QUANDO O ABISMO NOS ENSINA A VOAR
Um artigo sobre criatividade, crise e o improvável que transforma.
TEOLOGIA & CULTURA · REFLEXÃO
Raniere Menezes
6/4/20264 min read


Existe uma cena que me acompanha há algum tempo. É 490 a.C., a Batalha de Maratona. De um lado, o vasto e aparentemente invencível Império Persa. Do outro, Atenas — uma cidade-estado pequena, demograficamente irrelevante diante do adversário. Pelos cálculos racionais da época, os atenienses deveriam ter sido varridos do mapa. Não foram. —Algo próximo está acontecendo na guerra da Ucrânia vs Rússia, com a diferença do arsenal nuclear russo, que pode ser usado ou não.
A crise pode abrir caminhos para transformação. Assim nasceu a democracia e floresceu a filosofia.
O filósofo Edgar Morin usa essa imagem dos Persas vs Gregos para nos lembrar de algo que a modernidade teima em esquecer: o pior não é certo.
Parece simples demais para ser verdade. Mas quanto tempo passamos, cada um de nós, convencidos de que determinados desastres são inevitáveis — no trabalho, nas relações, no planeta inteiro?
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O DETERMINISMO FILOSÓFICO
Há uma armadilha intelectual confortável que se pode chamar de "fatalismo sofisticado". É quando você analisa os dados, lê os relatórios, observa as tendências — e conclui, com ares de quem sabe muito, que não há saída.
Morin discorda. O futuro, ele insiste, não é apenas a projeção linear das correntes do presente. A história é cheia de rupturas, de momentos em que o improvável irrompeu e embaralhou todas as previsões. Atenas venceu. A vacina chegou. O muro caiu. —Edgar Morin viveu 104 anos lúcido e sua leitura da história é bem lúcida, com exceção que retira da equação da análise histórica o fator Deus. Mas ele não teve nada de ingenuidade.
É uma leitura honesta do que a história mostra.
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A ESTRANHA PEDAGOGIA DO ABISMO
Uma das facetas do pensamento de Morin: a catástrofe iminente pode ser, paradoxalmente, o melhor professor que a humanidade já teve.
Quanto mais nos aproximamos do colapso — ecológico, civilizacional, moral — maior a chance de que algo desperte. Uma consciência coletiva. O reconhecimento de que compartilhamos, todos nós, uma comunidade global. A humanidade compartilha um destino comum. Tudo está conectado de alguma maneira.
Já vivi isso em escala pessoal. Provavelmente você também. Aquele momento em que você está com a água no pescoço e, de repente, vê com uma clareza que o conforto nunca te daria. A crise tem uma brutalidade pedagógica que nenhum workshop de inovação consegue replicar.
O problema é quando esperamos demais para acordar.
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CÉLULAS-TRONCO DA SOCIEDADE
Morin usa uma metáfora genial: a criatividade humana funciona como células-tronco. Essas células têm o potencial de regenerar órgãos doentes, mas precisam ser ativadas — ficam dormentes até que o organismo precise delas.
As sociedades funcionam da mesma forma. Em tempos de estabilidade e rigidez institucional, a criatividade se refugia nas margens. É lá que ela sobrevive: nos ateliês de artistas incompreendidos, nas pesquisas de cientistas heterodoxos, nos poemas de quem escreve sem esperar audiência.
Mas quando a crise sistêmica se aprofunda — quando as estruturas convencionais não conseguem mais dar conta — algo muda. A criatividade que estava à margem tem a chance de migrar para o centro. De se tornar uma força coletiva de transformação.
Pense em quantas ideias que pareciam absurdas em 2010 se tornaram política pública em 2020. A crise força o mainstream a se abrir para o que estava do lado de fora.
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PENSAR A COMPLEXIDADE (OU: LARGAR O CANIVETE SUÍÇO)
Existe uma crítica que Morin faz e que trabalha com informação e comunicação: o domínio do pensamento simplista e fragmentado.
Vivemos numa cultura que recorta o mundo em fatias. Economia aqui. Psicologia ali. Biologia lá. Cada especialista fala do seu pedaço como se os outros não existissem. O resultado é que ninguém consegue ver o todo do problema.
A prevenção de catástrofes — e aqui ele está falando de catástrofes reais, civilizacionais — exige um tipo diferente de inteligência. Uma criatividade intelectual capaz de religar os saberes: biologia com história, psicologia com política, física com ética.
Ele chama isso de "pensar a complexidade". É como largar o canivete suíço e pegar uma bússola.
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MEMÓRIA NÃO É NOSTALGIA
O papel da memória como força motriz da história.
A gente tende a pensar na memória como algo voltado para o passado — um arquivo, uma saudade. Mas Morin propõe outra leitura: a memória serve para mudar o futuro. Ao lembrar que o mal é possível, que o colapso já aconteceu antes, que sociedades desmoronaram, nos equipamos para agir diferente.
É a diferença entre quem lembra a história e quem está condenado a repeti-la — não como clichê, mas como prática ativa de vigilância e responsabilidade.
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EROS CONTRA TÂNATOS
Chegamos, inevitavelmente, à questão central.
Diante de uma crise civilizacional, para onde direcionamos nossa criatividade? Morin responde com Freud: para Eros ou para Tânatos. Para a vida ou para a destruição.
Tânatos está bem representado. A criatividade a serviço da destruição tem financiamento farto, audiência garantida e algoritmos favoráveis. É fácil ser criativo na direção do conflito, da polarização, do cinismo.
O desafio — e talvez o projeto mais radical que existe hoje — é ser criativo na direção de Eros. Amor, amizade, solidariedade. Não como sentimentalismo, mas como fundação de uma política de civilização que coloca o ser humano no centro.
Parece utópico? Talvez. Mas lembre de Atenas. E por que não a Ucrânia?
A realidade é tecida por interações, incertezas e contradições.
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SAINDO DA PRÉ-HISTÓRIA
Morin tem uma expressão que diz que: a humanidade ainda vive na "pré-história do espírito humano".
Depois de tudo que construímos — tecnologia, arte, ciência, filosofia — ainda não aprendemos a usar nosso potencial criativo para evitar o que mais nos ameaça. Ainda somos, em muitos sentidos, criaturas reativas, tribais, míopes.
Mas a pré-história tem fim. É por definição o que vem antes de algo maior.
A questão não é se temos capacidade criativa suficiente para atravessar a crise. Temos. A questão é se vamos despertar essa capacidade a tempo — ou esperar que o abismo nos ensine, mais uma vez, a voar para baixo.
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Este artigo foi escrito a partir de reflexões sobre o pensamento de Edgar Morin acerca do improvável, da criatividade e da sobrevivência civilizacional.
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