O risco de usar a suficiência das Escrituras para negar os dons espirituais

Por que essa interpretação pode produzir uma das maiores contradições da teologia

CESSACIONISMO

Raniere Menezes

7/14/20264 min read

Qual a relação entre a suficiência das Escrituras e a continuidade dos dons espirituais. Para os defensores do cessacionismo, os milagres, as curas e as manifestações sobrenaturais pertencem exclusivamente ao período apostólico. Já para os continuístas, utilizar a doutrina da suficiência bíblica como argumento para encerrar essas manifestações representa não apenas um erro de interpretação, mas uma contradição absurda.

Segundo a perspectiva cessacionista, o problema começa quando se afirma que o fechamento do cânon bíblico tornou desnecessária a continuidade dos dons espirituais. Se a suficiência das Escrituras significa que Deus deixou de agir por meio dos dons, então surge uma pergunta fundamental.

O apóstolo Paulo declarou em 2 Timóteo que as Escrituras eram suficientes para tornar o homem de Deus perfeitamente habilitado para toda boa obra. Naquele momento histórico, porém, Timóteo possuía essencialmente o Antigo Testamento. Se a suficiência das Escrituras implicasse automaticamente o encerramento das manifestações sobrenaturais, qual seria a necessidade de todo o restante do Novo Testamento, escrito posteriormente?

Para os críticos dessa interpretação, esse raciocínio conduz a uma inconsistência lógica difícil de resolver.

Entre autoridade e incredulidade

Outro ponto levantado diz respeito a "falsa humildade". Segundo essa visão, afirmar que "a Bíblia basta" não deveria significar rejeitar os recursos espirituais que a própria Bíblia apresenta como presentes de Deus para a Igreja.

Seria como um soldado que, diante de uma batalha, recusa as armas fornecidas por seu comandante alegando que a autoridade do general já lhe é suficiente. O comandante continua sendo a autoridade máxima, mas isso não elimina a necessidade das ferramentas disponibilizadas para cumprir a missão.

Aplicado à vida cristã, o argumento é que os dons espirituais não competem com a autoridade das Escrituras; ao contrário, são descritos nas próprias Escrituras como instrumentos concedidos por Deus para a edificação da Igreja.

Quando a Bíblia se torna apenas um símbolo

Muitos proclamam a autoridade absoluta da Bíblia, mas deixam de lado justamente os mandamentos relacionados à oração pelos enfermos, aos dons espirituais e às manifestações do poder de Deus presentes no Novo Testamento.

A Bíblia corre o risco de ser tratada mais como um símbolo religioso do que como uma autoridade efetivamente obedecida em sua totalidade.

A suficiência das Escrituras deveria conduzir o cristão à confiança nas promessas bíblicas sobre a atuação do Espírito Santo, e não ser utilizada como justificativa para negar essas mesmas promessas.

As consequências práticas

Um dos aspecto mais sensíveis dessa discussão está nas consequências pastorais.

O cessacionismo não produz apenas diferenças doutrinárias, mas influencia diretamente a maneira como muitos cristãos enfrentam doenças, sofrimento e crises.

Quando a igreja deixa de ensinar sobre a cura e desencoraja a oração com expectativa de intervenção sobrenatural, muitos crentes passam a aceitar determinadas situações como inevitáveis, sem sequer considerar as promessas bíblicas relacionadas à ação de Deus.

Uma teologia que elimina a expectativa do agir sobrenatural pode contribuir para sofrimento evitável. Enquanto a Bíblia ensina o poder da fé ousada; fé nas promessas de Deus, sem restrições impostas por tradições; promessas de “obras maiores” (essa promessa não possui data de validade).

O poder dos milagres não é restrito aos apóstolos ou super-crentes. Um crente comum que possua fé em Jesus, como Estevão e Filipe, que não eram apóstolos e realizaram prodígios e sinais por estarem cheios de fé e do Espírito Santo. Uma fé pequena como um grão de mostarda é suficiente para mover montanhas, ordenar que doenças e demônios saiam em nome de Jesus. Jesus veio para destruir as obras do diabo, isso envolve curar enfermos e realizar milagres como demonstração do poder do Evangelho.

A vida e o poder não é natural do homem, mas o cristão retira vida e poder da Videira, a qual está ligada. A promessa é que essa ligação produza milagres, visões, profecias e curas.

O Cessacionismo se coloca como defensor da verdade e protetor contra erros de falsos milagres, mas biblicamente a fé sobrenatural é capaz de discernir e subjugar os falsos milagres e poderes demoníacos através da superioridade do nome de Jesus. A exemplo de Elias vs os profetas de Baal, também do cajado de Arão que se transforma em cobra e devora as serpentes dos magos egípcios e também Paulo quando repreende uma mulher jovem escrava que possuía um espírito de adivinhação e seguia Paulo gritando uma verdade, ela gritava que os discípulos de Jesus eram servos de Deus e anunciavam salvação. E Paulo ordenou ao espírito na mulher, em nome de Jesus, que saísse dela, libertando-a imediatamente. E a Palavra orienta para que o crente discirna o espírito.

Deus prometeu poder necessário para combater erros e cumprir sua missão. Negar esse poder é uma traição.

Uma questão que alcança toda a teologia

O debate não deve se limitar aos dons espirituais.

Todas as doutrinas cristãs estão interligadas. Assim, negar a continuidade das manifestações do Espírito Santo acabaria afetando também a compreensão da obra de Cristo, da expiação, da missão da Igreja e até mesmo da soberania de Deus.

Deus não pode ser entendido como alguém que faz promessas registradas nas Escrituras, mas que não teria a intenção de cumpri-las na era da Igreja.

O impacto na missão da Igreja

Outro argumento envolve o mandato missionário.

Em Atos 1:8, Jesus prometeu poder para que seus discípulos fossem suas testemunhas até os confins da terra. O poder do Espírito Santo não seria um detalhe periférico da missão cristã, mas parte integrante da estratégia estabelecida pelo próprio Cristo.

Consequentemente, rejeitar essa dimensão sobrenatural significaria enfraquecer o testemunho da Igreja e reduzir a missão cristã a métodos exclusivamente humanos.

Deus continua operando hoje?

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