TIREM AS CRIANÇAS DA SALA: A CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO (CBL) ESQUENTOU O DEBATE SOBRE O USO DA IA
A inteligência artificial veio para ficar no universo editorial — e isso não é ameaça, é fato e oportunidade.
ESCRITA CRIATIVA COM IAESCRITA CRIATIVAINTELIGÊNCIA ARTIFICIALIA & ESCRITA
Raniere Menezes
6/4/20264 min read


Quando a Câmara Brasileira do Livro (CBL) lançou seu Manual de Boas Práticas sobre o uso de Inteligência Artificial no mercado editorial, o debate esquentou. De um lado, os céticos. Do outro, quem já usa a tecnologia no dia a dia e sabe muito bem o que ela pode — e o que ela não pode — fazer. A boa notícia é que o próprio manual da CBL, se lido com atenção, é muito mais equilibrado do que o barulho em torno dele sugere.
Spoiler: a IA não vai roubar sua voz. Mas pode afiar sua escrita.
A POSIÇÃO DA CBL: MAIS SENSATA DO QUE PARECE
O Manual de Boas Práticas da CBL não é um documento de proibição. É um conjunto de recomendações — a entidade não tem poder normativo para impor nada a ninguém. Ainda assim, vale a pena ler o que os editores estão dizendo, porque boa parte das posições faz sentido.
O ponto central é sobre autoria: ferramentas de IA não podem ser listadas como autoras ou coautoras de uma publicação. A autoria exige responsabilidade legal e moral que só um ser humano pode assumir. Isso não é conservadorismo, é lógica. Quem decide publicar um texto está dizendo: "Eu, ser humano, acho que isso aqui é publicável." E, portanto, assume o que está escrito — incluindo os erros, as imprecisões e as eventuais abobrinhadas que a máquina inventou.
Essa é uma posição absolutamente defensável. Você quer colocar seu nome na capa de um livro? Então leia o livro. Todo ele.
A CBL também aponta que usar IA para gerar textos completos, apresentá-los como de autoria humana sem modificação substancial e sem revisão crítica, configura má-fé — e pode ser considerado plágio ou fabricação. Editores do mundo inteiro concordam. E, honestamente, é difícil discordar.
MAS A IA PODE (E DEVE) SER USADA
Aqui está o ponto que muitos perdem na discussão: o manual da CBL não proíbe o uso da IA. Muito pelo contrário. Ele reconhece explicitamente uma série de aplicações legítimas e produtivas para a tecnologia no processo criativo.
A IA é permitida e recomendada para:
- Verificação gramatical, ortográfica e de pontuação
- Sugestões de estilo em nível mecânico
- Brainstorming e geração de ideias
- Superação de bloqueio criativo
- Rascunhos iniciais
- Resumo de conteúdo
- Pesquisa e organização de referências
- Primeira versão de traduções (sempre revisadas por humanos)
Isso é muito. Para um escritor com bloqueio às 23h antes de um prazo, ter uma ferramenta que sugere arcos narrativos, levanta possibilidades de personagens ou simplesmente gera um rascunho tosco para você reescrever? É ouro.
E o melhor: você nem precisa declarar que usou IA para isso. Usar o ChatGPT para pensar em ideias de tensão dramática é tão "declarável" quanto pesquisar no Google os melhores arcos narrativos da história da literatura. É pesquisa. É processo. É trabalho.
O ARGUMENTO DA "ORIGINALIDADE" TEM UM FURO
Um dos argumentos mais repetidos contra a IA é o da originalidade: a inteligência artificial generativa cria a partir de padrões aprendidos de dados existentes. Logo, sua produção é, por definição, derivada.
Tudo bem. Mas espera um segundo.
Nós, seres humanos, também somos imensas enciclopédias ambulantes de experiências acumuladas. Tudo que lemos, assistimos, vivemos, sofremos e celebramos vira matéria-prima para o que criamos. A diferença não é a origem dos dados — é o filtro. É a experiência vivida, o olhar crítico, o viés pessoal, a consciência que transforma referência em obra.
A IA mistura o que já foi feito. O humano transforma. —A IA é um transformer.
Essa distinção é real e importante — mas ela não invalida a IA como ferramenta. Ela apenas confirma que o humano é insubstituível no centro do processo criativo. E não deixará de ser individualmente.
O PERIGO REAL: A REVISÃO BURRA
Onde a IA genuinamente falha — e falha feio — é na revisão literária. A máquina segue regras. Ela não entende com excelência humana os jogos de palavras, ironia, estilo idiossincrático, ruptura proposital de normas gramaticais. Se você jogar um texto do Saramago para a IA revisar, ela vai tentar colocar parágrafos onde não existe nenhum. Fim do Saramago.
A "revisão idiota" da máquina é um risco real. Ela vai pela média, pela regra, pelo padrão — e vai estragar exatamente o que faz o texto ser seu. Por isso, a CBL tem razão ao dizer que coerência, coesão, estrutura e adequação ao público devem permanecer sob responsabilidade de editores e revisores humanos. Daqui a 3,5 anos, a IA pode superar a escrita humana de alto nível. E ninguém vai mais discutir esse assunto.
O problema não é a Inteligência Artificial, mas a Inteligência Superficial Humana.
O mesmo vale para tradução literária. A IA pode dar uma primeira versão útil para textos técnicos. Mas em ficção, com subentendidos, ditados, jogos culturais e diálogos carregados de nuance? Sai muita porcaria (hoje). Alguém precisa olhar. Sempre. E as IAs estão cada vez melhores em corrigir erros.
E AS ALUCINAÇÕES?
Ah, sim. A IA inventa. Inventa citações, datas, nomes, fatos — com confiança que você precisaria de anos de terapia para alcançar. Se você usa a IA para pesquisa ou para incluir dados concretos no seu texto, cheque tudo. Sem exceção. A ferramenta alucina com naturalidade e sem aviso. —Esse problema está sendo corrigido também. Há IAs que estão sendo treinadas a não inventar dados, reconhecer e declarar quando não tem certeza. E também para amenizar este problema se deve abastecer a IA com dados e contextos mais completos.
Isso não é razão para não usar a IA. É razão para usá-la com inteligência.
CONCLUSÃO: USE, ASSUMA O CONTROLE, ASSINE COM SEU NOME (COM TRANSPARÊNCIA)
O debate sobre IA e escrita criativa vai continuar por um tempo. E tudo bem. A tecnologia está em transformação constante — o que ela faz hoje é diferente do que fazia há um ano e diferente do que fará daqui a seis meses.
O que não muda é o papel do escritor: você é quem tem voz, ideias, perspectiva, experiência de vida, capacidade de emocionar e de ser emocionado. Nenhuma máquina substitui isso (ainda). Estamos ainda na Idade da Pedra da IA.
Use a IA para o que ela é boa: organizar, sugerir, rascunhar, corrigir o óbvio, superar o bloqueio das 23h. Mas escreva você. Revise você. Assine você.
E leia o maldito livro antes de publicar.
Minha sugestão prática é: Use IA com produtividade e rapidez e revise lentamente. Rápido e devagar.
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© Raniere Menezes
