dizer que encontrava propósito em si mesmo ao empurrar a pedra. Um Sísifo que não precisa de topo porque fabrica seu próprio sentido interior.

É uma resposta corajosa para um ateu. Mas é insuficiente para um cristão.

O crente não encontra significado apenas em sua vida. Encontra naquele que lhe deu a vida, naquele que é a Vida, naquele que prometeu vida em abundância. Não temos à nossa frente apenas uma pedra a empurrar com força e urgência. Temos promessas — na história e depois dela.

Se Camus, sem esperança, ainda enxergava um verão invencível dentro de si, que diremos da igreja que recebeu a esperança de confiar no Sol Invicto?

A Escatologia que Muda Tudo

O pós-milenismo expansionista — aquele que crê na vitória do reino na história, e não apenas depois dela — não normaliza a derrota esperando o fim. Incentiva o esforço porque acredita no resultado.

O esforço missionário do século 19 foi propulsionado por essa visão. O reino em expansão, invencível, vencendo todos os inimigos. A Grande Comissão como missão que não pode fracassar. As igrejas plantadas, os povos alcançados, o mundo sendo transformado — não como curiosidade histórica, mas como cumprimento de promessa.

O pós-milenismo expansionista tem sentido a médio prazo na história e na eternidade. As outras escatologias têm sentido apenas no longo prazo (na eternidade) — o fim de tudo. E isso faz toda a diferença para quem está hoje ao pé da montanha.

A falta de sentido histórico vitorioso aumenta o peso da pedra.

As Promessas que Garantem o Topo

Saber para onde a história caminha muda como você vive hoje.

E as promessas bíblicas não apontam para um Sísifo resignado.

No protoevangelho de Gênesis 3.15, há uma garantia de que Cristo esmagaria a cabeça da serpente — vitória na história e para além dela.

A aliança com Abraão promete alcance extraordinário: todas as famílias da terra abençoadas, herdeiros do mundo.

O Salmo 2 declara um domínio universal do Messias: o Pai dará ao Filho as nações como herança e os confins da terra como possessão.

O Salmo 22 antecipa que todos os confins da terra se converterão e se prostrarão diante dele.

Daniel profetiza um reino inabalável como uma pedra que esmaga os reinos opressores e cresce até encher toda a terra.

Cristo amarrou o valente, permitindo que a igreja saquei sua casa e liberte pessoas.

A expansão do reino é como o grão de mostarda que se torna a maior árvore, e como o fermento que leveda toda a massa.

Na Grande Comissão, a igreja recebeu toda autoridade no céu e na terra. A missão não pode fracassar.

As portas do inferno não prevalecerão contra ela. Cristo reina à destra de Deus, e todos os seus inimigos serão postos debaixo dos seus pés.

Isso não é o roteiro de uma pedra que rola de volta permanentemente.

A Mentalidade que Deve Renascer

A mentalidade de rendição histórica não é bíblica. O esforço deve vir da certeza de vitória na história (e na eternidade), não apenas de uma obrigação pesada.

A igreja tem passado, presente e futuro na história — e na eternidade. Saber que não haverá vitória no topo é manter a mente refém da derrota histórica. É aceitar o castigo de Sísifo como vocação missionária.

O espírito indomável missionário do século 19 deve renascer. Deve vivificar. Deve substituir a mentalidade de resistência pela mentalidade de expansão, de vitória, de conquista.

Não porque somos fortes. Mas porque aquele que prometeu é fiel. Ele diz: Sem mim nada pode ser feito. E Ele deu toda autoridade para a Igreja avançar.

E a pedra que Ele move não rola de volta eternamente. Ele é a nossa força e o Espírito Santo impulsiona o avanço.

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Muitos pastores vivem hoje ao pé da montanha... sempre reencontrando o seu fardo. Enquanto não lutarem pelo topo — pela vitória de Cristo dentro da história —, continuarão condenados a esse ciclo.

As escatologias tribulacionistas são resignadas. Elas partem do pressuposto de que "as coisas estão ruins e é assim mesmo". Mas como esperar que algo melhore se você já aceitou o pior na história? Como não desistir de empurrar a pedra?

Isso é um suicídio escatológico: aceitar a derrota antes mesmo do fim.

Como você pode dizer que "não vai aceitar a derrota sem lutar", se a sua própria escatologia tribulacionista afirma que a derrota na história é certa?

Por que você se esgota nos extremos da política se o fim histórico, para você, é o fracasso?

Por que constrói casas? Por que reforma a igreja? Por que cria filhos?

Apenas porque a ordem é "empurrar a pedra"?

Até quando você terá forças para lutar, lembrando a si mesmo, todos os dias, que nunca chegará ao topo nesta terra?

Empurrar a pedra sem um propósito vitorioso dentro da história é desgastante, é um fardo vazio. É só quando encontramos o propósito missionário expansionista — a vitória real da Grande Comissão, tanto na história quanto na eternidade — que o esforço passa a valer a pena.

Empurrar a pedra pensando apenas na vitória na glória futura faz com que o esforço no presente encontre sentido apenas no cansaço, no puro dever. Vira o ato de fazer por fazer. Mas o Reino de Deus não nos chamou para o estoicismo de Sísifo; chamou-nos para a vitória que transforma a história.

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