Tropeçar na Verdade e Seguir Como se Nada Tivesse Acontecido: Ainda Sobre Cessacionismo

Winston Churchill, com sua ironia britânica, resumiu a condição humana em uma frase: "Os homens ocasionalmente tropeçam na verdade, mas a maioria deles se levanta e segue em frente como se nada tivesse acontecido."

CESSACIONISMO

Raniere Menezes

7/23/20266 min read

"Os homens ocasionalmente tropeçam na verdade, mas a maioria deles se levanta e segue em frente como se nada tivesse acontecido."

Não é uma observação sobre burrice. É uma observação sobre covardia disfarçada de sobriedade.

E poucos lugares na teologia contemporânea ilustram essa frase com mais precisão do que o cessacionismo. Porque o cessacionista não é um homem que nunca encontrou a verdade sobre o poder de Deus. Ele é um homem que tropeçou nela — e se levantou rápido demais, sacudiu a poeira da gravata e seguiu andando na direção oposta, como se o encontro nunca tivesse ocorrido.

Chamemos essa manobra pelo nome que ela merece: hermenêutica da incredulidade.

O Tropeço na Clareza das Escrituras

O cessacionista se apresenta como o guardião do Sola Scriptura. Mas observe o que acontece quando ele chega em 1 Coríntios 14:1: "Segui o amor e desejai ardentemente os dons espirituais" — no grego, zēloute (ζηλοῦτε), um imperativo presente, um comando contínuo, não uma sugestão histórica com prazo de validade.

Ele tropeça. Lê o texto. Sabe que ali está escrito um mandamento, não uma velharia arqueológica.

E então se levanta com seu diploma de Doutor em NT. Inútil diploma.

Recorre à gramática seletiva, a "zombaria acadêmica" de notas de rodapé que dizem mais sobre a tradição do exegeta do que sobre o texto grego, e segue andando como se Paulo estivesse escrevendo sobre relíquias, não sobre ordens.

O mesmo se repete em 1 Coríntios 14:39: "não proibais o falar em línguas." Um mandamento negativo, direto, sem cláusula de expiração — e ainda assim tratado como letra morta por quem jurou viver sola scriptura.

Isso não é hermenêutica. É idolatria do cânon: usar o livro para calar a voz do Autor que se diz honrar.

A Dissonância Cognitiva Batizada de "Suficiência"

O cessacionista afirma, com ar solene, que a Bíblia é suficiente. Muito bem — mas suficiente para quê, exatamente?

Aqui está o problema que ele nunca resolve: se a suficiência das Escrituras funcionasse como ele argumenta — encerrando a necessidade de manifestação sobrenatural do Espírito —, então o Antigo Testamento, que Paulo já chamava de suficiente (2 Timóteo 3:16-17), teria anulado a necessidade do Novo Testamento antes mesmo de ele ser escrito. O próprio argumento se devora.

Ele tropeça nessa contradição lógica todos os dias. E todos os dias se levanta, escolhe não examiná-la, e prefere o conforto de um sistema fechado à realidade de um Deus que continua a soprar sobre o mundo que criou.

Suficiência das Escrituras nunca significou silêncio de Deus. Significou que tudo o que Deus revela está de acordo com o que já revelou — não que Ele parou de falar. Não se trata de acrescentar livros à Bíblia. Nenhum carismático apoiaria isso, trata-se de profecias não normativas, para edificação da Igreja.

A profecia não é uma "muleta histórica" ou algo que servia apenas para o período de formação do Cânon; ela possui funções vitais, contínuas e obrigatórias para a Igreja hoje.

As principais funções das profecias são:

Edificação, Exortação e Consolo: A profecia é a "ferramenta mais útil para a edificação e o ministério", sendo a voz profética do Espírito Santo agindo no corpo de Cristo. Ela visa edificar a igreja através de uma operação dinâmica no culto, e não apenas pela leitura de textos prontos.

Poder e Direção Específica: A revelação profética é um meio estabelecido por Deus para trazer "poder e direção específica" à comunidade. Ela funciona como a "voz audível" de Deus que guia os crentes em situações presentes, sem necessariamente criar "novas doutrinas" que substituam o Evangelho.

Demonstração da Presença do Espírito: A profecia é um resultado direto e uma evidência do batismo no Espírito Santo. Ela comprova que o Espírito não foi reduzido a uma mera "influência moral difusa", mas que opera com poder real nos "últimos dias" (período que vai do Pentecostes até a segunda vinda).

