O MUNDO NÃO ESTÁ DESMORONANDO: O QUE "FACTFULNESS" ENSINA SOBRE ANSIEDADE, NOTÍCIAS E REALIDADE
As coisas estão melhores do que você pensa, e saber disso não exige fechar os olhos para o sofrimento.
COSMOVISÃO
Raniere Menezes
10/18/20265 min read


O MUNDO NÃO ESTÁ DESMORONANDO: O QUE "FACTFULNESS" ENSINA SOBRE ANSIEDADE, NOTÍCIAS E REALIDADE
As coisas estão melhores do que você pensa, e saber disso não exige fechar os olhos para o sofrimento.
Guerras, assassinatos, instabilidade política, uma revolução tecnológica que avança sem freio. Basta abrir o celular para ter a impressão de que tudo está piorando. A pergunta "para onde estamos caminhando?" ronda a cabeça de muita gente, e não é raro que ela venha acompanhada de ansiedade.
A escritora Shammas Rishard, num texto publicado em outubro de 2026 na Medium, conta que se reconhecia nesse quadro. Ela se descreve como alguém que repara em tudo e que não queria se tornar uma otimista cega: para ter esperança, precisava de provas. A indicação de um amigo otimista levou-a a "Factfulness", do médico e estatístico sueco Hans Rosling, escrito com Ola Rosling e Anna Rosling Rönnlund.
POR QUE ACHAMOS QUE TUDO ESTÁ PIORANDO
Segundo Rishard, o cérebro humano foi moldado para a sobrevivência. Prestar atenção ao perigo compensa muito mais do que prestar atenção ao que vai bem: ignorar uma ameaça pode custar caro, ignorar uma boa notícia quase nunca custa. Esse viés teria nos ajudado a evoluir, mas hoje nos prende à ideia de que tudo dá errado e de que o mundo não tem salvação.
A imprensa se apoia nesse mesmo instinto. Como a atenção do público é o que sustenta o negócio, o noticiário privilegia o dramático e o negativo. O resultado é que pobreza, violência e crises globais parecem sempre fora de controle e sempre piores do que nunca.
Há ainda o viés de recência (a qualidade ou o estado do que é recente): tendemos a achar que o momento atual é o pior da história. Rishard sugere, com certa ironia, que isso pode até funcionar como um consolo negativo.
Nem a instrução formal protege contra isso. Rosling aplicou questionários de conhecimentos gerais sobre o mundo a públicos variados, inclusive pessoas com alto nível de escolaridade, e o desempenho médio ficou abaixo do que um chimpanzé alcançaria chutando as alternativas. A lição não é que as pessoas sejam burras, e sim que carregamos uma imagem desatualizada e pessimista do mundo. —Em parte isso explica a popularidade de escatologias pessimistas.
A mentalidade que o livro propõe é a de uma postura realista: antes de se preocupar com um problema, examinar seu histórico e os números, para então direcionar a atenção ao que mais precisa dela. O próprio Rosling lembra que notícias ruins chegam até nós com muito mais facilidade do que as boas, o que gera uma impressão sistematicamente negativa e estressante do mundo.
TRÊS MUDANÇAS DE MENTALIDADE
A premissa de "Factfulness" são dez razões pelas quais nos enganamos sobre o mundo, cada uma acompanhada de uma mudança de mentalidade. Rishard destaca três.
1. A divisão entre "nós" e "eles"
Nosso cérebro economiza energia dividindo tudo em categorias simples: ricos e pobres, Ocidente e resto do mundo, países desenvolvidos e subdesenvolvidos. A consequência é a sensação de que há um abismo intransponível entre dois grupos, e que tentar superá-lo é desperdício de esforço.
Rosling desmonta essa ilusão mostrando que a maior parte da humanidade está no meio. Ricos e muito pobres são minoria, e a vasta maioria vive entre os dois extremos. Isso não quer dizer que a vida de quem está no meio seja fácil, mas a distância diminui bastante quando enxergamos a realidade como ela é, e isso gera esperança.
Alguns dados citados no texto de Rishard:
- Na pergunta sobre quantas pessoas vivem em países de baixa renda, a média das respostas apontou 59%. A resposta correta é cerca de 9%.
- Há 200 anos, cerca de 85% da humanidade vivia em extrema pobreza. Há cerca de 30 anos, o índice era de aproximadamente 35%. Hoje, é de cerca de 9%.
