Peter Turchin e a Década da Instabilidade: O Que o Historiador Acertou (e Errou) Sobre os Anos 2020
Imagine um cientista capaz de prever crises políticas com anos de antecedência, usando matemática e história como ferramentas. Parece ficção científica, mas é exatamente o que Peter Turchin tentou fazer.
GEOPOLÍTICA
Raniere Menezes
1/18/20264 min read


Este historiador russo-americano, criador da cliodinâmica — uma ciência que aplica modelos matemáticos ao estudo da história —, alertou há mais de uma década que a década de 2020 seria um período turbulento de instabilidade social e política.
Sua previsão se baseou na teoria estrutural-demográfica (SDT), que identifica padrões cíclicos de colapso e renovação nas sociedades. Segundo Turchin, dois fatores principais impulsionariam a crise: a superprodução de elites (muitos aspirantes a posições de poder competindo por poucas vagas) e a estagnação salarial das massas. Agora, com os eventos de 2025 e início de 2026 se desenrolando, podemos avaliar: quão preciso foi o modelo de Turchin?
O Caldeirão Sob Pressão: A Metáfora de Turchin
Para entender as previsões de Turchin, pense em um caldeirão sob pressão crescente. O fogo embaixo representa a superprodução de elites — advogados, PhDs e profissionais qualificados disputando ferozmente cargos de liderança cada vez mais escassos. A pressão interna vem do descontentamento das massas, que enfrentam salários estagnados e custos de vida crescentes. Turchin argumentou que, quando ambos os fatores atingem níveis críticos simultaneamente, a "tampa" pode voar pelos ares na forma de revoluções, guerras civis ou colapsos institucionais.
A questão é: a tampa voou em 2025?
Os Acertos: Quando a História Confirmou os Algoritmos
1. Instabilidade Política e Polarização nos Estados Unidos
Turchin foi certeiro ao prever que os Estados Unidos entrariam em uma "situação revolucionária persistente". Em 2025, o país testemunhou protestos generalizados, episódios de violência política e uma polarização tão intensa que enfraqueceu sua capacidade de liderar alianças globais. A previsão de Turchin sobre um pico de violência política se materializou de forma assustadoramente precisa.
2. Conflitos Globais Prolongados
Ele também acertou ao argumentar que as fragilidades internas das grandes potências prolongariam guerras em "zonas de fronteira". A guerra na Ucrânia entrou em seu quarto ano em 2026 sem sinais claros de resolução. Conflitos no Sudão, Myanmar e entre Israel e Palestina continuaram se arrastando, exatamente como Turchin previu, impulsionados pela agressividade nacionalista de elites que precisam de inimigos externos para consolidar poder interno.
3. O Papel das Contra-Elites Populistas
Turchin identificou que figuras populistas como Donald Trump não são aberrações, mas sintomas de ciclos históricos profundos. A reeleição de Trump em 2024 e suas políticas voláteis em 2025 confirmaram a tese de que líderes populistas exploram o descontentamento popular para ascender ao poder, prometendo destruir o establishment que supostamente traiu as massas.
Os Erros: Quando a Realidade Surpreendeu o Modelo
1. A Escala do Colapso Social
Turchin previu um ponto de ruptura revolucionário total ou até mesmo a fragmentação estatal em meados da década de 2020. Embora 2025 tenha registrado aumento de violência e protestos, não houve revolução completa nem colapso institucional total. A sociedade americana, apesar de fraturada, demonstrou mais resiliência do que o modelo antecipava.
2. Ausência de Novas Grandes Guerras
O historiador acreditava que as fraquezas internas das potências poderiam desencadear uma cascata geopolítica, levando a novas guerras de grande escala. Contudo, em 2025, não ocorreram invasões em Taiwan nem escaladas significativas na Coreia. Os conflitos permaneceram majoritariamente regionais, sem o transbordamento catastrófico que Turchin temia.
3. Subestimação dos Fatores Estabilizadores
Os modelos matemáticos de Turchin não capturaram adequadamente o impacto de válvulas de escape como diplomacia e dissuasão entre potências nucleares. Ele não antecipou tréguas parciais, como o acordo em Gaza mediado por Trump, nem a resiliência de certos regimes frente a insurgências. A realidade geopolítica fora do Ocidente mostrou-se mais complexa, com dinâmicas locais e influências regionais dominando os resultados de formas que os algoritmos não previram.
O Veredito: Um Modelo Poderoso, Mas Incompleto
As teorias de Turchin demonstraram alta precisão em relação às dinâmicas internas dos Estados Unidos e à persistência de conflitos em zonas de fronteira. Seu insight sobre a superprodução de elites e a miséria popular como motores de instabilidade política foi brilhante e se confirmou em múltiplas dimensões.
No entanto, o modelo foi menos eficaz em prever eventos geopolíticos específicos e subestimou mecanismos de estabilização que ainda funcionam parcialmente. Retornando à metáfora do caldeirão: Turchin identificou corretamente que o fogo estava alto e a pressão estava aumentando a níveis perigosos. Ele errou ao prever que a tampa voaria completamente pelos ares em 2025, ignorando que algumas válvulas de segurança — diplomacia, dissuasão nuclear, estabilização econômica pontual — ainda funcionavam para evitar a explosão total.
Lições Para o Futuro
O trabalho de Turchin nos lembra que a história não é completamente aleatória. Existem padrões, ciclos e pressões estruturais que podem ser identificados e estudados. Mas também revela os limites da previsão histórica: a complexidade humana, a agência individual e fatores contingentes sempre podem surpreender até os modelos mais sofisticados.
A pergunta que fica é: estamos simplesmente atrasados em relação às previsões de Turchin, ou os mecanismos de estabilização que ele subestimou conseguirão evitar o pior? O caldeirão continua no fogo, e a pressão ainda está alta. A década de 2020 ainda não terminou.
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