Manifestação do Reino de Deus: Assim como os milagres e curas, a profecia é uma das formas pelas quais o Reino de Deus é manifestado de forma evidente e não apenas teórica. Ela revela a glória de Deus e confronta a incredulidade.

Equipamento para o Ministério e Testemunho: Jesus prometeu que Seus seguidores receberiam poder (dunamis) para serem Suas testemunhas. A profecia faz parte desse "equipamento necessário" de todo ministro do Evangelho para enfrentar o cinismo e a oposição espiritual.

Obediência e Exercício da Fé: Buscar e exercer o dom de profecia é uma forma de obediência direta ao mandamento bíblico de "procurar com zelo os dons espirituais". O exercício desse dom treina a igreja a não ser apenas "ouvinte ou debatedora" da Palavra, mas "praticante" do poder de Deus.

A profecia só cessará quando o "perfeito" chegar — que é a visão face a face com Deus na ressurreição. Como esse estado ainda não foi atingido, a função da profecia permanece indispensável para que a igreja não caminhe como um "inválido espiritual" desprovido da comunicação direta com seu Senhor.

A Polidez de Gravata: O Desprezo Respeitável

Aqui mora a parte mais cínica da história.

Quando o cessacionista se depara com um milagre documentado, com uma cura real, com uma manifestação do Espírito que ele não consegue explicar pelo seu sistema teológico, ele não faz o que a honestidade exige: parar, examinar, temer. Ele faz o que a sua reputação exige: rotular.

"Emocionalismo." "Histeria." "Fraude." "Fenômeno psicológico." O vocabulário da suspeita é aplicado.

Ele se levanta do testemunho sobrenatural e corre de volta ao seu monumento de incredulidade: os credos, as tradições, os comentários seguros de homens mortos há séculos. E chama isso de sobriedade teológica. Não é. É medo vestido de erudição. —E antes contra argumente que este texto condena todos os credos, tradições e teólogos, não, não condena, condena apenas ensinos cessacionistas embutidos ou interpretados forçosamente.

A ausência de poder não é virtude.

A Preferência pelo Conforto em Vez do Poder

Por que tanto esforço para explicar o milagroso? Porque o sobrenatural é perigoso — não para a fé, mas para a reputação acadêmica ou institucional.

Pedro andou sobre a água até parar de olhar para Jesus e começar a olhar para o vento (Mateus 14:30). O cessacionista, por sua vez, nunca sequer sai do barco. E, para justificar sua permanência segura na embarcação, prefere crucificar Cristo novamente — reduzindo-O a um Jesus domesticado, um Cristo teórico, bom para citações de sermão, mas incapaz de curar, libertar ou manifestar poder hoje.

Um Cristo que não exige demonstração de Espírito e de poder (1 Coríntios 2:4) é um Cristo domesticado. E Cristo domesticado é sempre mais confortável do que Cristo vivo.

O Seguimento Teimoso no Caminho da Rebelião

E aqui chegamos ao ponto mais grave: seguir em frente "como se nada tivesse acontecido" não é neutralidade teológica. É rebelião institucionalizada.

O cessacionista constrói toda a sua doutrina sobre uma leitura torta de 1 Coríntios 13:10 — "quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado." O grego usa to teleion (τὸ τέλειον), um termo que em nenhum outro lugar do Novo Testamento se refere a um livro. Refere-se à maturidade, à plenitude, ao encontro face a face — a consumação escatológica, não a última página do cânon.

Mas o cessacionista já decidiu a conclusão antes de fazer a exegese. E assim segue pregando, teimosamente, que Deus parou de operar exatamente aquilo que Suas próprias Escrituras ordenam que busquemos.

Isso tem nome: apostasia sistemática. Alguém que parcialmente fala a linguagem da fé, cita os versículos certos, parcialmente ora as orações certas, mas nega a substância de poder que deveria definir tudo isso (2 Timóteo 3:5).

O cessacionismo é prova a frase inicial de Churchill.

É a capacidade extraordinária de ler promessas explícitas de poder e expansão espiritual — e, ao fechar o livro, pregar que Deus emudeceu. A verdade está ali, sublinhada, gritando do texto grego, do contexto histórico, da lógica interna das próprias Escrituras que eles juram defender.

Mas eles tropeçam, se levantam, sacodem a poeira — e seguem para seus seminários, suas conferências, seus púlpitos seguros, protegendo suas tradições contra o único Deus que ainda insiste em operar maravilhas.

A pergunta não é se você vai tropeçar na verdade. Isso é inevitável para quem lê as Escrituras com honestidade. A pergunta é o que você faz depois de cair: examina, ou se levanta como se nada tivesse acontecido?

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