"SEJA FEITA A TUA VONTADE": QUANDO A EXPRESSÃO É BÍBLICA E QUANDO É DESCULPA PARA A INCREDULIDADE

Expressões como "seja feita a tua vontade" e a ressalva "se for da tua vontade". Ditas com ar de reverência soam como humildade espiritual. Mas será que toda vez que usamos essa frase estamos, de fato, honrando a Deus?

DEUS CONOSCOREINO DE DEUSESTUDO BÍBLICOTEOLOGIA & CULTURA · REFLEXÃOTEOLOGIA BÍBLICA E VIDA CRISTÃ

Raniere Menezes

10/12/20264 min read

Como um termo piedoso pode se transformar em desculpa e incredulidade?

Expressões como "seja feita a tua vontade" e a ressalva "se for da tua vontade". Ditas com ar de reverência soam como humildade espiritual. Mas será que toda vez que usamos essa frase estamos, de fato, honrando a Deus? Existe uma diferença entre o mau uso da expressão, quando ela mascara a falta de fé, e o bom uso, quando ela reflete consagração, planejamento de vida ou a apropriação da vontade que Deus já revelou.

1. O MAU USO: "SE FOR DA TUA VONTADE" COMO DESCULPA PARA A INCREDULIDADE

O mau uso aparece quando o crente acrescenta a cláusula "se for da tua vontade" a uma oração de petição, justamente diante de promessas e bênçãos explícitas da Escritura, como cura, libertação e provisão. Esse hábito carrega desvios teológicos.

Primeiro, a frase funciona como válvula de escape e falsa humildade. Ela livra o crente de responsabilidade espiritual. Quando o milagre não acontece por falta de fé, a pessoa não precisa confessar a incredulidade: basta dizer que "não era a vontade de Deus". Uma solenidade religiosa esconde o fracasso e a dúvida

“Peça-a, porém, com fé, sem duvidar, pois aquele que duvida é semelhante à onda do mar, levada e agitada pelo vento. Portanto, não pense tal pessoa que receberá coisa alguma do Senhor, uma vez que tem mente dividida e é instável em tudo o que faz.” (Tiago 1:6-8 NVI).

Segundo, ocorre um apelo à "vontade secreta" contra a "vontade revelada". O crente recorre a uma suposta vontade oculta e desconhecida em Deus para anular aquilo que Ele expressamente revelou na Bíblia, como a cura na expiação (Is 53:4-5 e Mt 8:16-17). A Palavra de Deus é a vontade de Deus. Logo, flertar com um "se" em relação ao que Deus já prometeu é endurecer o coração contra o texto sagrado.

A vontade não revelada de Deus não pertence a nós, a vontade revelada, que são muitas promessas e bênçãos, pertencem a nós e temos acesso a elas através da fé. A fé que move montanhas.

Terceiro, o uso equivocado transforma Deus em um soberano mentiroso. Insinuar que Deus fez promessas na Bíblia, mas pode escolher não cumpri-las sob o argumento de que "Deus é soberano", faz do Criador um quebrador de alianças e reduz as promessas bíblicas a palavras sem sentido.

Quarto, o resultado prático é resignação e masoquismo religioso. As pessoas aprendem a abraçar a doença, a miséria ou a derrota como se fossem "dádivas de Deus" para a santificação, rendendo-se à opressão satânica em vez de confrontar o mal com a autoridade no Nome de Jesus.

Por fim, há uma contradição com o próprio ensino de Jesus. Em nenhum momento Ele orientou alguém a orar "cura-me se for da tua vontade". Pelo contrário, devolveu a responsabilidade ao indivíduo: "Seja feito conforme a tua fé" (Mt 9:29), "Tudo é possível ao que crê" (Mc 9:23) e "Pedireis o que quiserdes, e vos será feito" (Jo 15:7). E muitas outras passagens que confirmam isso.

2. O BOM USO: QUANDO A EXPRESSÃO É BÍBLICA E LEGÍTIMA

Isso não significa abolir a expressão. A Bíblia reconhece a aplicação correta de "seja feita a tua vontade" em contextos específicos e fundamentais.

A) Orações de dedicação e consagração: o exemplo do Getsêmani

O modelo é a oração de Jesus: "Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres" (Mt 26:39; Lc 22:42). Aqui o crente se prepara e se entrega para cumprir uma missão difícil dada por Deus. Jesus não estava inseguro quanto a uma promessa de bênção, nem pedindo cura. Estava se submetendo voluntariamente à Sua missão redentora de ir à cruz. Trata-se de aceitar a vontade de Deus em termos de serviço e sacrifício pelo Evangelho, e não de uma petição por necessidades cotidianas.

B) Planos pessoais e projetos futuros (Tiago 4:15)

"Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo" (Tg 4:15). Essa passagem diz respeito ao planejamento pessoal e de negócios, em que o ser humano reconhece sua limitação diante do futuro e se submete à providência de Deus. Ela não se refere a promessas que Deus já registrou na Bíblia, mas às escolhas circunstanciais da vida diária.

C) Orar segundo a vontade conhecida e revelada (1 João 5:14-15)

"E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve" (1 Jo 5:14). João não ensina a acrescentar um "se" de dúvida ao final da oração. Ele ensina o crente a descobrir a vontade de Deus na Bíblia antes de orar. Ao consultar a Escritura, constatar a promessa e entender que aquilo é da vontade de Deus, o crente faz a oração de petição com plena certeza e fé inabalável, sabendo previamente que receberá o que pediu.

A chave está em distinguir o tipo de oração. Na oração de dedicação, diz-se "seja feita a tua vontade" para consagrar a vida ao serviço de Deus. Na oração de petição, consulta-se primeiro a Palavra para conhecer a vontade (REVELADA) de Deus e, em seguida, ora-se em fé, declarando "seja feito conforme a tua fé" para tomar posse das bênçãos prometidas na aliança de Cristo.

O termo cabe onde Deus nos chama a servir e a planejar com humildade; fé confiante cabe onde Deus já falou e prometeu. Confundir as duas coisas é o que transforma uma frase piedosa em desculpa para a incredulidade.

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