- Entre 80% e 85% da população mundial tem algum acesso à eletricidade.
- A mortalidade infantil global caiu, em cerca de cem anos, de algo entre 10% e 15% para cerca de 3%.
- As fotos do projeto Dollar Street, ligado à organização Gapminder, mostram que, para um mesmo nível de renda, as condições de vida são surpreendentemente parecidas em diferentes partes do mundo, no Ocidente ou fora dele.
A conclusão é que a ideia de que "eles" jamais sairão das trincheiras não se sustenta nos números. Com os avanços em tecnologia e saúde, a tendência é de que mais pessoas continuem subindo.
2. Entender que as coisas podem ser ruins e melhores ao mesmo tempo
Há coisas horríveis acontecendo, e todo sofrimento exige reconhecimento, compaixão e condenação de quem o causa. Isso é inegociável. Mas reconhecer o sofrimento é diferente de render-se ao desespero.
Preocupar-se e desejar mudanças é saudável. Concluir que o mundo não tem esperança, não: essa segunda postura nos impede de concentrar energia no que realmente precisa de atenção. Quando acontece algo ruim, costumamos achar que voltamos à estaca zero, e raramente é assim. Uma situação pode estar ruim e, ainda assim, estar melhor do que estava. Perceber essa diferença nos ajuda a decidir onde agir.
3. Superar os instintos de medo e urgência
A mídia se alimenta do nosso medo, e o medo costuma empurrar para decisões precipitadas, mesmo quando o problema não pede ação imediata. Por isso, diante de uma notícia alarmante, o caminho sugerido é dar um passo atrás e olhar as estatísticas, as tendências e o histórico antes de concluir qualquer coisa. — Uma tarefa que parece fácil, mas o fator “emoção” é mais forte que “razão”.
Um exemplo usado é o das viagens aéreas: milhões de voos chegam ao destino com segurança todos os anos, e alguns acidentes ganham as manchetes. Falamos mais do que não conseguimos controlar, porque isso desperta interesse e pode nos prejudicar se for ignorado, e quase nunca falamos do progresso silencioso, porque ignorá-lo não nos incomoda de imediato. Tomar decisões que mudam a vida com base em eventos isolados raramente é sensato. Nossos medos naturais de violência, cativeiro e contaminação nos fazem superestimar sistematicamente esses riscos, algo que o próprio livro registra. — O medo é uma das armas da guerra política.
O QUE ISSO SIGNIFICA NA PRÁTICA
A objetividade defendida por "Factfulness" não é uma forma de ignorar o sofrimento para levar uma vida mais leve. Trata-se de trocar ansiedade paralisante, medo e desespero por uma visão de mundo lúcida e baseada em fatos, que permita viver de maneira positiva e pragmática.
Da próxima vez que uma manchete der a impressão de que o mundo está acabando, o conselho é respirar fundo, examinar com seriedade os fatos e a história e só então agir. E lembrar que o progresso costuma ser lento e passar despercebido, enquanto a negatividade sempre ganha destaque.
NOTA SOBRE OS DADOS
Os números acima foram reproduzidos como aparecem no texto de Shammas Rishard, que por sua vez os atribui a Hans Rosling e à Gapminder. Alguns percentuais, sobretudo os de datas intermediárias (por exemplo, a proporção em países de baixa renda em 1990 e os índices de mortalidade infantil), variam conforme a edição do livro, o ano de referência e a metodologia (países de baixa renda versus pessoas em extrema pobreza são medidas diferentes).
FONTES
1. RISHARD, Shammas. "O livro que me fez perceber que o mundo não está realmente desmoronando". Medium, publicação "Livros são o nosso superpoder" (Books Are Our Superpower), outubro de 2026. Acessado em 18/10/2026 via link de amigo.
https://baos.pub/the-book-that-made-me-realize-the-world-isnt-actually-falling-apart-badd7cc1b1b7
2. ROSLING, Hans; ROSLING, Ola; ROSLING RÖNNLUND, Anna. Factfulness: Ten Reasons We're Wrong About the World and Why Things Are Better Than You Think. (Em português: "Factfulness: O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos".) Fonte primária das ideias e dos questionários citados.
3. Gapminder Foundation: dados e ferramentas educativas de Hans Rosling e equipe.
4. Dollar Street (Gapminder): fotos de lares ao redor do mundo organizadas por nível de renda, citadas no texto de Rishard.
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