PUBLIQUE COISAS FEIAS: O QUE ESCREVER LIVROS ME ENSINOU SOBRE IMPERFEIÇÃO
Mark Thompson, escritor e criador da newsletter The Systematic Writer, tem um nome para esse hábito: ele chama de publicar coisas feias — ou melhor, a recusa em fazer isso. Em seu artigo "Comece a publicar coisas feias" (maio de 2026), ele descreve com honestidade como passou semanas revisando os "últimos 10%" de um texto que, na prática, já estava pronto. E conclui: o problema nunca foi a gramática. Foi a confiança.
ESCRITA CRIATIVA COM IAIA & ESCRITAESCRITA CRIATIVA
Raniere Menezes
6/3/20263 min read


PUBLIQUE COISAS FEIAS: O QUE ESCREVER LIVROS ME ENSINOU SOBRE IMPERFEIÇÃO
Você já passou três horas reescrevendo o mesmo parágrafo do seu capítulo dois? Já apagou uma cena inteira porque "ainda não estava boa"? Já adiou mandar o rascunho para o beta-leitor porque faltava só um ajustezinho?
Eu também. E tenho uma teoria sobre isso.
Polir além de certo ponto não é aprimorar. É procrastinação disfarçada de cuidado.
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QUANDO A REVISÃO VIRA MEDO
Mark Thompson, escritor e criador da newsletter The Systematic Writer, tem um nome para esse hábito: ele chama de publicar coisas feias — ou melhor, a recusa em fazer isso. Em seu artigo "Comece a publicar coisas feias" (maio de 2026), ele descreve com honestidade como passou semanas revisando os "últimos 10%" de um texto que, na prática, já estava pronto. E conclui: o problema nunca foi a gramática. Foi a confiança.
Para quem escreve livros, isso ressoa de um jeito particular.
Porque um livro não é um post de Instagram. É um projeto de meses, às vezes anos. E quanto mais tempo você passa nele, mais difícil fica soltar. Cada frase começa a parecer uma decisão permanente. Cada vírgula, um veredito sobre quem você é como escritor.
Mas aqui está o que ninguém te conta: o leitor não vai perceber a diferença entre seu quinto e seu sétimo rascunho. O que ele vai perceber — ou não perceber, porque o livro nunca saiu — é a ausência da sua voz.
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O QUE É, DE FATO, "FEIO"
Thompson oferece uma definição interessante:
"Feio é deixar uma frase um pouco estranha porque a próxima é boa. Feio é publicar com um erro de digitação que alguém vai apontar nos comentários. Feio é admitir no meio do artigo que você ainda não sabe bem o que quer dizer. Feio é manter a frase que você quase cortou porque soava muito como você."
Releia essa última parte: a frase que você quase cortou porque soava muito como você.
Quando escrevemos livros, passamos uma quantidade absurda de energia tentando soar "como escritores de verdade" — profissionais, refinados, sérios. E no processo, cortamos exatamente o que tornaria nosso livro único: a nossa voz. Aquele jeito torto de construir uma metáfora. Aquela confissão no meio do capítulo que parece informal demais. Aquela frase curta, quase rude, depois de um parágrafo longo.
Feio, muitas vezes, é autêntico.
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O LIVRO PERFEITO?
Os livros que mais nos marcam raramente são os mais polidos. São os mais honestos.
São aqueles em que o autor claramente não sabia para onde estava indo quando começou o capítulo — e não escondeu isso. Aqueles em que uma frase estranha sobreviveu à revisão e ficou exatamente certa. Aqueles em que dá para sentir o suor e a dúvida atrás das palavras.
Thompson observa que os textos em que trabalhou por mais tempo muitas vezes "pareciam ter sido escritos por um comitê". Já os que enviava logo após terminar "geralmente pareciam ter sido escritos por uma pessoa".
Um livro escrito por comitê — mesmo que esse comitê seja só você em dez rodadas de revisão — perde textura. Perde imperfeição. Perde vida.
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ESCREVER O LIVRO FEIO
Isso não é um convite para publicar qualquer coisa sem cuidado. É um convite para reconhecer quando o cuidado virou fuga.
Se você está no capítulo doze reescrevendo o capítulo dois, talvez não seja porque o capítulo dois precisa de mais polimento. Talvez seja porque terminar o capítulo doze significa que o livro vai acabar — e aí você vai ter que mostrar para alguém.
Publique o livro feio. Mande o rascunho para o beta-leitor com a frase estranha intacta. Mantenha a confissão no meio do capítulo cinco. Deixe a vírgula no lugar errado se ela soar como você.
O livro perfeito que nunca sai não alcança ninguém.
O livro imperfeito que existe pode mudar alguém.
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Fonte: THOMPSON, Mark. "Comece a publicar coisas feias." The Systematic Writer, 13 de maio de 2026. Disponível em: https://thesystematicwriter.substack.com/p/start-publishing-ugly
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